19 maio 26
Digitalização

Bebiana Rocha

Texp@ct juntou tecnológicas para discutir competitividade digital do têxtil

As empresas tecnológicas estiveram reunidas há precisamente uma semana, na Alfândega do Porto, para discutir a competitividade numa indústria têxtil e vestuário cada vez mais digital. No evento final do Texp@ct, subiram ao palco Armando Mota, em representação da Inforcávado, Gilberto Loureiro, cofundador da Smartex, João Ferreira, fundador da Frejen, e Lara Silva, projetista mecânica da ESI Robotics, num debate centrado nos desafios da digitalização, robotização, rastreabilidade e maturidade tecnológica do sector.

Armando Mota: gestão, dados e interoperabilidade

Armando Mota, CEO da Inforcávado, começou por sublinhar que a dimensão das empresas portuguesas continua a dificultar uma aposta séria na digitalização. O responsável apontou ainda a falta de visão de alguns gestores, que acabam por não valorizar a informação gerada pelos ERPs.

“É importante retirar informação dos dados”, afirmou, lembrando que, caso contrário, as empresas não estão a aproveitar o verdadeiro potencial destas ferramentas e acabam por desvalorizar o trabalho de quem introduz os dados nos sistemas.

O responsável voltou várias vezes ao tema da gestão, defendendo que o inventário deve ser encarado como uma verdadeira ferramenta estratégica, e não como um simples processo administrativo. “O têxtil é uma correria, temos de pensar no amanhã”, afirmou. Reconhecendo que “os prazos de encomenda são cada vez mais curtos e isso não ajuda as empresas”.

Armando Mota insistiu ainda que a transição digital é inevitável, sobretudo porque as marcas já exigem cada vez mais informação em tempo real. Enquanto membro do consórcio Texp@ct, destacou especialmente o trabalho desenvolvido na interoperabilidade de dados. “Começo a ver uma luz ao fundo do túnel. Depois destes três anos, os projetos estão a funcionar”, concluiu.

Gilberto Loureiro: complexidade, rastreabilidade e maturidade digital

Gilberto Loureiro identificou a complexidade da indústria têxtil como uma das principais barreiras à transição digital. Numa segunda ronda de intervenções, partilhou também a experiência acumulada nas visitas à Ásia, reconhecendo que é na China que se concentram os maiores volumes e os maiores investimentos em tecnologia, mas considerando que Portugal continua à frente de países como a Índia ou o Bangladesh em vários aspetos da digitalização.

O cofundador da Smartex destacou ainda diferenças significativas entre empresas portuguesas. “Há uma diferença daquilo que a Impetus pede para aquilo que outros pedem”, exemplificou, acrescentando, no entanto, que o sector está a evoluir e que se nota uma maior adoção de tecnologia. Portugal continua, aliás, a ser o terceiro maior mercado da empresa.

“Os dados são o primeiro passo para uma boa implementação da tecnologia”, frisou. A rastreabilidade foi outro dos temas abordados por Gilberto Loureiro, que revelou a experiência da Smartex com o sistema Smartex Loop, desenvolvido para rastrear rolos têxteis. Apesar do investimento realizado, o mercado não reagiu como esperado.

“Ninguém quer pagar para ver os dados do fio. Na Europa não querem por uma questão de preço, embora em Portugal tenhamos algumas empresas com as quais já trabalhamos. Neste momento investimos dinheiro e recursos e o mercado deu-nos um murro na cara. Vamos aguardar mais uns anos”, afirmou. Já em conversas paralelas entre os participantes, revelou que a taxa de penetração da Smartex em Portugal é atualmente superior à registada na Ásia.

Para o empresário, Portugal reúne condições particularmente favoráveis para o desenvolvimento de start-ups tecnológicas. “É barato fazer engenharia aqui, é fácil testar, há proximidade ao terreno e diversidade, desde empresas que trabalham para mercados de massas até ao luxo”, explicou. Tendo recentemente deixado de ser uma start-up, a Smartex entra agora numa nova fase. Gilberto Loureiro revelou ainda, em primeira mão, que a empresa adquiriu o sistema de uma empresa inglesa especializado na deteção de defeitos de color shading degradé.

Ainda sobre sustentabilidade e rastreabilidade, considerou que a legislação poderá vir a desempenhar um papel decisivo na adoção destas tecnologias. “As marcas seguem os consumidores e os consumidores não querem saber da sustentabilidade. A carta joker aqui seria a legislação para puxar por este tipo de tecnologias”.

João Ferreira: digitalização como adaptação contínua

João Ferreira reforçou a ideia de que a digitalização é, antes de mais, um processo operacional. O fundador da Frejen explicou que a especificidade do sector leva muitas vezes à adaptação dos ERPs empresa a empresa, mas alertou para os riscos dessa prática. “O que acontece é que quanto mais adaptamos, mais criamos uma ilha, difícil de manter e difícil de escalar”, referiu.

Entre os principais obstáculos, destacou ainda a falta de confiança nas soluções tecnológicas e a dificuldade de integração entre diferentes sistemas. Para João Ferreira, o caminho passa por encarar a digitalização como um processo contínuo de melhoria.

O fundador da Frejen sublinhou também que o grande desafio atual já não é produzir bem, mas adaptar-se rapidamente às mudanças do mercado. “Os planeamentos mudam constantemente, as prioridades mudam, são precisas entregas mais rápidas. A digitalização tem de ser vista neste contexto de adaptação à realidade”, defendeu.

João Ferreira acrescentou ainda que muitos processos continuam a poder ser simplificados e valorizou a importância do pensamento trazido pelas empresas tecnológicas para o sector.

Lara Silva: robotização gradual e capacitação

Do lado da robotização, Lara Silva falou sobre os desafios que a ESI Robotics tem encontrado na manipulação de tecidos. “A robótica tem evoluído lentamente”, admitiu, acrescentando que “a falta de análise de dados no chão de fábrica é crítica”.

A projetista mecânica destacou que existe atualmente uma corrida à modernização das fábricas, mas alertou para a necessidade de definir prioridades. Segundo Lara Silva, as empresas precisam de perceber primeiro quais são os pontos mais críticos a automatizar.

Retomando a questão da robotização, explicou que a automatização deve começar por tarefas repetitivas, com pouca variabilidade e reduzido valor acrescentado. “Vamos dando passos de bebé”, resumiu.

A responsável destacou ainda a complexidade técnica da confeção, sobretudo na costura. “O projeto permitiu ter uma visão diferente do sector. É impressionante a complexidade da costura. O que nos parece uma trajetória de costura retilínea, vamos a ver e há um ajustar constante de tensões por parte da costureira, de jeitinhos. Basta mudar a matéria-prima ou uma condição para tudo ser feito de forma diferente”, constatou.

Lara Silva encerrou a reflexão sobre robotização defendendo uma abordagem gradual, baseada em soluções pequenas e de baixo risco operacional. “O segredo de uma boa implementação é começar com soluções pequenas, perceber o que é mais urgente e desenvolver soluções modulares que possam crescer quando derem frutos”, explicou, referindo ainda modelos de subscrição e teste de módulos.

Para a responsável da ESI Robotics, o futuro passará por linhas semi-automáticas e colaborativas, sobretudo num sector marcado por pequenas coleções e elevada variabilidade. “Há um longo caminho a percorrer. O importante agora é a capacitação dos colaboradores e a digitalização incremental. Só depois vem a robótica”, concluiu.

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