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De raízes açorianas, mais precisamente de São Miguel, Susana Bettencourt pratica as suas artes desde muito jovem. Ensinada pela sua tia, pela avó e pela bisavó, que eram malheiras por paixão, o gosto pela moda e o prazer de trabalhar com malhas nasceu desde aí, e, para além das rendas, são os materiais que predominam nas suas coleções e tornaram-se na sua imagem. Futurista, Susana Bettencourt é a tricotadeira do amanhã. Recentemente presente no Portugal Fashion, no âmbito do qual deu uma entrevista ao T Jornal, a designer mostra porque é que as malhas e o design andam de mãos dadas.
Sente que as malhas de autor são valorizadas em Portugal? As malhas e o trabalho de autor quando são aplicadas numa obra de arte são valorizadas e vistas de uma maneira diferente do que quando são aplicadas em moda?
Neste momento parece que temos dois mundos opostos a acontecer. Por um lado, sinto que a nível internacional existe uma grande apreciação e valorização das malhas e de todo o seu processo, e a compreensão de que o processo é demorado. Por outro, em Portugal, e se calhar pelo facto de estarmos muito perto do grupo Inditex, o valor percecional das peças mudou muito. Um dos trabalhos de investigação que fiz foi para perceber estes meandros da valorização das malhas: porque é que o valor de um trabalho manual de malhas que seja aplicado numa obra de arte seria diferente do que é exatamente a mesma superfície feita à mão quando aplicada num vestido. E é neste sentido que temos de perceber que as marcas portuguesas têm uma luta muito maior do que por exemplo uma marca italiana vai ter. Nestes últimos 20 anos, o trabalho internacional do Portugal Fashion tem sido isso mesmo: mostrar a moda portuguesa não só como um país de produção, mas como um país de especialidade, de conhecimento, de malheiros, de artesãos.
Acha que Portugal deveria investir e especializar-se cada vez cada vez mais, e quem sabe ser o país das malhas no futuro?
Eu tenho a certeza que sim. Tenho pena, pois eu olho para Itália e consigo ver o que eles fizeram. Obviamente foram dos primeiros países a terem semanas da moda, e nós começámos décadas mais tarde, e isso faz muito diferença. Mas também porque neste momento 60% a 70% da nossa exportação são malhas. No entanto, se nós conseguíssemos equilibrar os números e pelo menos mais 10% a 20% fossem vendidas a preço de marca portuguesa e não a preço de fabrico, a fazer exatamente o mesmo número de malhas, nós faríamos muito mais dinheiro como país.
O que é que está em falta?
Tudo começa no conhecimento, na educação e na investigação que é produzida no país. Não temos um curso superior de design têxtil, ou seja, um designer que entenda a superfície nem um curso de design de malhas. Eu pergunto-me como é que é possível quando temos uma Universidade do Minho com engenheiros e designers que poderiam montar um curso de forma a que os engenheiros tivessem um apoio criativo para termos as nossas tecnologias e as nossas máquinas ao serviço de design e de gama alta para criarmos produtos de valor acrescentado. Nós não estamos a registar nem a dar crédito àquilo que fazemos. E por isso, é necessário ensinar gerações futuras e designers a implementar outras técnicas em Portugal, de forma a que possam criar ainda mais, servir a tecnologia para o design, para os produtos de valor acrescentado, e não para fazer camisolas mais rápidas, mas sim melhores.
Acha que é urgente haver uma transferência de conhecimento? O interesse pelas malhas está-se a perder nestas gerações?
Acho. Se Itália tem quatro ou cinco laboratórios de malhas só para fazer investigação, acho que nós merecíamos pelo menos um. As pessoas de fora estão cada vez mais apaixonadas e interessadas por aquilo que nós fazemos cá, e por isso, estou a trazer cada vez mais pessoas para virem produzir a Portugal. No entanto, a estrutura que o país criou para a indústria portuguesa é de quantidade. Com este requisito, com os laneiros da Serra da Estrela todos as fechar, as fábricas das mantas de miradeiro que neste momento são só quatro quando eram dezenas, e com o conhecimento a ficar por aqui, este é um interesse que não vamos poder capitalizar. O trabalho do Portugal Fashion é dar a conhecer que nós fazemos produtos de valor acrescentado. O interesse existe, mas agora falta a estrutura para responder.
Qual é a sua visão em relação ao futuro das malhas?
Eu tenho toda a minha infância no artesanato, nas malhas manuais, e depois tenho toda a minha fase adulta na programação e no entendimento do que é uma malha em fábrica. E tenho a noção de que este conhecimento e este choque de coisas na mesma pessoa são muito raras de acontecer; tenho a responsabilidade de falar cada vez mais disto. Perceber se há pessoas interessadas em montar uma escola/atelier comigo para pudermos fazer um laboratório de investigação em malhas. E que esse laboratório seja também uma escola para formar pessoas para as fábricas, para termos remalhadeiras, para termos técnicos, programadores.
Qual é o seu grande projeto, a sua e missão, enquanto designer?
É despertar o interesse das pessoas pelas malhas. Além disso, quero criar uma marca que possa vender diretamente para vários pontos do mundo e que o nosso site possa ser um espelho num storytelling de todo o processo que está por detrás. E o projeto do meu atelier, onde recebo vários estagiários, principalmente de fora. Quero fazer isto numa escala muito maior.