03 março 26
Feiras

Bebiana Rocha

Texprocess 2026: Sabine Scharrer explica porque Portugal deve visitar o certame

Num momento particularmente exigente para a indústria do vestuário e dos têxteis técnicos – marcado por pressão sobre custos, volatilidade das cadeias de abastecimento, escassez de mão de obra qualificada e aceleração tecnológica – a Texprocess prepara a sua edição de 2026 reforçando o seu papel como plataforma estratégica para investimento e modernização industrial.

Em paralelo com a Techtextil, a feira aposta na integração entre materiais e tecnologias de processamento, na digitalização e na inteligência artificial, e dá especial destaque ao crescimento do segmento Performance Apparel Textiles. O aumento consistente da presença portuguesa é também um sinal do dinamismo da indústria nacional.

Para explicar as principais novidades, tendências e estratégias da próxima edição, o T Jornal entrevistou Sabine Scharrer, Director Brand Management Technical Textiles & Textile Processing da Messe Frankfurt, que partilha a visão da organização sobre o futuro do setor e o papel da Texprocess na transformação da indústria.

Foi reportado um crescimento consistente no número de visitantes portugueses. Como interpreta este aumento? Reflete um maior investimento nacional em inovação e tecnologia?

O número de visitantes portugueses na Texprocess tem vindo a crescer de forma consistente. Na última edição, Portugal foi o sétimo maior país visitante, um reflexo claro da força da indústria têxtil nacional, onde a confeção desempenha um papel central.

Portugal produz para grandes marcas e dispõe de uma indústria de private label altamente exigente. Por isso, os profissionais portugueses demonstram particular interesse em novas tecnologias de costura, confeção e bordado – soluções que lhes permitem reforçar o serviço prestado aos seus clientes. Na Texprocess 2026, encontrarão uma oferta especialmente robusta nessas áreas.

Num momento em que muitas empresas procuram maior flexibilidade, que papel prevê para a Texprocess nos próximos anos?

A Texprocess assume um papel central na viabilidade futura da indústria. Investir em tecnologias modernas, processos digitais e fluxos de trabalho otimizados por inteligência artificial significa produzir de forma mais rápida, flexível, interligada e económica.

Num contexto marcado pela volatilidade das tarifas, escassez de mão de obra qualificada e custos energéticos elevados, sistemas eficientes e orientados para o desempenho são determinantes para manter competitividade.

Os desenvolvimentos tecnológicos avançam a um ritmo cada vez mais acelerado. Neste contexto, a periodicidade bienal da feira continua a fazer sentido? Como se adaptou a Texprocess a esta aceleração da inovação?

A Techtextil e a Texprocess realizam-se de dois em dois anos, acompanhando os ciclos de inovação dos expositores. O desenvolvimento de produtos é complexo e intensivo em investigação, enquanto as máquinas de fabrico e processamento representam investimentos de elevado valor, planeados com antecedência.

O modelo bienal mantém-se, assim, como uma plataforma equilibrada para fornecedores e visitantes.

Pela primeira vez, o segmento Performance Apparel Textiles está próximo da Texprocess. Que sinergias espera a organização criar com este novo layout?

Na Techtextil 2026, os Performance Apparel Textiles estarão no Pavilhão 9.0, junto às tecnologias de processamento da Texprocess, no Pavilhão 8.0. O objetivo é claro: encurtar distâncias e aproximar materiais e tecnologias num único percurso.

O segmento está em crescimento, impulsionado pela procura de têxteis funcionais de alto desempenho para outdoor, aplicações militares ou vestuário de proteção. Serão 130 expositores de 13 países. Um dos momentos de destaque será o “Performance Apparels on Stage”, uma apresentação ao vivo de produtos finais funcionais, selecionados por um júri de especialistas, permitindo aos visitantes ver os materiais já aplicados.

Esta decisão reflete uma evolução mais ampla da indústria, onde o desenvolvimento de materiais e produtos é cada vez mais concebido em paralelo com os processos de produção?

Sem dúvida. A produção de vestuário é hoje abordada de forma holística. Materiais e opções de processamento são pensados em conjunto desde a fase de design, enquanto as etapas produtivas se tornam cada vez mais interligadas.

Automação, digitalização e inteligência artificial permitem maior eficiência, menos falhas e melhor gestão de recursos – incluindo o cálculo inteligente de materiais durante a produção.

Que áreas ou segmentos de soluções espera que despertem maior interesse entre os visitantes este ano?

A Techtextil apresenta soluções para 12 áreas de aplicação, do setor automóvel à moda, refletindo a diversidade do mercado.

Um dos destaques será o crescimento dos têxteis naturais de performance. Novos materiais e técnicas de acabamento estão a melhorar o desempenho de fibras naturais, de base biológica ou biodegradáveis. Esta oferta terá maior visibilidade através de uma área dedicada nova – Nature Performance – e de um selo com o mesmo nome, que pode ser pedido pelos expositores através da inscrição gratuita no Econogy Finder. A identificação facilitará a sua localização, tanto nos stands como na pesquisa online.

A mensagem da feira tem sublinhado consistentemente a inovação como ferramenta-chave para a eficiência e a sobrevivência competitiva. Que exemplos concretos veremos nesta edição que ilustram esta abordagem? Que grandes tendências se destacam?

A Techtextil e a Texprocess continuam a afirmar-se como plataformas privilegiadas para apresentar inovação a uma audiência global. A articulação entre investigação, indústria e aplicação acelera a transformação de ideias em soluções prontas para o mercado.

Os Innovation Awards da Techtextil e da Texprocess refletem essa dinâmica. Nesta edição, foram recebidas mais candidaturas do que anteriormente. Os vencedores serão anunciados a 14 de abril e a cerimónia terá lugar ao vivo, em Frankfurt, a 21 de abril.

A Texprocess reúne soluções para uma vasta gama de aplicações, da moda aos têxteis técnicos. Diria que esta diversidade é uma das principais forças da feira?

Na Texprocess, os visitantes obtêm uma visão abrangente do mercado, fundamental para decisões de investimento. Ao longo de 15 grupos de produtos, encontram soluções para toda a cadeia de processamento – do CAD/CAM ao corte, costura, bordado e acabamento.

As tecnologias apresentadas respondem tanto à necessidade de eficiência como ao processamento rigoroso de materiais de alta tecnologia destinados a aplicações exigentes, como têxteis técnicos para assentos automóveis ou instalações industriais. A proximidade com a Techtextil permite ainda contactar diretamente com materiais técnicos e não-tecidos inovadores.

A Texprocess acolherá 200 expositores de 28 países. Poderia destacar algumas marcas de referência, bem como novos expositores que se juntam à feira?

A Texprocess 2026 reunirá 200 expositores de 28 países, combinando participantes de longa data e novas presenças. Entre os nomes já confirmados estão bullmer, Brother Internationale Industriemaschinen, Dürkopp Adler, Eton Systems, Kai Corporation, Morgan Tecnica, Style3D | Assyst, Veit e Zünd Deutschland.

Entre os novos expositores contam-se Amann & Söhne, Coats Group, Melco International, NedGraphics, Özbilim, Pathfinder Australia, PGM System e Robotextile.

A organização tem também sublinhado que encontrar os parceiros certos é essencial para desbloquear novas oportunidades de mercado. De que forma a Texprocess facilita ativamente essas ligações?

A feira promove um ambiente propício à transformação de ideias em oportunidades de mercado. O Texprocess Forum e o Techtextil Forum reúnem especialistas e institutos internacionais de investigação, que partilham conhecimento e resultados recentes.

Há também áreas dedicadas a start-ups. Na Texprocess estarão presentes, entre outras, ProMSD – Pusztay, Prodactive Solutions, Qsee.ai e White Pattern.

Qual é o ponto de situação relativamente às candidaturas do Texprocess Forum?

Pela primeira vez, um comité de programa seleciona as apresentações. Os temas abrangem desde processamento sustentável até soluções impulsionadas por inteligência artificial.

Entre as sessões confirmadas estão “AI for fashion – an E2E Ecosystem from Digital to Physical” (Gerhard Karl, Style3D | Assyst) e “Modernizing Fashion Manufacturing Without Major Investment: A Scalable Path to Industry 4.0” (Gregory Gueret, Lectra). O programa completo pode ser consultado no calendário oficial do evento.

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