Mariana D'Orey
A Estratégia da União Europeia em prol da Sustentabilidade e Circularidade dos Têxteis foi o pontapé de saída da edição deste ano do iTechStyle Summit, a decorrer no Terminal de Cruzeiros de Leixões até sexta-feira. Inovação nos processos e materiais, circularidade e digitalização são os trunfos – e de algum modo as obrigações – apontados pelos especialistas nacionais e internacionais.
A realizar-se pela primeira vez em conjunto com a conferencia anual da ETP – European Textile Conference, o iTechStyle Summit arrancou esta quarta-feira com um olhar atento sob o futuro da ITV europeia, imposto pelas recentes políticas de sustentabilidade propostas por Bruxelas.
“Tudo vai mudar” garantiu Dirk Vantyghem, da Euratex, ao recordar que até 2030 as empresas têxteis terão de obedecer a um conjunto de 16 regras no que à sustentabilidade e circularidade de processos e materiais diz respeito. “Estamos a passar de uma indústria muito pouco regulamentada para uma indústria altamente regulamentada”, adverte, para considerar que a inovação será a chave de sucesso.
“E é por acreditarmos que a inovação é crucial para esta transformação que a indústria têxtil está a viver que propusemos em Bruxelas a criação de um fundo específico para a inovação no sector têxtil de 1000 milhões de euros”, revela Dirk Vantyghem admitindo a eventual aprovação desse fundo até ao final do ano.
E se a inovação é uma das chaves da metamorfose da ITV europeia, também a qualidade assume um lugar de destaque. Essa é pelo menos uma das reflexões de Lutz Walter, que aponta: “o recurso a mais materiais reciclados e orgânicos, o uso eficiente de energia nos processos e a digitalização” como os três pilares do futuro do sector. “É fundamental que as marcas compreendam que ao produzir na Europa estão não só a tornar os seus processos mais eficientes como mais sustentáveis. É na confecção que se fixa 36% do impacto climático dos têxteis”, reflete.
As reflexões dos especialistas internacionais precederam à sessão de abertura do iTechStyle Summit que contou com as intervenções de António Amorim (presidente do CITEVE), Michael Kamm (ETP) e Braz Costa (diretor-geral do CITEVE), que também se mostraram confiantes no que o futuro reserva ao sector. “Tenho a certeza que as empresas vão vencer os desafios: temos capacidade para vencer”, considera António Amorim lembrando que o cluster têxtil português é hoje altamente considerado internacionalmente. “Se nos preparamos e se implementarmos todas as mudanças antes de 2030 podemos tornar-nos ainda mais competitivos”, lembrou Braz Costa.
Mostrando que na prática o sector já incorporou o ambiente que o futuro lhe reserva – ou, dito de outra forma, tomando em mãos o seu próprio futuro – o segundo painel do dia, dedicado às grandes tendências da indústria, mostrou o que de mais inovador está a ser feito já no presente. Numa demonstração ‘alucinante’ do seu poder de comunicação, David Shah, da DRS Consultancy, deu a entender que o primado é “liberdade em todos os sentidos” e que o indivíduo enquanto ser único e irrepetível quer uma resposta também do sector da moda.
Com Mico Mineiro, administrador da Twintex, a pegar em mãos um exemplo da ‘prata da casa’ da forma como uma empresa deve gerir a sua resposta às novas tendências, coube a Francesca Rosella, da CuteCircuit, dar a entender que a realidade está toda ela encerrada dentro do virtual. É uma tendência, disse, em relação à qual já não há nenhuma batalha a empreender. Ao contrário, é esse o caminho que as novas gerações (ou seja, o próximo grupo de consumidores) entendem ser o ‘seu mundo’, cabendo à indústria saber introduzir-se nele e geri-lo em seu benefício.
O primeiro dia da conferência encerrou com um jantar que contou com a presença do secretário de Estado da Economia, Pedro Cilínio, que insistiu, na sua intervenção, que o sector têxtil e do vestuário português tem nas suas mãos apetrechos necessários e suficientes para manter o lugar de destaque que, na Europa, soube conquistar. Cilínio congratulou-se com “o bom exemplo que é o CITEVE no que ao aproveitamento dos programas do Governo diz respeito” – forma ideal, afirmou, de apoiar o desenvolvimento de um sector que se afigura essencial na economia portuguesa. E recordou que o centro tecnológico e de investigação participa atualmente em 13 agendas de inovação e em três consórcios de bioeconomia.