Mariana D'Orey
Há um ano atrás a grande questão era se, à custa dos constrangimentos impostos pela pandemia de Covid-19, as encomendas iriam ou não chegar dentro dos prazos. Atualmente, defende Paulo Melo, CEO da Somelos, o problema é bem maior e implica diferentes variáveis: “os custos de contexto podem arruinar a indústria nacional”, diz.
O problema não é novo mas assiste-se a uma subida forte do preço das matérias primas e das commodities desde abril 2021 e a um sério agravamento desde setembro, mês em que os preços do gás e da eletricidade para a indústria dispararam. “Uma fatura de gás que antigamente era de cerca de 20 euros, agora está entre os 80 e os 90 euros/MWH e a eletricidade também já aumentou para mais do dobro relativamente a 2020”. Se estes aumentos se tivesse dado nos particulares já tínhamos uma guerra civil”, reflete em tom irónico o CEO da Somelos. “Podemos mesmo perguntar se nao será a indústria em termos gerais que está a suportar toda esta escalada de preço a nível de energia”, acrescenta.
Apontando o dedo à questão política gerada à volta do gás e ao processo de transição climática que, na opinião de Paulo Melo, deveria ser coordenado e coerente, o empresário fala ainda dos aumentos dos custos relativos às matérias-primas, transportes e químicos necessários ao sector têxtil. “É tempo de incorporar estes custos de contexto no preço dos nossos produtos, o que não só leva o seu tempo como também é desfavorável do ponto de vista competitivo”, reflete.
Congratulando-se pelos esforços do governo, que reduziu em 90% os custos com as taxas na fatura da energia, diz, no entanto, que essa medida não é suficiente: “ou esta situação estabiliza como se prevê em abril ou então assistiremos a uma crise na atividade industrial portuguesa”.
Como possível solução Paulo Melo sugere a criação, já em fase de estudo, de uma “linha Covid para a energia em que as empresas possam acomodar a diferença e com o tempo, em oito anos, possam ir pagando essa mesma diferença de valores”, remata. Esta medida precisa de ser urgentemente operacionalizada .