Luxo e sustentabilidade (I)
T87 - Outubro 23

Susana Neto

Artista Têxtil
A

ssistimos a alterações de mentalidades e a uma nova geração que entra no mercado de luxo com um poder de compra de uma dimensão nunca vista em gerações anteriores, na mesma faixa etária, a geração Z. 

Prevê-se que, em 2030, a Geração Z e os Millennials, em conjunto, representem 70% deste mercado. Embora uma parte significativa se deva à procura de experiências inesquecíveis. é espectável que cresça significativamente para os bens pessoais, igualmente.

Procuram marcas que sejam transparentes e autênticas nas informações que transmitem; marcas com responsabilidade social, que estejam empenhadas na diminuição real do seu impacto ambiental. São gerações que valorizam uma comunicação bilateral, nas redes sociais, com as marcas, e o envolvimento destas.

Surge, igualmente, um mercado de bens em segunda vida, com muita qualidade, que seria impensável há poucos anos atrás, sendo o mercado de luxo um seu grande motor. 

Os três pilares neste mercado atual do luxo, e prevê-se que será a tendência para os próximos anos, são a tecnologia, a tradição e o design inovador.

 

Artigos em segunda vida

O mercado de artigos usados detinha uma conotação muito negativa e era dirigido a pessoas de muitos baixos rendimentos. Não havia um esforço de recuperação ou seleção de peças em muito bom estado. No entanto, atualmente, é no mercado de Luxo que há um grande aumento da procura destes artigos.

Já há uma exigência muito grande por parte destes consumidores que procuram peças de muita qualidade, em muito bom estado. Peças essas que consideram como um investimento. 

Alguns dos artigos que procuram são peças que já não se fabricam e que são praticamente únicas. Esta alteração de perspetiva, relativamente à compra ou aluguer de artigos usados, é alimentada pelo foco dos clientes na redução da produção de novos artigos, num mundo já saturado de têxteis. 

Desta forma, quem adquire bens em segunda vida, deixou de ser conotado como uma pessoa que não tem possibilidades para adquirir novo e, antes, como alguém que se preocupa com o Futuro e deseja contribuir para uma causa maior.

Surgiram vários modelos de negócio para estes artigos. Sendo que, este mercado, está a ter um crescimento muito significativo.

Existem as chamadas bibliotecas de roupa, por exemplo, onde se adquirem peças usadas que se podem ir trocando por outras, indo de encontro ao tipo de cliente que gosta de variar o seu guarda-roupa mantendo um estilo de vida sustentável. Fazendo também muito sentido para quem deseja algo só para um evento.

Muitas marcas de luxo têm os seus artigos em segunda vida nos marketplaces, no entanto, já há algumas marcas que desejam gerir estas vendas de forma a deterem um controlo mais apertado sobre a certificação das peças e a terem maior acesso aos dados dos seus clientes.

De qualquer forma, o mercado encontra-se dividido relativamente a este tema e há muitas dúvidas sobre quais os modelos de negócio mais apropriados, pois a aposta de uma marca nesta opção, pode canibalizar parte do seu mercado.

Para que os consumidores se identifiquem com uma marca baseada num modelo de negócio circular, há quem dê a possibilidade aos consumidores, de enviarem as suas peças para reparação, ou adquirirem uma nova, com condições especiais, quando enviam a antiga, em troca.

Também há empresas que dão a possibilidade aos seus compradores, de fazerem uma subscrição e receberem, com uma frequência definida, uma nova peça de roupa em troca da anterior. Esta peça de roupa que é devolvida, entra novamente na produção depois de ter sido reciclada para produzir novas peças.

 

Mercados asiáticos com novas possibilidades

Mercados como a China e a Índia, têm adquirido poder de compra e estão a ter um dos maiores crescimentos no mercado de luxo. 

Simultaneamente, têm criado marcas próprias que já estão a entrar em países como a França, por exemplo. Temos o caso de uma companhia indiana que fez uma parceria estratégica com as Galerias Lafayette para abertura de outlets de luxo. 

Em maio de 2022, a atriz indiana Deepika Padukone, tornou-se a primeira ‘house ambassador’ para a LV. Prevê-se que o mercado indiano cresça cerca de 3,5 vezes entre 2023 e 2030.

As grandes marcas que não souberem adaptar-se, poderão ser adquiridas e transformadas, à semelhança do que aconteceu com a Lanvin, adquirida por uma empresária chinesa. Embora estes mercados estejam em franco crescimento, a par de outros mercados asiáticos, têm de ser estudados com muito rigor, pois procuram quem fale a sua língua, conheça os seus hábitos e as suas culturas, tão distintas, muito aprofundadamente.

Algumas empresas optam pela criação de parcerias com outras que já dominam as exportações para estes países, de forma a terem apoio e maior rapidez no processo de exportação.

 

Geração Z e colaborações 

Outra formas de adaptação, fruto do crescimento relacionado com os Millennials e a Geração Z, são as colaborações entre marcas de streetwear/sportswear e as marcas de luxo. Embora estas colaborações devam ser feitas com muitas cautelas. Estamos a falar de grandes choques, muito rápidos, que podem não ser bem recebidos, e sente-se que as marcas estão a testar e a avaliar.

As marcas de luxo com grandes tradições, porém, reconhecem que estas gerações mais novas tanto são seus clientes como são clientes das novas marcas que estão a surgir, atualmente. 

Estas últimas já foram idealizadas, de raiz, para o contexto atual, e, por essa razão, tentam rapidamente colocar-se no espaço vazio existente, antes que surjam novos payers ou que as marcas estabelecidas se adaptem. Há ainda, portanto, lugares para ocupar neste mercado crescente, mas sente-se que também há uma grande corrida para os ocupar.

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