Bebiana Rocha
As alterações climáticas poderão comprometer o futuro do linho e do cânhamo, influenciando a produtividade das culturas, a disponibilidade de fibras, a sua qualidade e desempenho mecânico, as condições de colheita e de maceração no campo e, consequentemente, a resiliência da indústria têxtil europeia de base biológica. A conclusão é de um artigo científico publicado recentemente na revista Industrial Crops & Products, no âmbito do projeto Upwears, que identifica igualmente um conjunto de estratégias para mitigar estes impactos.
Intitulado Projected Impacts of Global Warming on the Production and Qualities of Hemp and Flax Plants and Fibres: Toward Adaptation Strategies, o estudo analisa o impacto do aquecimento global ao longo de toda a cadeia de valor destas fibras naturais, reunindo contributos das áreas da agronomia, biologia vegetal, ciência dos materiais, climatologia e processamento industrial.
O ponto de partida é claro: tanto o linho como o cânhamo dependem fortemente das condições climáticas. A temperatura, a precipitação, a humidade e a radiação solar influenciam não só o crescimento das plantas, mas também o desenvolvimento das fibras e o processo de maceração em campo, utilizado para separar a fibra do caule após a colheita.
Segundo os investigadores, os efeitos das alterações climáticas já são visíveis. Nas últimas campanhas agrícolas registaram-se reduções na produção de linho na Europa, acompanhadas por quebras de qualidade e maior instabilidade do mercado. A cadeia de abastecimento tem igualmente sentido as consequências, com plantas de menor dimensão e fibras menos uniformes.
O estudo alerta ainda para os efeitos diretos do stress térmico e da escassez de água nas propriedades das fibras, afetando o comprimento, a organização da parede celular, o desempenho mecânico e a aptidão para processamento têxtil. O processo de maceração em campo é apontado como uma das fases mais vulneráveis, tornando-se cada vez mais difícil garantir uma qualidade consistente entre colheitas.
Perante este cenário, os investigadores defendem a adoção de várias estratégias de adaptação, entre as quais o desenvolvimento de variedades agrícolas mais resistentes às alterações climáticas, a adaptação dos calendários de sementeira, a otimização dos processos de colheita, a exploração de novas regiões de cultivo e a utilização de ferramentas de inteligência artificial para apoiar a tomada de decisões ao longo da cadeia de valor.
Garantir a disponibilidade de fibras naturais de elevada qualidade é particularmente relevante para o Upwears, projeto europeu que pretende desenvolver uma nova geração de têxteis sustentáveis de base biológica. Em vez de se centrar num único produto final, a iniciativa está a construir uma cadeia tecnológica completa, estruturada em vários demonstradores interligados.
Entre as soluções atualmente em desenvolvimento encontram-se a transformação ecológica de fibras através de solventes eutéticos profundos (DES), permitindo obter fibras técnicas de linho de elevada qualidade recorrendo a processos químicos mais sustentáveis; fios de linho revestidos com carbono condutor, capazes de transformar fibras naturais em componentes para eletrónica têxtil; um sistema integrado de deteção de gases baseado em fibras de linho, combinando eletrónica miniaturizada e têxteis interativos totalmente de base biológica; uma matriz compósita à base de lignina, concebida como alternativa biológica às matrizes poliméricas convencionais utilizadas em eletrónica vestível durável; e uma arquitetura de têxtil inteligente programada em jacquard, que integra zonas funcionais, respirabilidade e elasticidade diretamente na fase de tecelagem, melhorando simultaneamente o desempenho e a reciclabilidade.
Os desenvolvimentos mais recentes do projeto foram divulgados pelo consórcio na newsletter publicada em junho, que faz o balanço dos primeiros 22 meses de atividade. Entre os principais progressos destacam-se os avanços no processamento e funcionalização de fibras de base biológica, com o desenvolvimento de matrizes à base de lignina, novos tratamentos de fibras e processos de transformação mais sustentáveis.
O projeto registou igualmente uma evolução significativa nos componentes têxteis funcionais, através da validação inicial de fios funcionalizados e das respetivas capacidades de deteção, demonstrando o potencial para integrar funcionalidades eletrónicas diretamente em têxteis de base biológica.
Em paralelo, foram desenvolvidos estudos sobre a aplicação de princípios biomiméticos ao design têxtil, em colaboração com a ENSCI, enquanto prosseguem os trabalhos na área da modelação digital, simulação, processamento de dados e soluções baseadas em inteligência artificial para otimizar o design e prever o desempenho dos materiais em diferentes escalas.
O consórcio destaca ainda os progressos alcançados na integração dos vários demonstradores do projeto, abrangendo estruturas têxteis, sistemas compósitos e aplicações vestíveis, bem como o desenvolvimento de metodologias de Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), indicadores de circularidade e primeiras abordagens de Avaliação Social do Ciclo de Vida (Social LCA), destinadas a medir o desempenho ambiental e social das soluções desenvolvidas.
Por último, sublinha o reforço das capacidades experimentais e de ensaio, através da implementação de novos equipamentos piloto e de técnicas avançadas de caracterização, como métodos de imagiologia e ensaios de envelhecimento, permitindo validar materiais e processos com maior rigor.
Iniciado em setembro de 2024 e com conclusão prevista para agosto de 2028, o Upwears reúne 14 parceiros de sete países, entre os quais o CITEVE e as empresas portuguesas Pafil e Têxteis Penedo.