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Presente na edição número 62 do MODTISSIMO, o diretor executivo da Canadian Apparel Federation, Bob Kirke, conversou com T e explorou o mar de possibilidades que, tanto Portugal como o Canadá, têm para oferecer.
O que o traz a Portugal?
Há uma oportunidade a ser desenvolvida para as marcas canadianas incluírem Portugal no seu sourcing. É desafiante, porque são preços elevados com pequenos volumes. Sendo assim, o desafio está em encontrar meios de identificar o produtor correto em Portugal. Há uma oportunidade e o desafio é como fazer o match.
Como pensa solucionar o desafio?
Estava a caminhar no certame e encontrei a Valérius, uma empresa que me contactou há seis meses e descobri que eles aplicaram o que sugeri: têm uma marca canadiana – preços elevados, volumes pequenos – com quem trabalham regularmente. No website da mesma já consta que o seu design é feito por um parceiro português. Porém, o desafio mantém-se. Há várias empresas canadianas relativamente pequenas e muitas empresas pequenas em Portugal e aí reside a complexidade do match. Seria menos complexo começar por trabalhar com as empresas portuguesas de maior dimensão: identificá-las e encontrar algumas empresas canadianas dispostas a reunir-se.
Qual é o peso da ITV canadiana?
Tínhamos cerca de 100 mil trabalhadores e com a globalização comercial e suas consequências temos, agora, cerca de 20 mil. Tal como a Europa, temos isenção de impostos em países como o Bangladesh e o Camboja. Mas, perdemos a nossa força de trabalho: não há mão-de-obra, é um desafio na Europa, mas é um desafio maior no Canadá. De algum modo, Portugal tem as fábricas que nós costumávamos ter. Temos muitas empresas, marcas globais (como a Canada Goose) e muitas companhias são muito fortes na organização da produção. O maior produtor de fatos de homem no mundo está em Montreal: produzem com licença para a Calvin Klein, Ralph Laurent, entre outras, há 20 anos e assim continuará. Porém, a sua força de trabalho desceu de 2.500 para 600 trabalhadores. Muito é produzido na China – ainda que esteja a ser reduzido de forma acentuada – e há ainda países que não estão familiarizados com o Canadá, como Portugal, Turquia, Sri Lanka e nós queremos identificar empresas fortes que possam trabalhar com as marcas.
Porquê Portugal?
Há uma perceção crescente de qualidade. Para além disso, se olharmos para Toronto, que junto com Montreal é o centro de produção no Canadá, por muitos anos, as melhores confecções – especialmente na roupa de mulher – todas tinham costureiras portuguesas.
E qual é o papel Canadian Apparel Federation?
Cerca de 90% do nosso trabalho contende com questões governamentais. Porém, as empresas têm feito pressão para que essas regras comercias se tornem oportunidades comerciais, como foi o caso do nosso trabalho com o governo do Canadá para que o acordo com o CITEVE se tornasse prático. Se olharmos em redor, todas as pessoas estão a tentar diminuir os seus custos. Portanto, há que o fazer sem prejudicar as empresas. Logo, temos que ser nós a identificar as oportunidades de negócio, sobretudo na perspetiva do cliente, mas também identificar empresas que podem ajudar a gerir isso. É por essa razão que considero que é um desafio contactar com as pequenas produções portuguesas, pois empresas como a Valérius já trabalham com marcas de pequena e média dimensão e funciona bem. Então, temos que identificar mais empresas dessa dimensão e também algumas pequenas que tornem isso possível, isto é, temos que fazer com que os 10% tenham cada vez mais peso para que se criem mais oportunidades comerciais.
Foi para aumentar esses 10% que esteve presente no MODTISSIMO. O que achou?
Considerei interessante encontrar uma feira bem-sucedida com tanta variedade de oferta, foi algo que desapareceu na América do Norte. Porém, num certame como este surgem desafios, pois há várias empresas e todas parecem o mesmo. Na América do Norte, apenas as grandes empresas sabem o que significa a OEKO-Tex e, em Portugal, todas as empresas têm essas e outras. É como se fosse um standard obrigatório que torna mais complicado de encontrar a empresa ideal, pois tudo se assemelha: boa qualidade, produtos de malha, standards de circulares e sustentáveis. Torna-se complicado de ver para além disso. Já todas são certificadas, portanto o que foi fator diferenciador já não é: ‘Eu quero compreender o que a empresa faz’.
Mas valeu a pena?
As empresas não beneficiaram tanto da visita quanto eu, isto é: é mais simples encontrar um número de empresas portuguesas para levar até ao Canadá. Para mim, seria útil que as empresas realmente boas recebessem a comissão de comércio português no Canadá e, assim, nos ajudassem a identificar algumas boas empresas canadianas para elas. O sentido inverso também é válido. É mais importante ter reuniões individualizadas e transparentes e prevejo isso no futuro. Só o facto de a Valérius já estar no Canadá contribui: outras empresas podem considerar fazer o mesmo.
Como captaria o interesse português no Canadá?
As empresas portuguesas necessitam de fazer marcas e o Canadá é um bom local para começar. Uma marca bem construída e coerente tem no Canadá um bom sítio para começar na América do Norte. Primeiramente, não há impostos na produção, o que é uma vantagem face aos EUA. O facto de sermos mais pequenos que os EUA também faz com que a marca possa chegar a todo o país de forma bem-sucedida com um pequeno contingente de lojas e um ou dois vendedores por território, mais a possibilidade chegar aos EUA através do e-commerce de forma simplificada. Resumidamente, o futuro exige private label. Muitas vezes, as empresas portuguesas chegam ao Canadá e apenas falam da sua produção, quando deveriam estar a falar da sua marca. Não precisam de ser necessariamente grandes, mas sim claras nos seus objetivos e no que as torna únicas. Não queremos competir com Portugal, mas sim que os dois países se complementem entre si.