Bebiana Rocha
A Première Vision Paris está a procurar novas respostas para um mercado que mudou profundamente, e a presença portuguesa nesta edição mostra precisamente algumas das soluções que a indústria está a desenvolver para acompanhar essa transformação. Entre novos materiais, circularidade, rastreabilidade, tecnologia e uma crescente exigência de rapidez na relação com as marcas, 12 empresas nacionais levam a Paris uma oferta que coloca a capacidade de resposta no centro da proposta.
A participação decorre no âmbito do projeto Sustainable Textile & Apparel From Portugal, promovido pela ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, e reúne 6 Dias Têxteis, A. Sampaio & Filhos, Albano Morgado, Barbosa & Cardoso, Crispim Abreu, Fábrica de Tecidos Vilarinho, Lemar, N.G.S. Malhas, Sidónios Malhas, Vilartex, Meamstyle e Circlo, distribuídas pelas áreas de Fabrics, Manufacturing e Smart Creation.
A edição de setembro está também a testar uma configuração diferente. Por razões relacionadas com as montagens da Maison&Objet, que decorre de 10 a 14 de setembro, a Première Vision deixou os habituais pavilhões 5 e 6 e ocupa este ano os pavilhões 1, 2 e 3 do Paris Nord Villepinte. A alteração apanhou algumas empresas expositoras de surpresa e o primeiro dia ficou marcado por um movimento mais contido junto dos stands. No segundo dia, porém, os corredores apresentaram-se mais preenchidos, com maior circulação de visitantes.
O comportamento da feira é, contudo, apenas uma parte de um desafio mais amplo. A perceção partilhada entre os expositores é a de que o mercado se transformou e que fornecedores, marcas e a própria Première Vision têm de reajustar a forma como trabalham. A organização está, por isso, empenhada em recolher o feedback das empresas, para perceber melhor o que hoje procuram os compradores e como o certame pode responder a essa realidade.
É nesta capacidade de adaptação que a oferta portuguesa encontra espaço. As empresas chegam a Paris com propostas que procuram responder a uma equação cada vez mais complexa: materiais diferenciadores, desempenho, sustentabilidade e inovação, mas também rapidez e capacidade para transformar necessidades específicas em soluções concretas.
A Barbosa & Cardoso, que participa pela segunda vez na Première Vision Paris, é um exemplo dessa abordagem. A empresa apresenta uma coleção orientada para a sofisticação e para o potencial de desenvolvimento, com propostas que vão de estruturas de lã mercerizada a poliésteres que replicam o aspeto do linho.

Tiago Silva, Business Development Director da empresa, explica que o desenvolvimento de produto tem procurado conciliar sustentabilidade e desempenho. Entre os exemplos está a referência AERADO, um jacquard composto por 70% de algodão Regenagri e 30% de poliéster reciclado.
Mas, na relação com as marcas, o produto é apenas uma parte da equação. Para a Barbosa & Cardoso, o serviço e a capacidade de encontrar rapidamente uma resposta são fatores decisivos para transformar uma primeira relação num regresso à coleção seguinte.
“Ajustamos o nosso processo de interação com o cliente para acelerar o mesmo no sentido de lhe facilitar a vida. Esperamos que regresse porque fomos rápidos, ajudamos e fornecemos soluções. O que se espera, em boa verdade, de um fornecedor português”, afirma Tiago Silva.
A lógica de transformar desafios em soluções está, aliás, alinhada com o foco definido pela própria Première Vision para esta edição. A organização colocou a inovação e a tecnologia no centro, reconhecendo-as como alavancas essenciais para transformar processos e modelos em todas as etapas da cadeia de valor.
Entre as soluções que a feira apresentou online como exemplos de uma indústria empenhada em responder a esses desafios encontram-se também várias referências portuguesas. Na circularidade, a Circlo surge entre os projetos destacados, num momento em que o setor procura avançar de modelos de reciclagem pontuais para verdadeiros circuitos têxtil-para-têxtil.
“O desafio passa agora por criar verdadeiros circuitos têxtil-para-têxtil desde a recolha até à reintegração de materiais reciclados”, explica a empresa. O objetivo implica desenvolver sistemas capazes de processar fluxos heterogéneos de resíduos têxteis e misturas complexas, conciliando qualidade dos materiais, rastreabilidade e viabilidade industrial. Em Portugal, a Circlo trabalha com uma rede de parceiros locais para reciclar mecanicamente resíduos de algodão provenientes do processo industrial.
Também a rastreabilidade está a ganhar novas ferramentas. A Fibretace surge entre os exemplos apresentados pela Première Vision com uma tecnologia que pode ser aplicada ao algodão regenerativo Good Earth Cotton ou à lã eqwools, disponível através da portuguesa Inovafil. Já a tecnologia Refibertech aparece aplicada num tecido da Positive Materials.

São exemplos diferentes, mas apontam na mesma direção: a resposta aos desafios da indústria está a passar cada vez mais pela combinação entre materiais, tecnologia, conhecimento e capacidade industrial. E é precisamente nessa interseção que a presença portuguesa em Paris ganha relevância.
Concluir que a presença portuguesa estende-se ainda a outras empresas e projetos de internaconalização. Indivualmente participam: A. Ferreira & Filhos, Casa da Malha, Fitecom, Inovafil, Montagut Industries – Orfama, Positive Materials, Texser – Têxtil de Serzedelo, TMG Textiles e Trimalhas. Com a APPICAPS expõem a Addvance Studio/Essence Studio, Bolflex/My Cute Pooch, Exporsola, Inducol/Indutan e MTV Belts, enquanto o projeto 100% ModaPortugal reúne Diário Geométrico/WAT, ETN – Empresa Têxtil Nortenha, Eyand, Siena e Somani. O conjunto reforça a dimensão da representação nacional em Paris e mostra uma fileira capaz de ocupar diferentes pontos da cadeia de valor