Bebiana Rocha
A Revista da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola destacou, na sua edição de março, o setor têxtil e vestuário, posicionando Portugal como um dos líderes europeus da transformação sustentável da indústria. A ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, o El Corte Inglés, a J.Gomes, a Inovafil e o CITEVE contribuíram para esta edição especial.
Sob o mote de que a nova ordem europeia passa pela descarbonização e pela promoção de um consumo mais consciente, a publicação identifica os fatores que colocam Portugal entre os países que lideram este processo de reinvenção industrial.
Em entrevista, Ana Dinis destacou a sustentabilidade como um dos principais eixos da competitividade do setor. “A ITV portuguesa tem vindo a antecipar exigências de clientes e da regulação europeia, reduzindo consumos, melhorando o controlo da água e dos efluentes, substituindo químicos por alternativas mais seguras, aumentando a transparência e medindo impactos”, afirmou.
Neste contexto, a sustentabilidade deve ser encarada como uma oportunidade estratégica. “Vemos domínios muito claros onde podemos liderar: descarbonização e eficiência nos processos industriais, sobretudo nos processos húmidos; gestão inteligente da água e dos efluentes; desenvolvimento e validação de materiais de menor impacto; digitalização e rastreabilidade da cadeia de valor”, sublinhou. A dirigente destacou ainda o potencial dos têxteis técnicos e funcionais e a proximidade ao mercado europeu, fatores que permitem reduzir tempos de transporte, evitar sobreprodução e ajustar mais rapidamente a oferta à procura.
A entrevista serviu também para apresentar exemplos concretos de projetos em curso, entre eles o RESOTEX, iniciativa ibérica da qual a ATP faz parte e que pretende acelerar a circularidade no setor. “O projeto inclui um diagnóstico transfronteiriço do setor, planos de investigação sobre materiais sustentáveis com potencial de ecodesign, a criação de centros-piloto de apoio à produção sustentável e ações de capacitação e intercâmbio profissional”, explicou.
Foram igualmente destacados os projetos RDC@ITV – que permitiu realizar um diagnóstico setorial detalhado sobre energia, emissões e circularidade, com base em dados e trabalho direto com empresas, definindo prioridades de intervenção e disponibilizando uma ferramenta para cálculo da pegada de carbono -, Digi4Fashion, ligado à adoção e experimentação de tecnologias digitais avançadas, e Vetrine, projeto europeu concebido para aproximar a formação da indústria.
Neste âmbito, Ana Dinis salientou ainda a importância dos apoios provenientes do PRR e de outros instrumentos de financiamento, considerados essenciais para acelerar a transição do setor.
Apesar dos avanços, persistem desafios que exigem uma abordagem estratégica. A energia continua a ser um dos principais entraves. “Ao comparar os custos de energia na Europa com os de outros concorrentes globais, enfrentamos um diferencial relevante que condiciona investimento e margem”, alertou.
A dependência de matérias-primas importadas, sobretudo fibras sintéticas, é outro dos constrangimentos identificados. A responsável apontou ainda a necessidade de manter uma gestão rigorosa da água, dos produtos químicos e dos resíduos, o que implica tecnologia, controlo e pessoas qualificadas — uma realidade particularmente exigente num setor dominado por PME. “A rastreabilidade e a medição de emissões ao longo da cadeia são práticas ainda em desenvolvimento e exigem dados fiáveis”, acrescentou.
Embora a sustentabilidade esteja no topo das prioridades do setor e seja vista como um fator de valorização e liderança, continua a existir um desfasamento entre as intenções e as práticas de consumo, limitando a capacidade de escalar soluções mais sustentáveis em produção regular.
Ana Dinis defendeu ainda que muitas políticas e regulamentações não acompanham esta transformação de forma coerente e previsível. Apontando o exemplo do ultrafast fashion, referiu existir “um desfasamento entre a ambição estratégica e a sua aplicação efetiva no mercado”. E concluiu: “Sem condições de concorrência equitativas, existe o risco de que o esforço de transição realizado pelas empresas europeias se traduza em perda de competitividade face a operadores que não estão sujeitos aos mesmos requisitos”.
O texto termina com um elogio ao trabalho desenvolvido pelas empresas associadas, destacando exemplos de liderança estratégica, eficiência e inovação. “Portugal tem condições para estar na linha da frente, sobretudo porque junta uma base industrial diversificada com um ecossistema de inovação ativo”, concluiu.