Bebiana Rocha
O terceiro Relatório de Sustentabilidade do Setor Têxtil e do Vestuário, desenvolvido pelo CITEVE no âmbito do projeto Be@t, foi apresentado no final de 2025, durante um webinar dedicado à divulgação dos principais resultados. A publicação traça a evolução dos indicadores de desempenho ESG ao longo dos últimos anos e espelha o reforço progressivo dos compromissos assumidos pelas empresas do setor. “Mais empresas a reportar, mais métricas, mais transparência, mais maturidade” é a síntese que melhor traduz as conclusões do documento.
No âmbito deste lançamento, o T Jornal falou com Assunção Mesquita, do Departamento de Tecnologia e Engenharia do CITEVE e responsável pela coordenação deste relatório, que faz uma leitura integrada das três dimensões da sustentabilidade: ambiental, social e governance.
“Desde o primeiro até ao terceiro ano de reporte, a amostra de empresas cresceu 36%, totalizando, neste último ano, 105 empresas. Podemos afirmar que houve uma evolução clara em termos de compromisso, refletida num nível elevado de maturidade ESG”, enquadra.
Na dimensão ambiental, 89% das empresas reportam já a aplicação de técnicas de sustentabilidade nos seus processos produtivos. No que respeita aos materiais utilizados, o relatório indica que 11% correspondem a materiais reciclados, verificando-se igualmente um crescimento significativo na incorporação de materiais de base biológica, que representam atualmente 25%. “Na comparação entre materiais renováveis e não renováveis, observa-se uma tendência consistente de redução do recurso a matérias-primas não renováveis. Estes resultados estão alinhados com uma trajetória que se vem consolidando desde 2019, traduzindo um compromisso notável do setor”, sublinha Assunção Mesquita, que é também gestora do Pilar da Sociedade do Be@t.
O relatório revela ainda que 35% das empresas utilizam rótulos ecológicos e que 68% reportaram, uma redução do uso de produtos químicos, evidenciando também uma transição para substâncias menos nocivas. A redução do consumo de água é outro eixo prioritário, com a adoção crescente de práticas mais eficientes, nomeadamente a reutilização de água. “As empresas vão progressivamente incorporando soluções mais eficientes”, exemplifica.
No domínio da descarbonização, o documento regista uma redução das emissões de âmbito 1 e 2, bem como uma diminuição dos consumos energéticos. Estes resultados refletem o investimento contínuo do setor em tecnologias e processos produtivos mais eficientes, com impacto direto na redução do consumo de fontes de energia.
A transformação do setor é igualmente visível na dimensão social. A diversidade, igualdade e inclusão estão bem representadas, com 48% dos trabalhadores a serem mulheres e 52% homens, considerando o conjunto dos subsetores analisados, no âmbito da amostra. O relatório destaca ainda o envolvimento significativo das empresas em ações de sensibilização ambiental dirigidas aos colaboradores. Paralelamente, 57% das empresas realizam doações de produtos e patrocínios para apoio à comunidade.
Na vertente da governance, no que respeita à ética e integridade do negócio, 95% das empresas inquiridas já implementaram códigos de ética e de conduta, enquanto 30% fazem o reporte público das questões relacionadas com os seus impactes e desempenho em matéria de desenvolvimento sustentável.
Assunção Mesquita sublinha também o papel capacitador do projeto Be@t. “No início do projeto foram promovidos webinars sobre índices de sustentabilidade e disponibilizados documentos de apoio à definição de métricas por indicador. Em paralelo, foi criada uma ferramenta de benchmarking: a Plataforma Be@t de Sustentabilidade, um dashboard que permite às empresas comparar o seu desempenho com outras empresas do mesmo subsetor e com a média do setor.”
Apesar dos progressos registados, subsistem desafios relevantes. “O tratamento de dados é hoje uma necessidade crescente. Os indicadores mostram que as empresas aumentaram o número de KPIs reportados, reforçando a maturidade na gestão de dados. No entanto, é fundamental uma abordagem consciente, que reconheça a necessidade de profissionais qualificados na área ESG”, alerta.
Em jeito de conclusão, Assunção Mesquita considera que o relatório de sustentabilidade desenvolvido no âmbito do projeto Be@t “deixou uma semente”. “As empresas estão hoje mais preparadas para responder às solicitações de clientes e de outras partes interessadas em matéria de transparência e reporte de sustentabilidade. Acreditamos que este grupo de empresas funcione como um motor de transformação para todo o setor.” A proximidade do CITEVE às empresas foi determinante neste percurso, sendo o próximo passo a divulgação internacional dos resultados. A versão em inglês do relatório será publicada ainda durante o mês de janeiro, com o objetivo de afirmar o setor têxtil e do vestuário português no contexto internacional”.
Acesso ao relatório completo aqui.