Bebiana Rocha
A Reju aproveitou a Textiles Recycling Expo, em Bruxelas, para alertar para os principais entraves à transição da indústria têxtil para um modelo verdadeiramente circular, recorrendo a uma instalação simbólica: um elefante em tamanho real construído a partir de roupa descartada. A peça pretendeu representar o “elefante na sala” – os desafios que continuam por resolver e que, segundo a empresa, raramente são discutidos de forma aberta.
“Na Reju, acreditamos que os resíduos têxteis devem ser encarados como um recurso estratégico, capaz de sustentar uma nova forma de produzir”, afirmou a empresa tecnológica.
A mensagem foi desenvolvida por Patrik Frisk, CEO da Reju, que identificou numa newsletter recente os cinco desafios críticos para o setor: o enquadramento da responsabilidade alargada do produtor está a ser concebido para gerir resíduos, e não para os eliminar; a expectativa de alcançar paridade de preço com o rPET proveniente de garrafas é irrealista; os resíduos pós-industriais não correspondem ao problema que os reguladores procuram resolver; a transição para um modelo circular será significativamente mais demorada do que é frequentemente assumido; e, por último, a inovação continua a não ocupar um lugar central no debate.
No que diz respeito à responsabilidade alargada do produtor, Patrik Frisk defende que o modelo deve assentar numa verdadeira lógica de circularidade e não limitar-se a redistribuir a responsabilidade pela gestão dos resíduos. Para o responsável, a regulamentação deve criar condições para estimular a procura por matérias-primas recicladas, tornando viáveis os investimentos necessários para desenvolver a reciclagem têxtil em larga escala. “A imposição de requisitos obrigatórios de incorporação de material reciclado não é opcional. Sem esta obrigação não há um sinal claro de procura. Sem procura não há um modelo capaz de atrair investimento. Sem investimento nada é construído”, afirma.
Outro dos “elefantes na sala” prende-se com a expectativa de que o poliéster reciclado proveniente de resíduos têxteis consiga atingir rapidamente o mesmo preço do rPET produzido a partir de garrafas de plástico. Para Patrik Frisk, trata-se de uma comparação desajustada, uma vez que os resíduos têxteis apresentam uma complexidade muito superior em todas as fases do processo. “É mais difícil de recolher, mais difícil de separar, mais difícil de preparar, mais difícil de regenerar e mais difícil de repolimerizar. Essa complexidade tem um custo”, recorda.
Relativamente aos resíduos pós-industriais, o CEO da Reju considera que estes não representam o verdadeiro desafio que a legislação procura resolver. Segundo explica, estes resíduos resultam de ineficiências produtivas que a própria cadeia de abastecimento já procura reduzir por razões económicas. “A própria cadeia de abastecimento já tem incentivos económicos para os reduzir. As marcas pagam por essas ineficiências através da erosão das suas margens”, refere. O verdadeiro problema, acrescenta, reside nos produtos que chegam ao consumidor e são descartados sem um destino adequado. “Aquilo que a legislação procura resolver é o produto acabado, vendido ao consumidor, usado e descartado sem destino adequado. O problema é o modelo linear.”
Patrik Frisk alerta ainda para as expectativas irrealistas em torno da velocidade da transição para uma economia circular. Construir uma nova cadeia de valor exige tempo para desenvolver infraestruturas, sistemas de triagem e capacidade de pré-processamento, reciclagem e regeneração. “Construir infraestruturas leva tempo. Criar sistemas de triagem leva tempo. Desenvolver capacidade de pré-processamento, reciclagem e regeneração também leva tempo”, sublinha. Mesmo a Reju, integrada num dos maiores grupos mundiais de engenharia, enfrenta limitações. “A produção circular e regional não é uma visão idealista, é uma decisão empresarial racional”, conclui.
O quinto desafio identificado pelo responsável prende-se com a necessidade de colocar a inovação no centro da transformação do setor antes que a oportunidade se esgote. “Cada ano de atraso torna a construção das infraestruturas mais difícil, o enquadramento regulatório mais complexo e a posição competitiva mais frágil”, alerta.
Na sua perspetiva, a oportunidade para liderar esta transição “nos seus próprios termos, ao seu próprio ritmo e preservando o seu modelo de negócio” existe agora, mas não permanecerá aberta para sempre. “Os resíduos têxteis já estão a acumular-se nas costas erradas, nos aterros errados e em comunidades que nunca contribuíram para a sua criação. A regulamentação continuará a avançar, independentemente da vontade da indústria. A tolerância dos consumidores está a diminuir”, conclui.