Bebiana Rocha
A Califórnia é o mais recente destino das esculturas têxteis da artista portuguesa Marita Setas Ferro. A criadora inaugurou, este fim de semana, a sua mais recente exposição individual no Visions Museum of Textile Art (VMOTA), em San Diego, intitulada Soft Architectures of the Sea, uma mostra inspirada nos ecossistemas marinhos.
Ao todo, foram selecionadas nove esculturas – Anemonas in Volcanic Rock, Fading Luminiscent Corals, Luminiscent Corals, Red Corals Reef, White Corals, Blue Anemones, Grey Anemones, White Anemones e Yellow Reef – que podem ser exploradas no site do VMOTA. As obras abrangem um período criativo entre 2018 e 2024 e distinguem-se pelas diferentes estruturas, dimensões, formas e cores, partilhando, no entanto, um propósito comum: sensibilizar o público para a proteção dos ecossistemas marinhos através da experiência do toque.
“Desde 2018, o meu trabalho tem seguido um percurso de continuidade e aprofundamento, mais do que de mudança. A temática mantém-se centrada na observação da natureza, em particular dos sistemas orgânicos marinhos, na forma como crescem, se relacionam e se transformam”, explica Marita Setas Ferro, em entrevista ao T Jornal. “O meu interesse continua a ser a tensão entre fragilidade e resistência, entre o efémero e o permanente, e a forma como o têxtil pode traduzir essas qualidades.”
A artista considera que a principal evolução do seu trabalho reside na linguagem escultórica. “As primeiras peças eram esculturas tridimensionais autónomas, onde explorava sobretudo o volume no espaço. Ao longo dos anos, senti necessidade de expandir essa investigação para uma escala mais arquitetónica”, refere. As obras passaram, assim, “a ocupar a parede como um campo escultórico, onde relevo, profundidade, luz e sombra dialogam com a arquitetura envolvente”.
Segundo Marita Setas Ferro, as suas criações deixaram de ser apenas objetos escultóricos para se transformarem em “paisagens têxteis”. “Cada obra é construída através da acumulação de milhares de pontos, diferentes fibras, espessuras e texturas, criando superfícies orgânicas que evocam recifes, anémonas e ecossistemas vivos. A parede deixa de ser apenas suporte e passa a fazer parte da própria escultura, permitindo uma leitura simultaneamente bidimensional e tridimensional”, sublinha.
A investigação técnica também se tornou mais exigente, acrescenta a artista, através da utilização de fios vintage, reciclados e recuperados, que introduzem “uma enorme diversidade de comportamentos, texturas e memórias materiais”, reforçando a ideia de transformação e regeneração presente em toda a sua obra.
“Vejo esta evolução como um processo natural de maturação artística. A linguagem tornou-se mais sofisticada, a escala mais ambiciosa e a construção mais complexa, mas a intenção permanece a mesma: criar esculturas têxteis que estabeleçam uma ligação sensorial e emocional entre o visitante e a natureza, convidando-o não apenas a observar, mas a experienciar a matéria, o tempo e a delicada arquitetura dos ecossistemas que procuro homenagear”, partilha com o T Jornal.
Durante a inauguração, realizada no sábado perante um grupo restrito de convidados e mecenas do museu, Marita Setas Ferro destacou igualmente o propósito da exposição. “Através destas esculturas procuro celebrar a beleza dos oceanos, que encerram um universo de formas, cores e texturas. Ao mesmo tempo, alerto para a necessidade urgente de proteger os ecossistemas marinhos”, afirmou.
O evento teve início com uma intervenção da artista, seguida de uma apresentação das obras, proporcionando uma visita guiada intimista e uma retrospetiva sobre o processo criativo de cada peça.
A exposição representa mais um passo no percurso de internacionalização de Marita Setas Ferro e estará patente no Visions Museum of Textile Art até 10 de outubro.