Bebiana Rocha
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Esta manhã, no CITEVE, discutiram-se a nova ordem mundial e o impacto das policrises nas empresas do setor têxtil e vestuário. Milton Cabral conduziu o workshop “Como tornar as PME mais resilientes”, no âmbito do projeto RISE-SME, onde introduziu Germano Almeida, especialista em política americana.
O comentador começou por sublinhar que vivemos um período de transição: a estabilidade que sustentou as últimas sete a oito décadas deixou de existir, obrigando as empresas a desenvolver estratégias que as impeçam de ficar reféns de acontecimentos de última hora. Ao longo da sua intervenção, Germano Almeida centrou-se particularmente no contexto político dos Estados Unidos, destacando a entrada de Donald Trump na administração da Casa Branca e as narrativas que tem vindo a construir.
Na sua perspetiva, os EUA foram os principais beneficiários da ordem liberal das últimas décadas e deveriam valorizar mais as alianças estabelecidas no pós-Segunda Guerra Mundial. Alertou ainda para a perda de influência norte-americana face à China, antecipando um agravamento da rivalidade entre estes dois blocos nos próximos anos.
O também jornalista fez um enquadramento histórico detalhado dos principais acontecimentos que moldaram o mundo recente – desde a Queda do Muro de Berlim ao Atentados de 11 de setembro, passando pela Guerra do Iraque, pela COVID-19 e pela guerra na Ucrânia. Referiu também o impacto da atual tensão no Irão, que surge num momento em que o Banco Central Europeu se preparava para reduzir as taxas de juro implementadas para conter a inflação dos últimos anos.
“As más decisões políticas têm hoje um peso desadequadamente grande nas empresas”, afirmou, reforçando a necessidade de os empresários abandonarem a ideia de que uma mudança política resolverá automaticamente os problemas – incluindo no atual contexto de tréguas recentemente anunciadas.
Para Germano Almeida, a Europa não deve esperar por uma mudança de orientação dos EUA, mas sim definir o seu próprio caminho, reduzindo dependências externas. Como exemplo, referiu o impacto das tarifas norte-americanas na aceleração de acordos comerciais que já estavam em negociação, como o acordo UE-Mercosul, defendendo que “nem tudo na incapacidade da política de Trump é negativo”.
O especialista sublinhou ainda a importância de diversificar mercados, apontando para o potencial dos mercados emergentes como alternativa à dependência dos EUA. Reforçou que as empresas não controlam decisões políticas e, por isso, não devem ficar excessivamente expostas a um único mercado.
A concluir, deixou um alerta à Europa quanto à ingerência dos EUA junto do Governo da Hungria, defendendo que o bloco europeu deve fortalecer-se com uma visão globalista – não fechada sobre si mesma, como propõe a atual administração americana, mas aberta ao mundo e assente em novas parcerias estratégicas.