T39 - Janeiro 19
Dois cafés & a conta

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lutar contra a maré
"Apesar das pressões da Reitoria para fecharmos o curso, nós resistimos, e no fim tivemos razão"
à procura da inovação
“Não nos limitamos a esperar que nos venham pedir ajuda. Também somos proativos e propomos projetos às empresas”
Fernando Ferreira

Fernando Ferreira é o Diretor do Centro de Ciências e Tecnologia Têxteis da Universidade do Minho (2C2T), tem 57 anos e uma vida dedicada a ajudar as empresas têxteis nacionais a abraçarem a inovação.

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Centro de Ciências e Tecnologia Têxteis da Universidade do Minho (que também responde pela sigla abreviada de 2C2T ) é a porta onde as empresas vão bater quando têm um problema cabeludo para resolver – ou estão desertas de ideias para fazer algo diferente que lhes confira um extra de competitividade.

“Não nos limitamos a esperar que nos venham pedir ajuda. Também somos proativos e propomos projetos às empresas”, explica Fernando Ferreira, o diretor de um centro de i&d em que estão envolvidos cerca de uma centena de investigadores, desde doutorados da casa até técnicos, passando por bolseiros e alunos de mestrado ou doutoramento.

Quando a Somelos ficou alarmada com a elevada percentagem de defeito que estava a ter no fabrico de um fio elástico muito fino, revestido a algodão e com elastano e lycra dentro, foram ter com o 2C2T e em conjunto arranjaram uma solução que optimizou o processo de fabrico, reduzindo o desperdício e tornando-o energeticamente mais eficiente. Melhor era impossível.

O fato de bombeiro que, através de sensores embebidos na estrutura têxtil (ou seja não são cosidos nem laminados), fornece informações sobre a localização e sinais vitais do utilizador – ritmo cardíaco, temperatura exterior e do corpo, transpiração, etc – que a Latino está a apresentar no mercado (e deu origem a uma patente europeia), é fruto da colaboração da empresa com o 2C2T.

Os airbags para os Audi autónomos, que está a desenvolver com os alemães da ZF, que têm fábrica em Ponte de Lima, são um dos cerca de 40 projetos, de dimensão e maturidade variadas, que a 2C2T tem em mãos.

“Estamos com vários projectos na área automóvel”, confessa Fernando Ferreira que escolheu a vitela, excepcionalmente acompanhada por um copo de vinho (por norma bebe água, para evitar que à tarde lhe dê a preguiça), um dos dois pratos do dia no Grill da Universidade, onde almoça todos os dias da semana e a que não poupa elogios: “fazem o melhor salmão grelhado do mundo”, garante.

Transformar os problemas em negócios é uma das especialidades do Departamento de Engenharia Têxtil (DET) da Universidade do Minho. E foi com esta atitude descomplicada que ultrapassou a desesperante escassez da procura por parte dos estudantes, quando na viragem no milénio se instalou a perniciosa ideia que a têxtil era um indústria sem futuro no nosso país – ideia que a prova dos nove do tempo acabou por demonstrar ser errada.

“A publicidade negativa à volta da têxtil tornou extremamente difícil a nossa tarefa de captar alunos. Mas apesar das pressões da Reitoria para fecharmos o curso de Engenharia Têxtil, nós resistimos, lutamos contra a maré, diversificando a oferta, e hoje ninguém duvida de que tivemos razão em lutar contra a maré”, afirma Fernando Ferreira.

Com cerca de 500 alunos, nos três ciclos (licenciatura, mestrado e doutoramento), de uma oferta alargada a áreas como Design e Marketing de Moda, Comunicação de Moda e Química Têxtil, o DET da UMinho defronta-se agora com um problema completamente diferente – o de não conseguir satisfazer as solicitações das empresas.

“Os alunos que formamos não chegam para as encomendas. Ninguém sai daqui para o desemprego”, conclui o diretor do 2C2T, um centro de investigação que desde 2003 tem sido sucessivamente avaliado como Excelente por um painel de peritos internacionais.

Perfil

Nasceu em Riba de Ave, bem no coração da nossa ITV, filho do casamento entre uma doméstica e um contabilista, que em determinada fase da sua vida foi dono de uma fábrica que reciclava desperdícios têxteis. Mal conclui a 4ª classe, mudou-se para Guimarães, onde completou o Secundário, vivendo em regime de internato no Lar do Estudante até ter idade para fazer de moto o percurso entre casa e o liceu. Os primeiros dinheiros ganhou-os a dar aulas de Matemática na Francisco de Holanda, enquanto fazia o curso de Engenharia Têxtil na Universidade do Minho, que acabou em 1984. Ficou logo como monitor, enquanto fazia o estágio na Riopele, onde se demorou mais de um ano. Escapar à tropa foi o motivo prosaico que o levou a decidir-se pela carreira académica (que lhe garantia adiamentos sucessivos da incorporação), um dos seus dois amores - o outro era a Riopele, de que guarda boa memórias. Doutorou-se em Leeds (onde viveu três anos), em 1994, com uma tese sobre a automatização da costura. Professor associado no Departamento de Engenharia Têxtil da UMinho, é casado com uma engenheira têxtil e tem uma filha, Beatriz, estudante de Engenharia Têxtil.

RESTAURANTE
Grill da UMinho

Entradas Chamuças, croquetes e rissóis Pratos Vitela assada com arroz de ervilhas e espinafres, chocos com batata cozida e molho verde Sobremesa Fruta laminada e bolo de ananás Bebidas Água, vinho verde (Largo do Paço) e dois cafés

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