15 julho 26
Feiras

Bebiana Rocha

Portugal é o parceiro estratégico no sourcing europeu de lingerie

A proximidade aos mercados europeus, a especialização em malhas técnicas e a flexibilidade produtiva estão a consolidar Portugal como um dos principais parceiros de sourcing para as marcas internacionais. Matthieu Pinet, diretor do Salon International de la Lingerie e Interfilière Paris, defende que a feira pretende atrair mais empresas portuguesas para responder à crescente procura por soluções de nearshoring.

Portugal está a consolidar a sua posição como um dos principais parceiros europeus de sourcing para os segmentos da lingerie, swimwear e activewear. A conclusão é de Matthieu Pinet, diretor do Salon International de la Lingerie e Interfilière Paris, que identifica nas empresas portuguesas um conjunto de competências cada vez mais valorizadas pelas marcas internacionais, desde a especialização técnica à capacidade de resposta e à proximidade geográfica.

“Para nós, Portugal é o país mais forte nas malhas técnicas”, afirma o responsável, destacando o know-how nacional no desenvolvimento de tecidos elásticos e funcionais. “A experiência em tecidos stretch, Lycra, fleece e artigos para swimwear é excecional.”

A especialização técnica surge, contudo, apenas como um dos fatores que explicam o crescente interesse das marcas internacionais. A reorganização das cadeias de abastecimento e a procura por fornecedores de proximidade estão igualmente a favorecer países como Portugal.

“Trata-se de uma solução de nearshoring, que permite às marcas visitar facilmente uma fábrica e produzir dentro da Europa”, sublinha Matthieu Pinet, em entrevista ao T Jornal. Segundo o diretor da Interfilière Paris, esta tendência tem vindo a ganhar força à medida que as empresas procuram reduzir tempos de resposta, aumentar a flexibilidade e diminuir os riscos associados às cadeias logísticas globais.

A crescente valorização do nearshoring reflete uma transformação mais ampla da indústria têxtil e do vestuário. Embora muitas marcas continuem a recorrer à produção asiática para reduzir custos, observa-se uma procura crescente por fornecedores europeus capazes de assegurar maior proximidade e rapidez.

“Existe um extraordinário saber-fazer em França, mas também a realidade de um mercado onde muitas marcas recorrem à Ásia para reduzir os custos de produção”, explica Matthieu Pinet. “A Interfilière Paris procura responder a ambas as necessidades: tanto às marcas de luxo que procuram rendas de excelência, como às empresas que pretendem otimizar os seus custos.”

Neste contexto, Portugal posiciona-se como uma alternativa particularmente competitiva, conjugando especialização técnica com proximidade geográfica. “Queremos acolher mais empresas portuguesas na Interfilière Paris”, afirma. “Estamos a verificar uma procura genuína por parte das marcas por fornecedores de proximidade, muitas vezes com produtores de matérias-primas localizados junto das próprias unidades industriais.”

Na sua perspetiva, cadeias de abastecimento mais curtas representam também uma vantagem do ponto de vista ambiental. “São melhores para o planeta e é esse modelo que queremos incentivar.”

Além da competência técnica, Matthieu Pinet identifica uma outra vantagem competitiva das empresas portuguesas: a capacidade de adaptação aos novos modelos de negócio da moda. “Estamos igualmente a observar um forte interesse por parte das marcas emergentes”, refere. A explicação passa pela flexibilidade que muitos fornecedores nacionais têm demonstrado na gestão da produção.

“Os fornecedores portugueses parecem ter compreendido muito bem as necessidades destas marcas, adaptando-se a condições de encomenda mais flexíveis e a quantidades mínimas mais reduzidas.” Num mercado onde as coleções são lançadas com maior frequência e os volumes tendem a ser menores, esta capacidade de resposta tornou-se um fator diferenciador.

A evolução das cadeias de abastecimento está também profundamente ligada aos objetivos de sustentabilidade assumidos pela indústria da moda. Ainda que o preço continue a ser um fator determinante para muitas marcas e consumidores, Matthieu Pinet acredita que o investimento em soluções mais sustentáveis é irreversível.

“Existe ainda um desfasamento entre esta tendência e consumidores que continuam relutantes em pagar mais por produtos sustentáveis”, reconhece. Apesar disso, considera que a indústria já definiu o rumo a seguir. “As soluções estão a ser desenvolvidas, os fabricantes estão a investir e a direção é clara.”

Na sua opinião, o principal desafio consiste em encontrar um equilíbrio entre responsabilidade ambiental e competitividade económica. “Como produzir melhor mantendo os custos sob controlo? Esse é o desafio central da indústria.”

É precisamente neste contexto que a Interfilière Paris procura reforçar o seu papel enquanto ponto de encontro entre fornecedores, marcas e decisores internacionais. Para Matthieu Pinet, a feira deve funcionar como um espaço onde diferentes setores da cadeia de valor se cruzam e estimulam novas oportunidades de negócio.

“Queremos que as indústrias a montante inspirem as que estão a jusante, respondendo às diferentes necessidades do mercado, estimulando novas ideias e criando novos produtos e novas colaborações.”

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