19 maio 26
Digitalização

Bebiana Rocha

Texp@ct termina com elogios internacionais à indústria portuguesa

Um “ecossistema único”, “uma mina de ouro” e “um desenvolvimento industrial incrível”. Foi desta forma que Thomas Häkansson, creative director da Fashionlab; Crispin Argento, managing diretor e co fundador da The Sourcery; e Lutz Walter, secretário geral da Textile ETP, respetivamente, descreveram a indústria têxtil portuguesa durante o encontro final do Texp@ct, realizado a 12 de maio, na Alfândega do Porto, numa iniciativa promovida pelo CITEVE dedicada à transição digital.

Ao longo do painel, os três especialistas internacionais deixaram uma mensagem comum: Portugal deve preservar o seu saber-fazer, acelerar a digitalização e reforçar a capacidade de comunicar a sua identidade ao mercado global.

Na sua intervenção, Crispin Argento defendeu que Portugal precisa de apostar mais na construção de narrativas em torno da indústria. “Hoje, as marcas são distribuidoras de moda e de histórias”, afirmou, considerando que o país não pode comunicar apenas através da qualidade do produto, mas também através da tradição e do património industrial que possui.

O responsável destacou ainda que as marcas que escolhem Portugal para produzir valorizam a transparência junto do consumidor e apontou para o aparecimento de uma nova geração de marcas alinhadas com essa visão. Nesse sentido, considerou essencial que Portugal continue a apoiar, educar e acompanhar estas empresas, de forma a consolidar relações de longo prazo.

Por sua vez, Lutz Walter centrou a sua intervenção na importância do conhecimento acumulado pela indústria europeia. Recorrendo ao exemplo do setor automóvel e das joint ventures criadas com a China, sublinhou que “nem tudo é imitável”, defendendo que o saber-fazer continua a ser um dos principais ativos da indústria portuguesa.

Apesar de reconhecer a forte concorrência internacional ao nível dos custos e do capital, o responsável salientou que a digitalização deve ser encarada como um complemento ao craftsmanship e não como um substituto. “O craftsmanship tem de continuar a ser cultivado, em Portugal e na Europa”, afirmou.

Também Thomas Häkansson alertou para a necessidade de preservar a criatividade humana numa fase de crescente integração da Inteligência Artificial nos processos industriais. Embora reconheça ganhos de eficiência, considerou que existem dimensões humanas insubstituíveis. “No final do dia, vamos continuar a precisar de ter uma visão, quer da marca quer do consumidor”, afirmou.

O especialista deixou ainda críticas ao atual modelo de desenvolvimento de coleções, defendendo uma maior curadoria e foco no consumidor. “Temos de pôr foco no consumidor e não continuar a produzir à espera que alguém compre”, referiu, acrescentando que muitas coleções são excessivamente grandes, o que acaba também por representar custos acrescidos para as empresas.

Ao longo da sessão, os intervenientes reforçaram igualmente o papel central das pessoas no futuro da indústria. “Sem pessoas não temos indústria” foi uma das ideias repetidas durante a tarde, acompanhada pelo apelo ao reforço da digitalização enquanto ferramenta facilitadora da relação entre empresas, produtos e consumidores.

Durante o debate, Lutz Walter incentivou ainda as empresas portuguesas a aproveitarem os resultados desenvolvidos no âmbito do Texp@ct, nomeadamente os dados gerados, defendendo que estes podem ter impacto direto nos workflows e ajudar a responder à escassez de mão de obra no setor. Acrescentou também que a digitalização poderá funcionar como fator de atração para as novas gerações.

A encerrar o painel, Thomas Häkansson deixou uma mensagem direta à indústria portuguesa: “Sejam mais portugueses. Preparem-se para uma indústria que mudou, sintam o gap, olhem para o modelo de negócio que têm e ajustem-no”.

O responsável considerou ainda que Portugal deve aproveitar o atual contexto de surgimento de novas marcas, capitalizando o conhecimento e as competências instaladas no setor. “Make Portugal Great Again”, concluiu, defendendo também uma maior articulação entre turismo e indústria, através da criação de experiências que permitam aos visitantes conhecer não apenas o país, mas também o seu ecossistema industrial.

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