16 julho 26
Sustentabilidade

Bebiana Rocha

Tércio Pinto: A circularidade depende de unir toda a cadeia de valor

O maior desafio da indústria têxtil está no alinhamento entre todos os intervenientes da cadeia de valor. A ideia foi defendida por Tércio Pinto, board member do Grupo Impetus, numa entrevista à Climatex, empresa suíça de tecnologia têxtil responsável pelo desenvolvimento, entre outros, de uma linha de costura circular que facilita o processo de reciclagem dos produtos finais.

“A indústria precisa de reforçar as ligações entre recolha, triagem, reciclagem, fabrico e marcas. Demasiadas vezes estes intervenientes trabalham de forma isolada”, afirmou o responsável no âmbito da rubrica Circular Talks.

Na sua perspetiva, uma reciclagem de qualidade começa muito antes de um produto chegar ao reciclador. “Depende da forma como os materiais são recolhidos, separados e preparados. Quanto maior for o alinhamento destes processos, melhor será a qualidade da fibra obtida”, explicou, defendendo uma maior articulação ao longo de toda a cadeia de valor.

Essa colaboração passa também por aproximar as marcas e os designers da realidade da reciclagem têxtil, permitindo-lhes compreender como as peças devem ser concebidas para facilitar a desmontagem, quais os desafios enfrentados pelos recicladores e de que forma decorre todo o processo de valorização dos materiais.

Ao longo da conversa houve ainda espaço para abordar os principais obstáculos à implementação de soluções circulares, nomeadamente os prazos de produção, os requisitos de qualidade e os objetivos de custo. Para Tércio Pinto, qualquer nova solução deve integrar-se nos processos industriais existentes, sem comprometer a eficiência produtiva.

No caso da Impetus, a circularidade é trabalhada através de diferentes abordagens, tanto ao nível das matérias-primas como dos próprios processos produtivos. “Na Impetus já comercializamos produtos que incorporam os nossos resíduos industriais pós-produção. Na área dos acabamentos, estamos a trabalhar com corantes que podem ser recuperados e reutilizados, ao mesmo tempo que exploramos processos de tingimento mais eficientes”, revelou.

A escolha dos processos produtivos tem igualmente impacto na pegada ambiental dos produtos. Neste contexto, o administrador da Impetus alertou para a existência de uma “caixa negra” para as marcas no que respeita à informação sobre consumos de água, fontes de energia, produtos químicos utilizados ou processos de retingimento, defendendo uma maior transparência ao longo da cadeia. “Uma maior transparência e dados detalhados sobre os processos são importantes”, sublinhou.

A regulamentação europeia e a futura implementação do Passaporte Digital de Produto foram igualmente apontadas como fatores decisivos para impulsionar essa transparência. Para Tércio Pinto, existe atualmente “um enquadramento regulamentar cada vez mais favorável”, as soluções tecnológicas necessárias já estão disponíveis e “o próximo passo é a implementação”.

No final da entrevista, o responsável sintetizou aquela que considera ser a principal condição para acelerar a transição circular do setor: “Para mim, o futuro da circularidade depende menos de inventar novas soluções e mais de reunir os diferentes intervenientes.”

Um exemplo concreto desse potencial colaborativo é a camisola Teempo, desenvolvida pela Impetus em parceria com a Climatex, a OceanSafe e a Colorifix, que em 2024 foi distinguida como Best Product na categoria de camisas e blusas dos ISPO Textrends, demonstrando como a colaboração entre diferentes empresas pode acelerar a inovação e a circularidade na indústria têxtil.

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