Continuar a sonhar
Agora, Maria tem pela frente um outro desafio: desenhar aquilo que no seu sonho deve acompanhar um body
Maria Furtado
T51 - março 2020
Emergente

António Freitas de Sousa

De cá para todo o mundo
“Quero exportar, vender peças no estrangeiro, fazer chegar os meus bodies a todo o mundo”

“Cada body tem uma história para contar”, diz Maria Furtado, a mulher por detrás da Maria Bodyline, uma marca de bodies que lhe surgiu uma vez num sonho, como uma fotografia

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aria Furtado andava às voltas com o curso de arquitetura quando se deitou a sonhar com uma peça de roupa. Era um hábito que mantinha há muito: desde pequena, na ilha da Madeira, os sonhos resvalavam-lhe sempre para o design de vestuário, como se fosse por ali que o destino estivesse a dizer-lhe que deveria seguir.

Mas dessa vez, corria o ano de 2015, Maria teve um sonho como uma fotografia – como só antes tinha sucedido ao poeta (Fernando Pessoa). “Sonhei com um body”, diz numa voz quase sumida, como se fosse inverosímil, “era preto, com um decote de barco, mangas a três quartos”, estava tudo lá. A coisa era tão real, que Maria Furtado foi à procura de encontrar o seu sonho.

Não encontrou: “Era tudo com estampagens”, não tinha nada a ver com o sonho. Por isso, a coisa tornava-se evidente: se não há, faz-se – que é o mesmo que dizer que o que era preciso era criar uma marca e desenhar o body. Foi nessa altura que foi para Nova Iorque. Esteve quatro meses na cidade que nunca dorme –como todas as outras – e ali se apercebeu em definitivo como é que alguém lida consigo próprio num ambiente desconhecido: da forma que calhar.

Para tomar nota da sua vida nova e das suas transformações, Maria Furtado muniu-se de um caderno que a deveria acompanhar todos os dias até ao Central Park. Uma espécie de diário – que veio de Nova Iorque rigorosamente em branco. Quando regressou, regressou também a evidência de que arquitetura seria uma espécie de erro de casting e que o caminho seria o design de moda. O caderno ainda virgem foi intensamente riscado e as suas páginas enchidas com os rabiscos mais acertados, acomodando ideias que até aí se encontravam dispersas.

Expôs no quarto aquilo que considerou o melhor do que produziu e chamou amigos e família para acumular comentários. Isolou os melhores desenhos dos menos melhores, pô-los debaixo do braço e partiu à procura de quem os passasse da vida de boneco à vida de pano. Não encontrou. Ou não encontrou com facilidade: descobriu um atelier no Porto, na fronteira do mundo têxtil que fica lá para cima e atirou-se a um desfile de moda que haveria de lançar a primeira edição das suas peças. Não correu bem! Maria refugiou-se na Madeira – onde nasceu e de onde tinha saído em 2007 – e ali cumpriu um estágio interior de 18 meses que a ajudou a conseguir aquilo que achou que tinha de conseguir.

E voltou com as forças renovadas, como se saindo de uma letargia que fosse um benefício para a alma. E de repente surgiu-lhe a evidência do nome: Maria Bodyline. Era por ali! Maria ‘Bodyline’ Furtado regressou em força, cheia de força – a tal ponto que conseguiu um investidor que quis ajudá-la na criação e no lançamento da marca – e, corria já o ano de 2019, atirou-se desmedida ao seu projeto.

“Cada body tem uma história para contar”, diz, e é por isso que cada série tem um nome que não é bem um nome: é um substantivo que serve para nomear o body mas também para dar indicações seguras sobre a personalidade da criadora que está por trás dele. Do ponto de vista empresarial, confessa Maria Furtado, “as coisas estão a correr bem: vende nas redes sociais – que por instantes se transformam em redes comerciais – mas também em algumas lojas com existência física, onde pontifica a 39 A, de Raquel Prates, uma concept store lisboeta que se parece mais com uma associação de designers endiabrados.

Os bodies foram entretanto evoluindo para formas que, sendo ainda bodies, já parecem outra coisa: “Há bodies reversíveis, de banho, de pijama, de ginásio, de gala, de sair à noite com informalidade” e de outra coisa qualquer que alguém se possa lembrar. Agora, aos 30 anos, Maria Furtado tem pela frente um outro desafio: desenhar aquilo que no seu sonho deve acompanhar um body.

Ou seja, o desafio é isolar o body como o centro de uma festa de design, a peça que vai tornar tudo o mais que uma mulher vestir num conjunto coerente e único. E também há esse outro lado do desafio: “exportar, quero vender peças no estrangeiro, que fazer chegar os meus bodies a todo o mundo”. Já não lhe falta tudo: já vendeu peças para o Reino Unido, para a Rússia e até para Singapura – agora só faltam os restantes cento e muitos!

Cartão Do cidadão

Família Vive com um irmão, uma irmã e duas cadelas Formação Licenciatura em Arquitetura Casa Apartamento em Lisboa Carro Não tem Portátil MacBook Telemóvel iPhone Hobbies Passear em Monsanto, viajar sozinha, leitura (precisa de mais tempo para isso) Férias Quando puder ser, vai ao Dubai (um amigo ofereceu-lhe a viajem como prenda do 30º aniversário) Regra de ouro Seguir os sonhos, aceitar as imperfeições e não deixar que ninguém nos tire a liberdade

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