14 maio 26
Digitalização

Bebiana Rocha

Texp@ct levou 26 soluções tecnológicas à Alfândega do Porto

O Texp@ct apresentou os seus resultados na passada terça-feira, na Alfândega do Porto. O evento dividiu-se em dois espaços: uma área de conferências, com três momentos-chave de debate, e uma área de demonstração, onde foram apresentadas as 26 soluções tecnológicas desenvolvidas no âmbito do projeto, concebidas para responder aos desafios da indústria nas áreas da digitalização e automação.

O encontro serviu como ponto de condensação de três anos de trabalho e evidenciou não apenas a experiência dos membros do consórcio – tanto da indústria como das entidades tecnológicas -, mas também a perspetiva internacional de Portugal e a relação cada vez mais estreita entre tecnologia, competitividade e sustentabilidade.

António Amorim, presidente do CITEVE, fez as honras de abertura e destacou que o fator mais importante para o sucesso da transição digital é a preparação das pessoas. “Quem apanhar o comboio vai ser muito mais competitivo. A digitalização e a robótica são muito importantes”, afirmou, deixando ainda um agradecimento pelo trabalho desenvolvido ao longo do projeto.

Seguiu-se a intervenção de Tércio Pinto, board member da Impetus, promotora líder do projeto, que abordou a aplicação prática das soluções desenvolvidas e o potencial dos serviços criados para exportação. O responsável centrou o discurso na abordagem colaborativa, sublinhando a importância da partilha de dados qualificados.

A participação da Impetus no consórcio esteve particularmente ligada à robotização e automação, aplicadas sobretudo na área do armazém, permitindo otimizações de espaço e aumentos de capacidade. “Estivemos focados na fábrica responsiva, nos dados e na rastreabilidade”, afirmou, salientando que esta última será essencial para responder aos desafios do Passaporte Digital de Produto e da Responsabilidade Alargada do Produtor.

António Braz Costa, diretor-geral do CITEVE, encerrou os discursos iniciais sublinhando que o grande desafio da digitalização passa por conseguir juntar áreas diferentes. No caso concreto do projeto, explicou, a principal dificuldade inicial foi criar uma linguagem comum entre o setor têxtil e as tecnologias digitais.

“Foi a primeira vez que sentimos que o resultado desta interação vai ter consequências no mercado”, afirmou, recordando um projeto anterior ligado à Loja do Futuro, que, apesar do potencial identificado, nunca chegou ao mercado.

O diretor-geral do CITEVE destacou ainda a dimensão ímpar do Texp@ct, quer em termos de financiamento, quer no número de soluções desenvolvidas. “Não há nenhuma empresa que não saiba que a digitalização é obrigatória”, afirmou, insistindo que “o mundo está diferente”.

Acrescentou que o projeto não serviu apenas para responder aos desafios da indústria têxtil, mas também de outros setores industriais, salientando que as soluções criadas podem ter o mundo como mercado. “Cuidem dos setores de onde vocês sabem da poda”, rematou.

João Nuno Oliveira, diretor do departamento de transição digital do CITEVE, contextualizou depois o projeto, que envolveu 39 entidades. “A digitalização tem um impacto enormíssimo na sustentabilidade”, afirmou, antes de dividir o Texp@ct em sete áreas técnicas: robotização, fábrica responsiva, direto ao consumidor, interoperabilidade de dados, têxteis inteligentes, produto digital e competências digitais.

Na área da robotização, explicou que o objetivo passa por diminuir a dependência do setor em relação à mão de obra, dando como exemplos as células de costura automática, os sistemas de alimentação automática de máquinas, os armazéns automáticos e os robôs de transporte. Destacou ainda o prémio de inovação conquistado na Texprocess.

Sobre a fábrica responsiva, apontou como exemplos os sistemas de track and trace e os digital twins. “A visibilidade obtém-se com dados”, afirmou, sublinhando que a recolha e tratamento de informação são fundamentais para a implementação de Inteligência Artificial nas empresas.

A ideia de colaboração voltou então a ganhar destaque. “Entidades concorrentes estiveram a trabalhar em conjunto. Criou-se uma dinâmica de partilha que queremos manter”, referiu, retomando a mensagem deixada anteriormente por Tércio Pinto.

No eixo direct to consumer, João Nuno Oliveira falou do comércio online e do desenvolvimento de conceitos que permitam às empresas chegar ao mercado de forma mais sofisticada.

Já na área da interoperabilidade, o trabalho desenvolvido com as empresas de software procurou criar uma linguagem comum capaz de ligar empresas com diferentes ERPs, permitindo que os dados circulem de forma fluida entre todos os intervenientes da cadeia de valor. “Para nós este projeto sempre foi sobre a integração digital da supply chain”, resumiu. “Os processos de negócio são transversais; os dados não. E têm de o ser porque são fundamentais para os negócios.”

A exploração dos têxteis inteligentes incidiu sobre vários segmentos, como saúde, desporto e proteção, tendo sido apresentadas na Alfândega do Porto seis soluções inteligentes.

O projeto contemplou também o desenvolvimento de um produto totalmente digital, através de trabalho desenvolvido ao nível da modelação de produto, simulação de tecidos e análise de tendências.

Na área dos skills digitais, o foco esteve na criação de uma infraestrutura para produção de conteúdos – também levada para o evento – e no desenvolvimento de uma oferta formativa ajustada às necessidades do setor.

“Estou viciado nisto”, confessou João Nuno Oliveira, voltando a destacar o espírito colaborativo e “a mistura entre pessoas têxteis e tecnológicas”. Alertou ainda que “as conversas digitais já não são só com o informático. O digital é uma área que toda a gente tem de perceber”, defendendo que isso será determinante para o crescimento do setor.

O responsável deixou também o desafio de criar uma feira dedicada às tecnologias digitais para ajudar a marcar a agenda de inovação do setor, incentivando ainda os presentes a tornarem-se clientes destas soluções, a participarem em futuros momentos de partilha e a alargarem esta dinâmica ao cluster.

Após um dia intenso de apresentações e demonstrações, António Braz Costa encerrou o encontro com algumas certezas. “Não há caminho de volta. Ou digitalizar. Ou morrer. Sobre esta questão não há nenhuma dúvida”, afirmou.

Outra das conclusões destacadas foi que “não há sustentabilidade sem digitalização”. Na perspetiva externa, acrescentou, Portugal é visto como um país com capacidade para liderar o futuro da indústria, reunindo condições ideais para este percurso.

O diretor-geral do CITEVE afirmou ainda não ter dúvidas sobre a existência de um sistema científico e tecnológico dedicado, considerando que o facto de Portugal possuir um cluster completo pode representar uma enorme vantagem competitiva. Nesse sentido, defendeu que o país deve convencer a Europa de que pode assumir-se como o laboratório têxtil do continente. “Portugal como laboratório vivo de inovação no setor têxtil”, sintetizou.

“Digitalizar é pensar de forma diferente dentro das organizações. Temos dados que estão mal recolhidos, mas as coisas estão lá. Talvez isso não seja o mais difícil. O desafio está na consciência de como o fazemos”, continuou.

“Não é no fim deste projeto que fica tudo resolvido, mas lançámos um conjunto de anzóis para a água. Estamos prontos para pescar e para continuar a investir em canas melhores e anzóis melhores para pescar peixes também maiores”, concluiu.

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