A falta de recursos humanos especializados é uma dura realidade para a indústria têxtil e de vestuário portuguesa. Investir em formação profissional tem sido a solução, mas só resolve parte do problema. E apesar de o sector estar mais atractivo, com as exportações a curta distância da mítica barreira dos 5.000 milhões de euros, é notório o distanciamento que provoca nos jovens. No entanto, dentro das empresas há quem esteja a trabalhar no sentido de alterar este fado
Isabel Cristina Costa
Desajustamento é a palavra certa para descrever a relação que existe entre a oferta e a procura de técnicos qualificados no setor. O Modatex tem contribuído para minorar esta escassez, mas o problema é mais profundo e não se resolve com qualificações emergentes. Enquanto não houver uma solução que envolva todos, cada um vai fazendo por si.
A falta de recursos humanos também está relacionada com questões geográficas e de acessibilidade – que o diga Ana Paula Rafael, CEO da Dielmar. A empresa de Alcains (Castelo Branco) tem-se visto obrigada a ir buscar mão-de-obra ao litoral e a pagar mais por isso. Mas a gestora sabe bem que a resposta tem que estar no interior. Em cima da mesa está um protocolo (ainda por assinar) entre a empresa e a câmara para que se comece a oferecer aos jovens nas escolas um curso de Alfaiataria. “No vestuário teremos mais qualidade quanto mais mãos de artista empregarmos”, sublinha.
O mesmo registo tem José Armindo, CEO da Inarbel. “Mais do que nunca, a qualidade é um dado adquirido. Ninguém, mas ninguém, compra nada mal confecionado. Por isso, o que devemos fazer com mais frequência é dar formação profissional às pessoas. Digo profissional porque hoje em dia não há lugares para amadores”, afirma.
José Armindo sustenta que é hoje em dia preciso ter coragem para contratar e isso tem acontecido na Inarbel. “Haja vontade da parte das pessoas para trabalhar e aprender, que nós, empresários, tudo faremos para que tudo seja possível”, garante. Através da iniciativa “Formar para Empregar” do Modatex, e com o apoio da Câmara Municipal de Marco de Canaveses, a empresa de José Armindo pôde receber gente mais qualificada.
Por seu lado, Alberto Figueiredo, presidente e fundador da Impetus, sente “uma enorme falta de quadros médios”. “Hoje em dia, com o 12º ano ninguém quer ser operário. Temos desempregados que não querem trabalhar. A Alemanha tinha a economia em alta quando aumentou a escolaridade obrigatória. Também sinto a falta de engenheiros e pessoas para a área comercial, que estejam mais bem preparados para a nova realidade do mundo em que vivemos do que os que estão a sair das escolas”.
Mas não faltam só quadros médios e superiores na ITV. Carmen Pinto, administradora da Vilartex, tem-se batido com a escassez de costureiras. Como resolveu a questão? “Temos de ser nós a dar formação, a começar com aprendizes e ensinar-lhes as artes”, responde. Por causa da falta de mão-de-obra, a Vilartex, que emprega 125 pessoas e fatura 27 milhões de euros, trabalha a três turnos e não pára aos sábados e domingos para satisfazer as encomendas.
É certo e sabido que uma boa imagem da ITV é essencial na captação de recursos. E se é má, “a culpa é dos governos que durante anos a fio tanto criticaram o setor”, adianta Isabel Furtado, directora executiva da TMG Automotive. A gestora vê na indústria o principal empregador de pessoal qualificado. “E quando falo em qualificado não me refiro apenas a licenciados. Um operário que venha para uma máquina, que tem controlo e software cada vez mais sofisticados, tem que ter o 12º ano”, refere.
Quem também há muito já se deu conta da dimensão do problema é Braz Costa, director-geral do Citeve, por causa dos contactos semanais que recebe em busca de profissionais qualificados. “Esta situação é ainda mais aflitiva no que toca a recursos humanos com qualificações mais elevadas. Tudo o que poderia acontecer de mau acabou por acontecer, o primeiro mundo nas últimas décadas não valorizou a indústria como profissão para os seus jovens”, constata.
Em contrapartida, “a Europa mais desenvolvida, tendo-se apercebido da penúria de vocações para a indústria, fez autênticas campanhas de recrutamento de cérebros e de técnicos qualificados em vários pontos do globo, nomeadamente em Portugal”, continua.
Segundo Braz Costa, o nosso país não condicionou, por exemplo através de discriminação positiva de determinados cursos, que a autonomia dos estabelecimentos de ensino lhes permitisse promover os cursos que bem entendam, independentemente de qualquer perspetiva de mercado. “Esta situação levou a que, pela lei da oferta e da procura, a diminuição de vocações implicasse que nenhum politécnico tivesse investido em nenhuma das áreas relevantes para a ITV e que de três, apenas uma universidade mantenha atividade direcionada para o setor”, conclui.
Do lado do Citeve e dos seus parceiros universitários há disponibilidade de instalações laboratoriais de industriais piloto e formadores, garante Braz Costa. É que o centro tecnológico da ITV tem em carteira dezenas de potenciais alunos pré-inscritos para frequentarem as formações de especialização.
Entre um desabafo, deixa o repto: “No entretanto, as instituições públicas de formação sem qualquer conhecimento nem instalações pedagógicas na área apregoam ter assegurado financiamento para o desenvolvimento de cursos que contudo não sabem como promover. O leitor que encontre uma solução”.
O diagnóstico está feito e para Sónia Pinto, directora-geral do Modatex (Centro de Formação Profissional da Indústria Têxtil, Vestuário, Confeção e Lanifícios), o tempo é de soluções. Ou seja, é necessário continuar promover a maior atratividade do setor e prosseguir com projetos formativos que possam dar resposta às necessidades das empresas.
As formações do Modatex, de acordo com Sónia Pinto, apresentam índices de empregabilidade após estágio de cerca de 60%, sendo cerca de 20% a 30% integrados mais tarde. Por isso, defende: “Estes números justificam por si só a necessidade do tempo de investimento em formação profissional. Há ainda muito trabalho a ser feito para que esta escassez de recursos humanos seja ultrapassada, mas o mais importante é que os passos sejam dados de forma segura, criando soluções que constituam as bases para um setor com profissionais motivados, qualificados e realizados”.
E se a verdade é que o setor cria emprego, o Modatex enquanto entidade formadora tem respondido a esta procura. Além das ações dentro de portas, também tem proporcionado formação à medida através do projeto “Formar para Empregar”. Esta iniciativa “tem tido uma taxa de empregabilidade na ordem dos 90% e uma crescente procura por parte das empresas em várias saídas profissionais da fileira têxtil e vestuário”.
Sónia Pinto lembra que a necessidade de deslocação acaba por ser muitas vezes um entrave, quer no acesso ao emprego, quer no acesso à formação. Como elemento facilitador na preparação de novos recursos para as empresas, deu-se o crescimento da formação para adultos desempregados nas empresas, assim como a aposta do Modatex na criação de extensões de formação próximas das empresas e em zonas onde a indústria tem um grande peso.
“Atualmente, e fruto de colaborações bem-sucedidas com as autarquias e centros de emprego locais, temos extensões em Lousada, Pinhel e Marco de Canaveses. Certamente que serão criadas outras, onde e quando seja necessário, porque temos de levar a formação até às pessoas que dela possam beneficiar”, anuncia.
O “Formar para Empregar” surgiu com a missão de dar uma resposta a necessidades concretas das empresas, privilegiando a formação em contexto de trabalho. Hoje, estão no terreno várias ações. Eis alguns exemplos: Crialme (alfaiate), La Perla (confeção de peças de vestuário), Petratex (controlo e qualidade da produção), GPSA (técnicas de costura), Dielmar (confeção industrial), Tessimax (operador de tecelagem) e Lameirinho (planeamento de corte).