A Trot tem um novo CEO. Em maio, Matilde Vasconcelos, fundadora da empresa, passou o testemunho a Rui Pita, profissional com mais de 20 anos de experiência no retalho de moda. Em declarações ao T Jornal, a empresa explica que, ao fim de 34 anos, está preparada para entrar numa nova fase, enquadrando esta mudança numa estratégia de governance.
Apesar da transição na liderança executiva, Matilde Vasconcelos continuará como proprietária da empresa, assumindo agora um foco mais direcionado para as áreas comercial e de produto. “Percebi que a empresa estava estagnada a nível de gestão, e isso deve-se ao facto de sempre me ter focado no produto e na vertente criativa. Fui gestora por força das circunstâncias, apesar de reconhecer há muito tempo que seriam essenciais alterações ao nível da governance”, afirma. Para a fundadora, este conceito passa pela construção de um modelo de trabalho em que toda a cadeia de stakeholders partilhe os mesmos valores e sinta a empresa como sua. “Um líder tem de ser capitão, e ser capitão é, antes de mais, dar confiança. Os trabalhadores são a primeira linha e o centro de qualquer instituição”, sublinha.
A empresária admite ainda que a crescente exigência do mercado acelerou esta decisão. “O mercado é cada vez mais agressivo e rápido. Não podia tornar a empresa mais competitiva se continuasse em modo multitasking”. Acrescenta também que a forte dependência da estrutura em relação à sua pessoa foi outro dos fatores decisivos. “Este é um período de divórcio amigável”, brinca.
Ao longo da sua carreira, Rui Pita passou por empresas como a Zippy e a Laskasas. O novo CEO afirma ter-se sentido sempre atraído por marcas onde design e escala coexistem. “Assumir a liderança da Trot Corporatewear e da Trotinete Schoolwear é um passo natural. O próximo capítulo passa por aprofundar o trabalho em design e sustentabilidade, abraçar a transição tecnológica e preparar ambas as marcas para liderarem as transformações que se aproximam na indústria têxtil”, refere.
Em declarações ao T Jornal, Rui Pita considera que o potencial de internacionalização da Trot é significativo. “A Trot terá sempre uma importante base no setor do ensino, através da marca Trotinete, mas entendemos que o crescimento da empresa virá do segmento corporate, com a marca Trot”. Apesar de reconhecer que o mercado nacional continuará a ser estratégico, acredita que existem grandes oportunidades nos mercados internacionais.
Segundo o responsável, a diferenciação da empresa assenta no design, no desenvolvimento de produto adaptado às necessidades e identidade dos clientes e no “controlo da cadeia de valor, que nos dá a garantia de entrega de um produto de excelente qualidade”.
Numa visão mais abrangente sobre o setor têxtil e vestuário português, Rui Pita considera que os fatores que distinguem as empresas que crescem das que estagnam são a inovação de produto e de processos, bem como a criação de marcas capazes de gerar ligações emocionais fortes com os consumidores. “Só assim é possível às empresas serem mais produtivas e gerarem mais valor, sem competirem apenas pelo fator preço, entrando num ciclo virtuoso de melhoria contínua e reinvestimento em sucessivos ciclos de inovação”, defende.
Neste contexto, considera essencial que as empresas do setor invistam em produtos inovadores e de maior valor acrescentado, otimizem processos de negócio e apostem na construção de marca. “É preciso estruturar um modelo de negócio com uma proposta de valor muito clara para os clientes-alvo e montar uma forte estrutura comercial, com uma estratégia definida de abordagem ao mercado”, afirma.
A concluir, Rui Pita reforça a confiança no potencial da indústria têxtil portuguesa, sobretudo através da aposta em produtos de maior valor e dirigidos a clientes dispostos a pagar “o valor justo” por soluções sustentáveis. “A mais recente disrupção das cadeias logísticas, provocada pela guerra no Médio Oriente e pelo consequente bloqueio do estreito de Ormuz, veio evidenciar as vantagens de cadeias de abastecimento mais curtas, estando a ITV portuguesa muito bem posicionada para responder às necessidades do mercado europeu”, conclui.
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