Bebiana Rocha
A obrigatoriedade iminente da implementação do Passaporte Digital de Produto (DPP) levou o CITEVE a avançar esta semana com uma nova ferramenta, desenhada para permitir às empresas antecipar este desafio e reforçar a posição de Portugal no contexto competitivo internacional.
Depois do enquadramento feito por Ana Barros, responsável pelo DPP no CITEVE, João Nuno Oliveira, responsável pela área da transição digital, sublinhou no evento “DPP Boosted by CITEVE”, realizado a 15 de abril, que “os problemas complexos resolvem-se com todos”.
Durante a apresentação alertou para o “esforço hercúleo” exigido na recolha e compilação de informação, destacando que o DPP está orientado ao modelo e ao lote – sendo este último a base mais adequada para a indústria -, princípio que estrutura a nova ferramenta ao nível da inserção de dados.
Recordou também que qualquer atividade de transformação tem um impacto associado que deve ser contabilizado, incluindo o transporte entre empresas, sobretudo em cadeias de valor não verticalizadas.
A plataforma disponibiliza dois perfis distintos: marca e produtor. Guilherme Maia, um dos desenvolvedores da solução de rastreabilidade, apresentou o seu funcionamento através de um exemplo prático: uma peça cuja fiação foi realizada pela J. Gomes.
Cada produtor dispõe de uma página própria com informação sobre a empresa e as suas unidades produtivas, bem como uma área dedicada às certificações. Segue-se o preenchimento dos dados relativos à supply chain, divididos entre matérias-primas (raw materials) e atividades produtivas. Após a introdução da informação, esta é encaminhada para a empresa seguinte.
No exemplo apresentado, a informação passou para a Riopele, responsável pela tecelagem e acabamento, onde foi demonstrado o preenchimento destas etapas antes de nova transmissão dos dados. A fase de confeção, assegurada no exemplo pelo próprio CITEVE, permite que, ao fazer login, a entidade visualize de imediato as atividades já registadas, tendo apenas de completar a informação em falta.
Já no perfil de marca, não existem atividades produtivas a preencher. Em vez disso, surge uma página dedicada ao produto, onde podem ser inseridos dados como nome, imagens, peso, acessórios, categoria e instruções de cuidado.
A plataforma contempla ainda a existência de diferentes variantes, permitindo que um mesmo produto esteja associado a cadeias de valor distintas.
A encerrar a segunda parte do encontro, Ana Barros destacou que o setor vive um “momento decisivo de transição” e lançou o convite à participação no piloto industrial que arrancará em julho e decorrerá até novembro.
A iniciativa será limitada a 10 empresas – agregando toda a sua cadeia de valor -, entre as que participaram no evento. O piloto estará estruturado em cinco etapas: kick-off, recolha e estruturação de dados, implementação técnica, testes de validação, e avaliação e outputs.
Paralelamente, o CITEVE disponibiliza serviços de diagnóstico para apoiar as empresas na recolha de dados e preparação para a implementação do DPP, no âmbito da sua oferta de consultoria.
Durante a sessão, o público demonstrou interesse em compreender o nível de automatização da introdução de dados. Guilherme Maia esclareceu que, nesta fase, o processo é ainda manual, estando a equipa a trabalhar no desenvolvimento de algoritmos capazes de ler dados e preencher automaticamente a plataforma com os consumos relevantes. Foi também abordada a questão do passaporte digital intermédio.
“O Passaporte Digital de Produto é um empurrão para a digitalização das empresas”, reforçou João Nuno Oliveira.
No final, Mário Jorge Machado, vice-presidente da ATP, agradeceu “o trabalho e o esforço de mostrar um caminho que todos têm de seguir”. Reconheceu os custos associados ao desenvolvimento destas ferramentas, mas manifestou a expectativa de que os ganhos sejam superiores.
Reiterou ainda a posição da associação – que também tem defendido enquanto presidente da EURATEX – de que o DPP trará mais competitividade ao setor. Deixou, por fim, um apelo à participação ativa das empresas, incentivando-as a contribuir com sugestões sobre o que pretendem ver incluído no passaporte digital, numa fase em que o modelo ainda está em construção e poderá ser influenciado ao nível europeu.
O encerramento ficou a cargo de Braz Costa, diretor-geral do CITEVE, que reforçou a ideia de que este é um processo de integração dinâmica, em constante evolução.