Bebiana Rocha
A indústria têxtil e vestuário portuguesa está habituada a elevados níveis de exigência e tem capacidade para responder ao crescente peso das regulações em matéria de transparência, sustentabilidade e compliance. A garantia foi deixada por Vítor Fernandes, vice-presidente da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, durante o seminário promovido ontem pela SGS, na Casa de Camilo, em Vila Nova de Famalicão, onde marcas, indústria e representantes do consumidor debateram os principais desafios que hoje se colocam ao sector.
Recorrendo à analogia de alguém que aprende a nadar enquanto se afoga, Vítor Fernandes traçou uma perspetiva associativa sobre o momento atual vivido pelo STV, sublinhando o peso do sector na economia nacional, quer pelo número de pessoas que emprega, quer pelo volume de negócios gerado e pelo contributo para a balança das exportações. Apesar do contexto desafiante, destacou que as empresas portuguesas têm vindo a adaptar-se e a investir de forma estruturada ao longo do tempo, mostrando-se confiante na capacidade de resposta ao que classificou como um “acelerado compliance”.
Do lado das marcas, Fátima Santos, quality & sustainability area manager da Zippy, apontou dois grandes pontos de pressão: o custo e a exigência técnica. Explicou que a produção da marca continua maioritariamente concentrada na Ásia, precisamente por razões de custo, mas alertou para a crescente complexidade da cadeia têxtil. “A cadeia têxtil é extremamente complexa”, afirmou, dando como exemplo a dificuldade de obter informação detalhada até níveis mais profundos da cadeia de fornecimento, como o Tier 4, que poderá vir a ser exigido na sequência do Passaporte Digital de Produto e legislação para maior transparência.
Numa ótica de inovação produtiva, Bárbara Leite, head of R&D da RDD Textiles, sublinhou que a empresa do grupo Valérius tem procurado soluções alternativas ao convencional que consigam aliar performance e compliance. “A inovação não passa só por um produto novo, mas também por estratégia”, defendeu, acrescentando que a cultura de inovação faz parte da génese da empresa e tem sido determinante para manter a competitividade.
A responsável destacou ainda que a crescente relevância dos dados e da rastreabilidade levanta novos desafios, nomeadamente ao nível da interoperabilidade e da dificuldade em obter dados exatos de consumo. “Não conseguimos responder sozinhos”, admitiu. Ainda assim, acredita que a inovação será decisiva para antecipar exigências futuras. “A inovação é uma mais-valia, é isso que poderá ajudar a nadar sem nos afogarmos. Temos de estar à frente para, quando vierem as regulações, estarmos preparados”, afirmou.
A perspetiva do consumidor foi trazida por Sandra Teixeira, jurista do Gabinete de Apoio ao Consumidor da DECO, que reforçou a importância de uma comunicação mais clara e acessível. Embora reconheça a necessidade de mais informação, alertou para o risco de exclusão de determinados públicos caso desapareçam rótulos e etiquetas físicas. Partilhando a realidade de zonas do interior, destacou que muitos consumidores seniores continuam dependentes de informação física. “Temos de garantir que ninguém é privado de ter acesso à informação”, sublinhou.
Na segunda ronda do debate, Vítor Fernandes destacou que o problema não está nos objetivos da legislação europeia, mas na sua aplicação prática. “Não existe desalinhamento nos objetivos da legislação. As empresas percebem a vantagem de haver mais transparência e sustentabilidade. O problema é a interpretação prática. Gera custos, encargos e redundâncias para as empresas, sobretudo as PMEs”, afirmou.
O vice-presidente da ATP chamou ainda a atenção para o crescimento acelerado do comércio eletrónico e para as fragilidades no controlo de produtos importados. Referiu que, em 2024, apenas 0,0082% dos produtos importados foram inspecionados — o equivalente a um em cada 12.171 produtos. Neste contexto, sublinhou a necessidade de evolução legislativa e de maior articulação entre sectores, defendendo que esta não é uma questão exclusiva do têxtil. Vítor Fernandes destacou ainda o trabalho de representação que a ATP tem desenvolvido a nível nacional e internacional, complementando a ação da EURATEX.
Numa comparação com o modelo chinês, referiu que, enquanto na Europa a lógica continua centrada em “chegar e depois inspecionar”, a China exige um conjunto de dados antes da entrada dos produtos, através de uma plataforma única — uma single window — que permite um controlo mais apertado. “A legislação tem de evoluir, porque isto não é uma problemática exclusiva do têxtil. Tem de haver união de outros sectores para que não haja uma transferência ou perda da indústria europeia”, alertou.
Fátima Santos reforçou que a legislação está hoje a influenciar decisões que antes eram maioritariamente internas nas empresas. “As legislações estão-nos a empurrar”, afirmou. Ainda assim, reconheceu que o consumidor continua pouco sensibilizado para temas como sustentabilidade, conteúdo reciclado ou passaporte digital de produto.
Como exemplo, referiu testes realizados em loja com artigos dotados de passaporte digital. Segundo a responsável, o QR Code que permitia aceder a informação adicional teve maior adesão quando promovido em eventos, mas revelou-se difícil gerar esse interesse diretamente no ponto de venda. Outro caso citado foi um projeto-piloto desenvolvido com a Valérius para reciclagem de produtos próprios e reaproveitamento de stocks. “O custo da peça ficou mais elevado e as vendas foram baixas. O cliente não percebeu o produto. Temos de trabalhar isso e trazer mais vezes a DECO para chegarmos ao consumidor”, reconheceu.
Sandra Teixeira corroborou esta leitura, explicando que, embora exista uma intenção teórica de escolha por produtos mais sustentáveis, no momento da compra surgem vários constrangimentos, entre eles práticas de consumo agressivas e falta de informação clara. “A missão é formar pessoas mais débeis”, afirmou.
A encerrar, Bárbara Leite chamou a atenção para uma dificuldade adicional: nem sempre as soluções inovadoras são facilmente compreendidas por entidades certificadoras. Segundo a responsável da RDD Textiles, há processos e soluções que exigem explicação adicional antes de poderem ser certificados, o que pode atrasar a sua adoção. Outro dos grandes desafios passa por comunicar ao mercado o valor acrescentado de produtos inovadores com preços mais elevados. Sem essa valorização por parte do consumidor, concluiu, torna-se mais difícil fazer chegar a inovação ao mercado e garantir a sua escalabilidade.