Bebiana Rocha
As empresas LMA, ERT, JF Almeida e a Tintex Textiles reuniram-se numa mesa-redonda na Alfândega do Porto, no passado dia 12 de maio, para debater os desafios e oportunidades da transição digital, no âmbito do evento de encerramento do projeto Texp@ct.
Alexandra Araújo, CEO da LMA, começou por partilhar o estado da empresa no que toca à digitalização. “Já medimos muito. O nosso chão de fábrica está completamente medido”, afirmou, sublinhando a importância da digitalização num contexto de crescente escassez de mão de obra. A administradora relacionou ainda os dados com a sustentabilidade, defendendo que são fundamentais para comprovar alegações sustentáveis.
Ainda assim, reconheceu que existe um longo caminho a percorrer, sobretudo ao nível da partilha de informação. “Ainda não estamos todos a trabalhar no mesmo sistema. Cada empresa tem um ERP diferente, o que dificulta a ligação entre parceiros e fornecedores”, explicou. Alexandra Araújo concluiu a primeira ronda de intervenções lembrando que já não é possível “estar na têxtil como estavam os nossos pais e avós”. “Sem dados não conseguiríamos manter-nos abertos”, admitiu.
Ricardo Silva, CEO da Tintex Textiles, prosseguiu com uma visão clara para o futuro: “Quero que a têxtil seja uma área de confiança”. Na sua perspetiva, sem dados é mais difícil garantir informação fiável e tomar decisões acertadas, sobretudo numa altura em que as relações com os clientes são cada vez mais voláteis. “Os dados podem trazer confiança interna e externa a um setor que vive muito das relações”, referiu. “Vendemos serviço e, aqui, a confiança é crítica – confiança em nós próprios e no parceiro ao lado”.
Marco Barros, engenheiro de produto da JF Almeida, destacou as vantagens de a empresa ser verticalizada. “Ter tudo dentro de portas é uma vantagem”, afirmou. Contudo, reconheceu que digitalizar todos os processos implica lidar com grandes volumes de dados, o que continua a ser um desafio. Apesar disso, consumos de água, energia e matérias-primas já estão a ser monitorizados, “até porque os clientes pedem”.
O responsável falou também sobre a aposta da empresa nos têxteis inteligentes, destacando o desenvolvimento de um robe, que incorpora fios condutores e integra inovação ao nível do acabamento e da confeção. O produto, equipado com um sistema de aquecimento integrado, já está preparado para o mercado e inclui uma aplicação móvel para controlo das definições.
Luís Soares, diretor de produção da ERT, centrou a sua intervenção na instabilidade do mercado. “Hoje em dia, devido aos conflitos geopolíticos, é muito difícil fazer previsões”, afirmou, relacionando diretamente esta realidade com o impacto nos negócios. “É preciso repensar prioridades”, defendeu, apontando a digitalização como uma delas. “A digitalização é contínua. É algo que não pode ficar esquecido”. O responsável acrescentou que “ainda se olha muito um passo para cima e um passo para baixo”, defendendo uma visão mais ampla e estratégica.
Numa segunda ronda de intervenções, Alexandra Araújo abordou o tema da Inteligência Artificial, admitindo que ainda está a ser utilizada de forma algo dispersa, mas representando uma grande oportunidade para as empresas. Defendeu, por isso, a necessidade de investir em formação para acelerar processos. No caso da LMA, explicou que a implementação começará pela área comercial, embora reconheça que podem existir diferentes abordagens e estratégias.
Ricardo Silva alertou para a necessidade de olhar para a Inteligência Artificial para além dos chats ou da IA generativa. “IA é também manutenção preditiva, dashboards e automação”, referiu, lembrando que muitas empresas já utilizam máquinas robotizadas. O essencial, defendeu, é identificar as tarefas do dia a dia repetitivas que retiram tempo às pessoas e procurar automatizá-las. O CEO da Tintex sublinhou ainda a importância de questionar processos feitos “porque sempre foram assim”, incentivou os presentes a usarem o acesso à informação global para encontrarem soluções mais eficientes. Para isso, considera fundamental que todos os colaboradores, independentemente da função, tenham bases para interagir com estas novas ferramentas.
Luís Soares partilhou igualmente parte do trabalho desenvolvido no âmbito do Texp@ct, relacionado com Inteligência Artificial aplicada à inspeção de defeitos. “Hoje, as marcas de mid-range querem produção premium. A exigência de qualidade é cada vez maior, quer ao nível dos materiais, quer dos processos”, explicou. Nesse contexto, o desenvolvimento de soluções automatizadas de inspeção faz sentido porque “é preciso garantir consistência na qualidade”, sobretudo num cenário de elevada rotatividade de mão de obra.
Marco Barros admitiu, por sua vez, que as empresas precisam de apoio para trabalhar os dados e distinguir a informação relevante do “ruído”. O representante da JF Almeida apontou ainda o potencial de desenvolver uma Inteligência Artificial específica para o setor têxtil, capaz de garantir respostas mais fiáveis. Como sugestão, propôs a criação conjunta de datasets que integrem várias fases da cadeia de valor, permitindo depois construir algoritmos adaptados à realidade do setor.
Na reta final da mesa-redonda, Alexandra Araújo voltou a sublinhar a necessidade de apoio externo às empresas. “Gerir todos os processos internamente é difícil”, afirmou, referindo que existem muitos hábitos enraizados e resistência à mudança. Nesse sentido, considera que recorrer a serviços especializados pode ajudar as empresas a enfrentar estes novos desafios.
A ERT partilhou a sua experiência, explicando que, apesar de recorrer a apoio externo, criou também um departamento próprio dedicado à transição digital. Ainda assim, Luís Soares reconheceu que “um departamento em exclusivo não consegue acompanhar toda a informação”.
Marco Barros defendeu a importância de passar “da visão à ação” e destacou o valor de uma perspetiva externa para ultrapassar obstáculos que, internamente, muitas vezes não são identificados. O engenheiro da JF Almeida referiu igualmente o papel dos dados na preservação da memória organizacional, dando como exemplo a gestão de reclamações. “Nem sempre é fácil lidar com uma reclamação de um produto fabricado há mais de um ano”, explicou, acrescentando que os registos detalhados ajudam não só a responder aos clientes, mas também a formar novos colaboradores.
Ricardo Silva sublinhou, por fim, que a transformação das empresas tem de acontecer de forma gradual. “Não podemos mudar tudo ao mesmo tempo, temos de cortar o elefante às fatias”, afirmou. Deu como exemplo pequenas implementações realizadas na Tintex, como processos de desbobinagem da malha ou a eliminação progressiva do papel, medidas que inicialmente geraram resistência, mas que acabaram por traduzir-se em melhorias visíveis para os trabalhadores.
O CEO da Tintex destacou ainda a importância de garantir alinhamento entre empresas e fornecedores tecnológicos sempre que há novos investimentos. “É preciso dialogar até que a linguagem seja a mesma”, afirmou, considerando que uma compreensão clara do que vai ser implementado permite poupar tempo e custos.
Também Luís Soares reconheceu que ainda existe um risco associado ao facto de muitos prestadores de serviços tecnológicos não falarem “a mesma linguagem” da indústria têxtil, o que frequentemente encarece soluções e prolonga processos. Ainda assim, acredita que o tempo será um aliado e permitirá decisões de investimento mais acertadas.
Entre as mensagens finais deixadas na mesa-redonda destacou-se a ideia de que “os dados são uma ferramenta para vender mais”, como resumiu Marco Barros, da JF Almeida.