19 março 26
Eventos

Bebiana Rocha

Tintex, Mundifios e TMG destacam assimetrias e desafios da ITV

A ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal acolheu esta manhã, na sua sede, um conjunto de debates dedicados ao futuro da moda em Portugal, numa iniciativa organizada em parceria com a UN Global Compact Network Portugal.

O primeiro painel reuniu Ricardo Silva, CEO da Tintex Textiles, Pedro Martins, administrador da Mundifios, e Vítor Fernandes, CEO da TMG Textiles, que partilharam as suas perspetivas sobre a responsabilidade num mercado global marcado por profundas assimetrias.

Pedro Martins destacou, desde o início, o papel pioneiro da Europa no caminho da sustentabilidade. No entanto, sublinhou que essa liderança implica investimentos significativos, particularmente exigentes num setor altamente concorrencial como o têxtil e vestuário. Alertou ainda para o difícil equilíbrio entre sustentabilidade ambiental, social e económica, salientando que esta última é determinante para a sobrevivência do ecossistema têxtil nacional e europeu.

Vítor Fernandes chamou a atenção para o desalinhamento entre o cidadão – cada vez mais consciente das questões ambientais – e o consumidor, que nem sempre está disposto a pagar por essa sustentabilidade.

“As empresas têm sido muito conscientes e querem fazer mais, mas isso torna-nos menos competitivos em termos de preço num mercado onde nem todos jogam com as mesmas regras”, acrescentou.

O responsável foi mais longe, questionando a relevância da Europa no panorama global e criticando uma certa visão autocentrada: “Somos, por vezes, arrogantes ao achar que lideramos, quando, na realidade, estamos a perder indústria. Portugal é apenas uma gota no oceano.”

Recorrendo a uma analogia, Ricardo Silva comparou a Europa a um “aluno exemplar” que nem sempre colhe os frutos do seu desempenho, evidenciando as injustiças de um mercado onde o mérito não é o único fator determinante. Já Vítor Fernandes reforçou a ideia de desigualdade competitiva com a imagem de um jogo de futebol em que as equipas não têm o mesmo número de jogadores.

A discussão evidenciou problemas estruturais como a concorrência desleal, a falta de regulamentação e de controlo alfandegário, bem como a inexistência de critérios uniformes de segurança de produto. Foram também apontadas práticas como a fuga ao fisco e o impacto das encomendas de baixo valor.

Neste contexto, Pedro Martins defendeu a necessidade de maior consciencialização e responsabilização do consumidor. “Há decisões que não são aceitáveis. Muitas encomendas não são sequer levantadas. Será por serem demasiado baratas?”, questionou.

Vítor Fernandes acrescentou que alterar comportamentos exige tempo, ilustrando a disparidade de preços com o exemplo de um casaco de caminhada vendido a 9,90€, valor insuficiente para cobrir sequer componentes básicos caso fosse produzido em Portugal com padrões de qualidade exigentes.

Ricardo Silva direcionou, por sua vez, a atenção para o que está ao alcance das empresas: a melhoria da eficiência interna numa reta final. Defendeu uma maior aposta na otimização de processos e na criação de sinergias, lamentando a ausência de uma cultura consistente nesse sentido. “Muitas vezes paralisamos quando poderíamos fortalecer relações e ganhar competitividade”, referiu.

Pedro Martins acrescentou que a diferenciação é essencial para enfrentar os desafios do mercado, mas alertou também para o peso da burocracia. As pequenas e médias empresas, em particular, enfrentam dificuldades em responder a múltiplos critérios e auditorias exigidos pelas marcas. Defendeu, por isso, um maior alinhamento entre marcas e entidades certificadoras, com a criação de normas comuns que reduzam encargos administrativos e desigualdades competitivas.

Já Vítor Fernandes reforçou a importância de agir sobre o que é controlável, apostando na educação e na transmissão de valores às novas gerações, bem como na formação e inovação como pilares estratégicos.

A encerrar, o CEO da TMG sublinhou o papel dos fóruns como espaço de articulação e voz coletiva do setor, apontando a ATP como um exemplo dessa dinâmica. “Não vale a pena dispersar energia quando podemos unir esforços e ganhar força conjunta”, afirmou, deixando ainda um apelo à estabilidade global como condição essencial para um pensamento estratégico mais estruturado.

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