Bebiana Rocha
As empresas Pietra Confeções, Frazão Têxteis, Be Simple e CBI Portugal participaram, na passada quinta-feira, numa mesa-redonda dedicada à partilha de experiências e perspetivas sobre o futuro da indústria têxtil e vestuário, integrada na apresentação da nova versão do software Controltextil, agora com funcionalidades de Inteligência Artificial.
Lilian Guthon, dirigente da brasileira Pietra Confeções, representou a realidade da indústria têxtil e vestuário do Brasil. Pedro Gonçalves levou a experiência da Frazão Têxteis, Sílvia Leal participou enquanto CEO da Be Simple e Pedro Júlio, diretor-geral da CBI Portugal, apresentou a visão de uma empresa de maior dimensão.
Lilian Guthon começou por reconhecer que Portugal e Brasil enfrentam desafios muito semelhantes. “Estamos à procura de soluções também”, afirmou, enquadrando que o atual contexto político brasileiro torna a situação ainda mais difícil para os empresários.
A Pietra Confeções, localizada no estado de Santa Catarina, continua a depender fortemente das pessoas e do trabalho manual. No entanto, segundo a responsável, a pandemia alterou profundamente a forma como os colaboradores encaram o trabalho. “Se acabarem as costureiras a culpa é das marcas. Não têm mais por onde enxugar”, afirmou de forma direta, corroborando a intervenção anterior de Ana Dinis, diretora-geral da ATP, que havia sublinhado a importância das margens e da gestão de risco para os fornecedores.
A dirigente chamou ainda a atenção para um fenómeno crescente no Brasil: a deslocalização da indústria de Santa Catarina para o Paraguai, atraída pelos custos laborais mais reduzidos e por benefícios fiscais mais favoráveis.
Na Pietra Confeções, a implementação do software Controltextil surgiu da ambição de construir uma fábrica mais moderna e mais apelativa para os trabalhadores, “como se cada um tivesse o seu próprio computador”. O resultado, garante, superou as expectativas. Os colaboradores passaram a estar mais focados no trabalho, deixaram de depender constantemente do líder de grupo, a troca de operações tornou-se mais ágil e o planeamento da produção passou a ser realizado com cerca de 15 dias de antecedência. Uma vantagem importante para uma empresa que trabalha com pequenas encomendas e se define como um “alfaiate industrial”.
Pedro Gonçalves recordou, por sua vez, os 40 anos da Frazão Têxteis e os 17 anos de utilização do software de controlo de produção. Para ilustrar a importância da monitorização em tempo real, lançou uma pergunta à plateia: “Quantas peças estão a ser produzidas neste momento na vossa fábrica?”
“A Inteligência Artificial não é um bicho-papão. A IA só vem dar mais rapidez às decisões”, esclareceu. Atualmente, explica, consegue conhecer ao segundo a rentabilidade de cada colaboradora, redistribuir recursos de forma mais informada e tomar decisões sem esperar pelo final do dia ou pela reunião com a encarregada. Essa antecipação permite evitar atrasos e melhorar o cumprimento dos prazos. “Somos mais fiéis nas datas que damos ao cliente. Conseguimos saber como estamos em termos de lead time”, confirmou.
Sílvia Leal, CEO da Be Simple, lidera a empresa há 25 anos e utiliza o software da Controltextil há nove. Recordou que a empresa nasceu em 2001, na área da lingerie, apenas com uma colaboradora. Em 2008, com a crescente concorrência da China, foi obrigada a reinventar-se e aceitou um desafio na área do swimwear, diversificando a atividade. Em 2016 deu um novo passo com a aquisição de outra empresa.
À chegada da pandemia contava com 114 colaboradoras, mas apenas metade estava em condições de trabalhar. Foi nesse momento que percebeu que precisava de reorganizar profundamente a empresa. Apesar da redução da equipa, a faturação mantinha-se, tornando evidente que era necessária uma organização muito mais rigorosa.
Foi neste contexto que surgiu a implementação da Controltextil, para responder de forma estruturada à diversidade de produtos fabricados e ao crescente volume de pequenas encomendas, com uma equipa mais compacta.
“Tinha confiança nos meus processos. Hoje temos um sistema que funciona, que nos dá a realidade de quanto custa o minuto, permite identificar quais os produtos que melhor se adequam à empresa e perceber que, muitas vezes, aquilo que consideramos ser o nosso core não é o mais rentável. Conseguimos perceber perdas e ganhos. Os dados muitas vezes mostram-nos realidades diferentes daquelas que imaginamos”, alertou. A responsável salientou, contudo, que a tecnologia só produz resultados quando é acompanhada pela formação das equipas.
No site da Controltextil, a Be Simple é apresentada como um caso de sucesso, registando um aumento de 22% da produtividade, uma redução de 37% nas paragens não planeadas e um retorno do investimento em apenas 10 meses. Segundo a empresa tecnológica, o desafio consistiu em substituir a recolha manual dos tempos de produção por um sistema eficiente e em tempo real, automatizando a recolha de dados, eliminando registos em papel, reduzindo erros e disponibilizando informação detalhada para apoiar o planeamento e a melhoria contínua da produção.
Representando uma realidade distinta, Pedro Júlio apresentou a experiência da CBI Portugal, empresa com mais de 300 colaboradores. Na sua perspetiva, o principal desafio da indústria portuguesa é a reduzida escala e a falta de massa crítica.
“Os desafios são iguais na empresa que fatura meio milhão e na que fatura muito mais. Ser gestor neste sector é desafiante. O ciclo de produção é muito curto e a cadência do trabalho é dada pela própria pessoa, não por um tapete de produção como acontece, por exemplo, na indústria alimentar”, observou. Acrescentou ainda que “temos políticas públicas para a urgência e não políticas para resolver de forma estrutural os problemas do sector”. Entre as soluções possíveis, defendeu uma maior concentração empresarial. “Prefiro ser uma sardinha no oceano do que um tubarão no aquário”, afirmou.
Pedro Júlio revelou ainda que a CBI atravessa atualmente um processo de transição para o digital, facilitado pela experiência adquirida anteriormente noutro sector. Apesar da sua dimensão, garantiu que a empresa também trabalha regularmente com pequenas encomendas.
Com produção em Cabo Verde e um parceiro em Marrocos, considera que todas as geografias apresentam vantagens e limitações. Se não é o custo da mão de obra, será o da energia ou outro fator. Por isso, defende que Portugal deve continuar a apostar na especialização.
“Temos de saber vender serviço, não minutos. Ainda há uma lógica de subserviência. Na empresa os novos clientes, se querem desenvolver moldes, pagam o molde”, afirmou, defendendo que Portugal deve posicionar-se como um centro de qualidade. Para isso, considera igualmente essencial investir simultaneamente em bons gestores comerciais. “As margens têm de ser assimiladas pelas organizações”, reforçou.
Também a CBI Portugal apresenta resultados concretos da implementação da Controltextil: redução de 17% dos defeitos, aumento de 16% da qualidade final, rastreabilidade total dos lotes e retorno do investimento ao fim de 12 meses. Segundo a empresa, o objetivo inicial passou por eliminar o papel, digitalizar processos e transformar dados dispersos em informação útil para melhorar o planeamento, reduzir erros e aumentar a eficiência operacional.
Em jeito conclusivo, Sílvia Leal defendeu que Portugal tem de ser capaz de responder às pequenas encomendas, preservando simultaneamente o valor do “Made in Portugal”. “Temos é de agarrar as opções que nos tornam mais competitivos, sendo uma delas a digitalização e as tecnologias”, afirmou.
Pedro Gonçalves destacou que os modelos são cada vez mais complexos e produzidos em quantidades mais reduzidas, tornando o papel das costureiras ainda mais determinante. Lamentou igualmente que muitos clientes deixem de construir o preço em conjunto com o fornecedor, chegando já com um valor previamente definido.
Lilian Guthon concluiu apontando a diferenciação como o principal caminho para a competitividade. “Eu escolho o diferente para me manter no mercado”, resumiu.