15 setembro 2016
Dois cafés & a conta

Jorge Fiel

Desafios
Design, inovação e certificação são os novos desafios de indústria
Futuro
A têxtil vai ter um peso brutal na vida das pessoas, muito para além da roupa que vestem
António Amorim

Se souber ultrapassar as ameaças, a indústria têxtil vai ter um futuro brilhante, avisa António Amorim, 64 anos de vida e 25 de CITEVE

A
A

têxtil vai ter um peso brutal na vida das pessoas, muito para além da roupa que vestimos. António Amorim faz este prognóstico do alto dos 25 anos que leva do CITEVE e de uma vida dedicada aos trapos, onde nasceu, cresceu e se fez homem.

“A nossa indústria tem trabalhado bem. E terá um futuro brilhante se souber ultrapassar as ameaças. Ainda há muitas empresas a venderem mão de obra. E temos debilidades como os custos da energia e previsível falta de recursos humanos, pois deixou de se investir a sério na formação quando Lisboa começou a dizer que a têxtil era para acabar”, afirma.

Qualidade, serviço, gestão e formação são os quatro pontos cardeais que orientaram as empresas da ITV que não naufragaram durante uma turbulenta viagem, em que foram fustigadas por duas terríveis tempestades: a arrasadora concorrência asiática e a crise das dívidas soberanas.

“Hoje, esses princípios já são dados adquirido. Tão automáticos como respirar. Quem não os pratica, está a perder tempo e dinheiro”, avisa o presidente do CITEVE , orgulhoso do trabalho de evangelização desenvolvido pelo centro tecnológico, que ajudou as empresas a subirem na cadeia de valor, sem mais competitivas e exportarem cada vez mais.

Amorim também preside à plataforma europeia de centros tecnológicos, o que o coloca numa posição privilegiada não só para influenciar a política da UE para o setor, mas também para sentir a direção em que sopram os ventos.

“Os novos desafios? O design, a inovação e a certificação. Pormenores como os rótulos que serão cada vez mais lidos e mais detalhados, serão cada vez mais importantes”, prevê António Amorim, que escolheu almoçarmos no Valentim, propriedade do seu primo direito Rui Sousa Dias, que também tem uma costela têxtil – antes de se dedicar à restauração foi sócio de uma têxtil lar (Arditex).

A escolha do robalo foi consensual. “Peixe com legumes é a ementa em 90% das minhas refeições”, revela António, que quase só molhou os lábios no copo de Riso, numa conversa em que estiveram em cima da mesa as recordações e lições de uma carreira de 40 anos, iniciada com uma pós graduação no negócio têxtil feita durante os três anos em que, no final do curso, passou por todos os departamentos da TMG.

Ainda esteve na Fábrica dos Casais, em Riba d’Ave, e foi director financeiro na Filda, até deitar âncora na Arco Têxteis, onde se demoraria até 2010, data em que pôs termo a um casamento de 30 anos, por divergências sobre o caminho a seguir para relançar o grupo.

Amorim defendia o fecho das fiações, onde perdiam rios de dinheiro, a capitalização da empresa (através da desmobilização da posição que tinham no BPI) e o investimento numa tecelagem moderna. A maioria accionista preferiu não sair da banca, e reforçar o investimento na fiação e numa tinturaria 100% robotizada.

A tristeza toma-lhe conta do rosto quando se fala da queda da Arco. “Tenho muita pena. A Arco tinha um know how fantástico e uma carteira de clientes fabulosa.…”.

O sorriso volta a alegrar-lhe a cara quando fala da missão a que se agarrou a tempo inteiro quando saiu da Arco-  e elogia a excelência da centena de pessoas (95% licenciados) que trabalham no CITEVE,  e dos 50 quadros (todos doutorados) do CeNTI, um exército de vanguarda comandado no dia a dia por um  “belíssimo diretor geral” (Braz Costa). É por essas e por outras que, apesar já estar com 65 anos quando o seu atual mandato acabara em junho próximo, está disponível para continuar. “Adoro o que estou a fazer”, explica.

Perfil

O 25 de Abril apanhou-o no último ano de Economia, na FEP, onde teve como professores Miguel Cadilhe (seu vizinho na Póvoa) e Alípio Dias. Mas o grande professor da sua vida foi Manuel Gonçalves, que era casado com Mercedes, uma prima direita do seu pai. Entre os 18 aos 27 anos, passava um mês de férias no Algarve com o primo Fernando e o pai dele, o fundador da TMG, “Aprendi muito com ele”, garante António, que nasceu em Famalicão, mas se mudou ainda bebé para a Povoa, onde o pai, Manuel Ferreira Amorim, montou uma fábrica que fazia vestuário em oleado para os pescadores. Mais novo de quatro irmãos - os outros estão espalhados pelo mundo, de Vancouver a Gotemburgo, passando pelo Rio, onde vive Luís, casado com uma filha de João Havelange -, tem dois filhos: Rui Miguel, 34 anos, licenciado em Economia em York, e Tiago, 30 que fez Gestão Desportiva, em Barcelona

RESTAURANTE
Valentim

Rua Heróis de França 253

4 450-158 Matosinhos

Entradas: Presunto e polvo com molho verde Pratos: Robalo com legumes e batatas a murro Bebidas: Riso (branco), água e dois cafés

Partilhar