Jorge Fiel
O CEO da Fitecom tem 58 anos, é engenheiro têxtil (UBI) e empresário agrícola - investiu na Quinta dos Termos (há três séculos nas mãos da família) e é o maior produtor de vinhos DOC da Covilhã
uando era miúdo e ajudava na quinta dos pais a tirar da terra tudo quanto ela lhes podia dar – vinhos, centeio, aveia, batata (“Chegamos a ser os maiores produtores da região”) e gado -, tinha a certeza de que, quando fosse grande, não queria ser agricultor.
Pois andou pelo terciário (durante 20 anos foi professor na UBI), deitou âncora no secundário, mas acabou por retornar ao setor primário, ao investir na Quinta dos Termos (há três séculos nas mãos da família) e se tornar o maior produtor de vinhos DOC da região.
“Os nossos vinhos têm um enorme potencial. São sérios e não cansam. Sabem diferente de cada vez que levamos o copo à boca”, afirma enquanto bebíamos o Riesling com as entradas. João arrancou vinhas, plantou novas, multiplicou por três a área da quinta (já vai nos 180 hectares), demostrando que não voltou a ser agricultor por diversão, mas também pelo negócio, que vale 1,5 milhões de euros/ano.
Licenciou-se em Engenharia Têxtil na UBI, mas o mestrado e doutoramento informais em lanifícios foram feitos com a mão na massa, durante os quatro anos que se demorou no grupo Sofal, após concluir o curso. “Foi uma experiência muito boa, uma grande escola, quer a nível de produção quer de gestão”.
“A melhor escola que existe é a da vida”, teoriza João, que começou o curso prático de empreendedorismo logo no início da adolescência, quando os pais lhe atribuíram uma parcela de terra que ele trabalhava para assegurar o seu sustento.
Mais tarde, em 1989, quando deixou a Sofal, seduzido pelo desafio de reestruturar uma das mais emblemáticas empresas de lanifícios da Covilhã, a vida ensinou-lhe duas importantes lições. A primeira é que a tecnologia é fundamental: “Todos os anos invisto o valor das amortizações. Não temos máquinas com mais de dez a quinze anos”. A segunda é que os chineses têm razão quando usam o mesmo ideograma para designar crise e oportunidade.
Os donos da antiga empresa laneira não arriscaram investir na modernização e ela acabou por morrer, estrangulada pela sua antiquada tecnologia. Mas esta crise foi uma oportunidade para João Carvalho, que em 1993, com mais dois sócios, comprou em hasta pública os ativos da fábrica, fundou a Fitecom (iniciais de Fiação, Tecelagem e Comercialização), e aprendeu uma terceira lição, a de que a sorte e o azar existem.
O projeto, candidato ao Sistema de Incentivos Regionais, foi chumbado pelo IAPMEI da Covilhã. Se não tivesse sido repescado em Coimbra pela CCR do Centro, provavelmente hoje a Fitecom não existia, com evidente prejuízo não só para os seus 185 trabalhadores, mas também para a economia que não contaria com uma empresa que fatura perto dos 15 milhões de euros, exporta 98% da produção, investe em i&d, tem clientes de referência mundial na sua carteira de 400 clientes e ganhou o Prémio Nacional de Inovação com um tecido que é 30% mais fresco no Verão e 30% mais quente no Inverno.
“Não senti a crise. Nunca baixei a faturação. Estamos a crescer 10% ao ano”, remata João Carvalho, um industrial e agricultor que resume em três a sua receita para o sucesso: tecnologia, investimento e exportação.
Adelina, a mãe, queria que ele fosse professor primário. Alexandre, o pai, preferia-o médico. João, que nasceu na Quinta dos Termos, Belmonte, fruto de uma distração dos pais (ela tinha 44 anos e ele 47 quando o tiveram), optou por cursar Engenharia Têxtil, na UBI, onde conheceu a mulher, Lurdes, de quem tem dois filhos, Miguel, 34 anos, engenheiro eletrotécnico, e Pedro, 25, economista com uma pós graduação em Wine Business, que trabalha em Lisboa mas vai regressar à terra para assumir o negócio de vinhos da família. Aos 13 anos, arrumado o 1º ciclo, via Telescola, ia numa Zundapp até à estação, apanhar o comboio das sete para a Covilhã, onde foi colega de carteira de Sócrates no liceu. Trabalhou a sua parcela de terra, deu aulas e foi engenheiro têxtil até que há 22 anos arriscou ser empresário.
EN 18, a meio caminho entre Fundão e Covilhã 6320-024 Alcaria
Enchidos da Beira Interior, salada de polvo, queijo fresco. Cabrito no churrasco e arroz de carqueja. Tarte de uísque e queijo da Serra. Quintas dos Termos Riesling (branco) e Reserva do Patrão (tinto). Dois cafés