14 julho 26
Moda

Bebiana Rocha

Quatro visões para a primavera-verão 2027

Do vestuário utilitário à delicadeza da noite de verão, passando pela introspeção do deserto e pela resiliência da natureza, os desfiles de David Catalan, Pé de Chumbo, Miguel Vieira e Susana Bettencourt evidenciaram a diversidade criativa apresentada no Portugal Fashion Experience 2026, que decorreu entre 1 e 4 de julho.

David Catalan levou à passerelle a coleção CRISIS, uma reflexão sobre a sensação de insegurança que marca a sociedade contemporânea. Inspirada na linguagem visual do equipamento de segurança vintage, do vestuário de proteção e da vida costeira, a proposta conjuga denim, tecidos técnicos e algodões com materiais refletores e iridiscentes, criando um jogo entre exposição e ocultação.

Os detalhes utilitários e as silhuetas descontraídas reforçam o conceito da coleção, que, segundo o designer, “reflete um mundo onde todos parecem protegidos, mas ninguém parece estar verdadeiramente seguro”.

A noite ganhou protagonismo no desfile da Pé de Chumbo, que apresentou Minuit Bleu. A coleção, assinada por Alexandra Oliveira, inspira-se na atmosfera hipnótica de La Peau Bleue.

Pé de Chumbo Portugal Fashion

A designer evocou “uma noite de verão suspensa entre a memória e o desejo”, através de uma paleta marcada por reflexos prateados, azuis profundos, vermelhos intensos e dourados ambarinos. Redes delicadas, lantejoulas, franjas e malhas com riscas irregulares deram textura às peças, enquanto vestidos curtos e compridos e saias rodadas recuperaram referências elegantes dos anos 20, traduzindo-se numa silhueta feminina, sofisticada e sensual.

Já Miguel Vieira apresentou Um Chá no Deserto, uma coleção inspirada no filme The Sheltering Sky, de Bernardo Bertolucci. Descrita como “uma ode à beleza melancólica e à busca existencial”, a proposta transporta a alfaiataria característica do criador para paisagens áridas, onde os contrastes de texturas e sensações constroem uma narrativa de isolamento, mas também da “inebriante liberdade de se perder para se encontrar”.

O resultado é uma interpretação contemporânea do vestuário clássico, marcada pelo equilíbrio entre rigor e emoção.

Miguel Vieira Portugal Fashion

A encerrar, Susana Bettencourt explorou a transformação e a capacidade de recomeçar em Equinócio. A criadora parte da constatação de que “as estações parecem menos previsíveis” e de que “o que parecia permanente começa a transformar-se”, para recordar que “depois de cada inverno, algo floresce”.

A coleção simboliza “um estado de equilíbrio entre o que termina e o que começa”, traduzindo-se numa narrativa visual que evolui da escuridão para a luz. O desfile inicia-se com silhuetas em preto, às quais se juntam progressivamente o azul royal, os verdes aquáticos, os rosas suaves e os amarelos luminosos, acompanhados por motivos orgânicos desenvolvidos em jacquards experimentais. Ao longo da coleção, a designer mantém o diálogo entre tradição e inovação, combinando técnicas artesanais com estruturas de malha programadas digitalmente.

As quatro apresentações revelaram diferentes interpretações da primavera-verão 2027, mas convergiram na utilização da moda como veículo de reflexão sobre o tempo presente, a identidade e a transformação, confirmando a diversidade estética que marcou mais uma edição do Portugal Fashion Experience.

Susana Bettencourt Portugal Fashion

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