Bebiana Rocha
Dirk Vantyghem, diretor-geral da EURATEX, marcou presença esta manhã no Fórum da Texprocess para traçar um retrato das discussões em curso em Bruxelas sobre a regulação da sustentabilidade no setor têxtil e vestuário.
Apesar de ainda haver muitas decisões em aberto, o responsável apresentou um “mapa” das medidas em debate, nas quais a EURATEX tem participado enquanto representante europeia da indústria.
A principal mensagem foi clara: a estratégia da União Europeia está a evoluir. Se em 2022 o foco recaía numa ambição máxima de sustentabilidade, hoje a prioridade passa também por assegurar a sobrevivência e competitividade da indústria europeia, vista como essencial para a autonomia do continente.
A sustentabilidade mantém-se no centro da agenda política, mas agora com maior equilíbrio económico e competitivo. Há uma preocupação crescente em reforçar o selo made in Europe e em garantir condições equitativas no mercado, exigindo que os produtos importados cumpram os mesmos padrões de qualidade.
Na sua intervenção, Dirk Vantyghem começou por enquadrar o papel da EURATEX como interface entre as empresas e instituições como a Comissão Europeia. Reconheceu que “estamos a enfrentar um período de elevada exigência regulamentar”, sublinhando, no entanto, a necessidade de transmitir confiança às empresas.
Recordou ainda que, há quatro anos, foi definida a estratégia europeia para os têxteis sustentáveis e circulares, atualmente em fase de concretização legislativa. Desde então, a EURATEX tem estado envolvida em temas como a informação obrigatória nas etiquetas, o desenvolvimento do Passaporte Digital do Produto (DPP), a responsabilidade alargada do produtor e a definição de quotas de incorporação de materiais reciclados.
“Isto não serão regras apenas para os europeus, mas para todos os que queiram vender na Europa”, destacou, antecipando que, dentro de dois a três anos, o setor operará num novo enquadramento regulamentar, com formas distintas de partilha de informação.
A evolução da estratégia europeia está também ligada a fatores externos, como as crises energéticas, a pressão de mercados como a China para escoar grandes volumes de produção e o crescimento do ultra fast fashion. Neste contexto, a União Europeia procura ajustar a sua visão, equilibrando sustentabilidade com a necessidade de reduzir dependências externas.
Essa mudança foi ilustrada com a transição do EU Green Deal para um novo paradigma designado Clean Industrial Deal, que coloca a indústria no centro da política europeia.
Paralelamente, a Europa tem vindo a reforçar as suas relações comerciais, diversificando parceiros para além dos tradicionais EUA e China, com acordos como o Acordo UE-Mercosul e negociações com a UE-Índia. O objetivo é manter uma economia aberta, mas com regras claras de compliance e controlo de qualidade.
Entre os exemplos concretos desta nova abordagem, destacou o Industrial Accelerator Act, que promove o made in Europe, nomeadamente através de critérios preferenciais em contratos públicos. Referiu ainda iniciativas como a Critical Chemicals Alliance e a revisão das regras de contratação pública, como sinais de uma postura mais estratégica e protetora da indústria europeia.