T 25 Outubro 2017
Dois cafés & a conta

Jorge Fiel

Braz Costa
De momento, a sua principal preocupação é preparar o CITEVE para os desafios da próxima década...
CITEVE
“Vivemos do que faturamos. Não recebemos subsídios”
António Braz Costa

O diretor-geral do CITEVE tinha duas paixões: a música e a engenharia. Na última da hora teve de optar por uma mas, nunca deixou de lado a sua paixão pela música, tendo na cave lá de casa tantos instrumentos que quase dava para equipar uma orquestra.

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aul Valery aconselhou-nos a não tentar prever o futuro, pois isso equivale a insultar Deus. Convicções religiosas à parte, Braz Costa não liga patavina à recomendação do filósofo francês, e do que mais se orgulha, desde que assumiu a liderança do CITEVE no ano 2 000 – interrompida entre 05-09, quando foi administrador do IAPMEI – , é da capacidade que ele e a sua equipa tiveram para antecipar o futuro.

“No plano a dez anos que traçamos, formulámos percursos de desenvolvimento que coincidiram com o que se veio a passar. Em 2003, quando decidimos criar o CeNTI e apostar na nanotecnologia, muita gente pensou que éramos malucos. Estavam enganados. O futuro da têxtil passava pela alta tecnologia”, afirma o diretor-geral do CITEVE, que escolheu almoçarmos na sua terra natal o prato típico da região.

Saber ler o mundo, observar e estudar bem o que se está a passar para estar preparado a apoiar, no futuro, o setor naquilo que vai precisar, é a primeira das preocupações do CITEVE, onde trabalham 200 pessoas e que tem um orçamental anual na ordem dos 10 milhões de euros.

“Vivemos do que faturamos. Não recebemos subsídios”, explica o diretor-geral do CITEVE, que trabalha anualmente com cerca de 1 100 empresas das quais 20% estrangeiras.

A consultoria representava 80% da atividade do centro, quando Braz Costa desembarcou em Famalicão. Mas ele não descansou enquanto não inverteu a percentagem. Hoje, a i&d representa 80%, enquanto a consultoria não vale mais do que 20%.

Braz Costa reconhece que o CITEVE não é alheio ao bom momento da ITV, ao ter sabido evangelizar o setor, explicando que havia outras maneiras de têxtil, sensibilizando os empresários para a criação de capacidade de desenvolvimento tecnológico e o fabrico de produtos de elevada tecnicidade.

Mas atribui o essencial do mérito às empresas, por terem sabido ouvir e interpretar a mensagem -, e não esconde o papel do vento ter soprado a favor (atentados na Turquia, Primavera árabe, preço do petróleo…).

De momento, a sua principal preocupação é preparar o CITEVE para os desafios da próxima década, para o day after ao quadro comunitário que acaba em 2020.

“Os períodos de crescimento da ITV são de dez anos. Ora nós estamos a crescer desde 2009”, alerta, antes de elencar alguns dos pontos fracos do setor, a começar pela falta de cabeças de obra, engenheiros e chefes de linha e mão-de-obra especializada.

“Essa escassez já é um problema e pode ser a morte da indústria. Este ano, as 30 vagas do curso de Engenharia Têxtil foram preenchidas logo na primeira fornada, o primeiro entrou com 18,5 e o último com 15,5. É uma boa notícia. Mas não podemos esquecer que só em Hong Kong há uma universidade que forma mais engenheiros têxteis que a Europa toda”, adverte Braz Costa, um apóstolo da modernização permanente da ITV e apaixonado por música, que tem na cave de lá de casa instrumentos diversos – , de violões a bateria, passando por flauta, concertina, baixo, sintetizador, etc, – em quantidade que quase dava para equipar uma orquestra.

Perfil

O mais novo dos dois filhos de um casal de comerciantes, donos de uma loja de fruta, nasceu e cresceu no centro de Águeda, onde estudou até ao 12º ano, quando teve de escolher entre duas paixões: a Música (estudou flauta no Conservatório) e a Engenharia - impôs-se o critério da racionalidade económica. Sempre sonhou com a FEUP, mas mudou de ideias na última hora, ao ver que o curso da UMinho era o único com uma cadeira de Programação de Computadores. Nunca tinha posto os pés em Braga, onde foi para ficar. A meio do curso, fez a tropa, entre Mafra e o Porto. Licenciado em Engenharia Mecânica, iniciou a carreira com empregos numa fábrica, que fornecia Renault e Volvo, e na Universidade, onde era professor e investigador. Deu nas vistas ao fundar o IDIT Minho, onde se demorou oito anos, até aceitar ser diretor-geral do CITEVE. É viúvo e tem dois filhos: Inês, 26 anos (lic. em Marketing e Administração) e Miguel, 21 anos (lic. em Música).

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