Cláudia Azevedo Lopes
A cooperação entre as empresas, alicerçada numa lógica de cluster e com vista à consolidação de um modelo sustentável e inovador, é essencial para competitividade da ITV portuguesa. É esta a principal conclusão do debate ‘Reforçar a competitividade da ITV’, que decorreu no âmbito do Simpósio da ITV e que contou com as intervenções de António Braz Costa, diretor-geral do CITEVE, Luís Todo-Bom, gestor e professor no ISCTE, e Manuel Gonçalves, Executive Board Director do grupo TMG.
Otimista quanto à próxima década, Manuel Gonçalves confia que será a capacidade de adaptação da têxtil portuguesa o seu grande trunfo para o futuro, à semelhança do que já aconteceu no passado e que se verificou mais uma vez desde o início da pandemia. Esta é uma oportunidade sem precedentes para as empresas portuguesas recuperarem negócio através da inovação e de fazendo-se valer da proximidade dos mercados europeus, uma das suas mais valias.
“Hoje em dia, as marcas – principalmente as que têm negócios só online – não querem desenvolver uma coleção integral no início da época. O que que querem é ir lançando peças gradualmente, colocando-as logo no mercado e assim reduzindo o time to market. Neste caso, a proximidade é essencial, para diminuir o tempo que as peças demoram desde que são produzidas até que chegam ao cliente final. Esta é uma grande oportunidade para a nossa indústria”, explicou Manuel Gonçalves. “As empresas detentoras das marcas querem encontrar atividades industriais que possam acoplar ao seu negócio e Portugal tem um cluster muito forte, capaz de em conjunto dar resposta a estes desafios”, completou.
Neste processo, Braz Costa entende que a proximidade entre as empresas é fundamental e é essa a principal vantagem da ITV portuguesa. “As empresas lentamente estão a perder o medo de cooperar umas com as outras”, disse, apontando ao CITEVE um papel essencial como ponte entre as empresas, propiciando parcerias que contribuem para o fortalecimento do cluster têxtil português.
“Complementaridade significa especialização e isso é a principal vantagem do cluster. Uma empresa de acabamentos sabe que pode aceitar uma encomenda de vestuário porque têm consciência que consegue arranjar nas proximidades uma empresa de confecções que pode subcontratar para fazer o trabalho. E vice-versa”, completou o diretor geral do centro tecnológico.
Já Luis Todo-Bom vai mais longe e acrescenta mais um ingrediente que considera essencial para a competitividade da ITV portuguesa: a dimensão das empresas. Segundo o gestor e professor, está em falta um programa de capitalização das empresas, essencial para que o sector se possa internacionalizar com mais força e investir na verdadeira digitalização – fábricas a operarem quase na totalidade com recurso a inteligência artificial, enquanto que a massa humana está concentrada nos desenvolvimento dos processos criativos.
“A nossa legislação é anti-crescimento das empresas. E isso tem de mudar urgentemente. Devia haver apoios do estado à capitalização das empresas”, afirma.
Quanto à sustentabilidade, todos se mostraram unânimes a afirmar que o essencial é olhar para dentro para encontrar as melhores matérias-primas, a base de qualquer processo sustentável. Dessa forma, torna-se imperativa a proibição de entrada em espaço europeu de produtos que não respeitem as normas de segurança europeias.
“Como se mede a sustentabilidade de um produto? É muito difícil e há muito trabalho a ser feito nesse sentido. O objetivo do CITEVE é criar um índice de sustentabilidade, uma espécie de etiqueta sustentável como aquelas que hoje vêm nos eletrodomésticos e que nos indicasse como o produto foi feito, quanta água gastou, e o seu nível de sustentabilidade”, explica Braz Costa.
Manuel Gonçalves vai mais longe e afirma que esse índice sustentável devia ser exigido aquando da contratação pública, o que ajudaria a dar força e a consolidar o uso desse indicador para o resto do mercado. “E devia medir não só a sustentabilidade ambiental como a social, para impedir casos de escravatura que muitas vezes se verificam”, finaliza.
O objetivo do CITEVE, revelou Braz Costa, é ter esse índice pronto a ser lançado no prazo de cinco anos.