02 junho 26
Inovação

Bebiana Rocha

Plux, LMA, UP, INESC TEC e CITEVE desenvolvem fato inteligente para desporto

Um fato inteligente para treino desportivo foi uma das soluções desenvolvidas no âmbito do projeto Texp@ct, que apresentou, no passado mês de maio, os seus resultados na Alfândega do Porto. Na idealização e concretização deste fato sensorizado estiveram envolvidas as empresas Plux, enquanto entidade tomadora, a LMA, a Universidade do Porto, através do Labiomep, o INESC TEC e o CITEVE.

A proposta inicial passava pelo desenvolvimento de um coordenado composto por uma peça de vestuário com sensores têxteis e não têxteis integrados – capazes de medir temperatura, humidade, frequência cardíaca, eletrocardiografia, eletromiografia, frequência respiratória e parâmetros biomecânicos. A solução seria complementada por módulos de software de modelação matemática e inteligência artificial, e capaz de gerar recomendações de treino orientadas para a melhoria do desempenho e prevenção de lesões.

O projeto incluía ainda um serviço cloud, com diferentes níveis de acesso às funcionalidades consoante o grau de profissionalização do atleta, onde fica armazenado o histórico dos dados recolhidos, permitindo acompanhar a evolução da performance ao longo do tempo. Em paralelo, foi também pensada uma aplicação móvel integrada no serviço, destinada ao registo das atividades físicas realizadas com o fato e à visualização dos principais indicadores de desempenho.

A solução apresentada manteve-se alinhada à proposta inicial, alterando apenas o tipo de peça final. Tendo-se optado por dois modelos de coordenado, um feminino e um masculino, para um maior contacto com a pele e, consequentemente, uma recolha de dados mais fidedigna.

O T Jornal falou com cada um dos membros do consórcio para perceber o papel desempenhado por cada entidade e os principais desafios enfrentados ao longo do processo.

Marta Costa, responsável de melhoria contínua da LMA, explicou que a empresa entrou no projeto com o desafio de desenvolver a malha. “Precisávamos de uma malha respirável e suficientemente flexível assegurando por um lado que o utilizador se sentisse confortável com a peça, e por outro, a integração de sensores no têxtil. Para isso, em paralelo ao processo de desenvolvimento da malha, foram realizados vários testes de usabilidade e em contexto real de forma a garantir a validação dos requisitos e uma solução esteticamente atrativa em termos de design”, refere.

Marta Costa destaca o “relevante contributo” do CITEVE na confeção da peça final, que resultou num produto “bastante atrativo”. A solução integra não só wearables, mas também fios condutores incorporados diretamente na peça, mantendo-se, ainda assim, totalmente apta para lavagem.

A responsável considera “fundamental que entidades científicas e ligadas aos sistemas de informação se aproximem do setor têxtil”, defendendo que, “quando se criam sinergias de trabalho conseguem-se produtos de elevado valor acrescentado”, sublinhando ainda o potencial de industrialização da solução.

Durante o evento foi possível ver a solução em funcionamento, com um grupo de jovens a utilizar a peça para demonstrar, em tempo real, dados como o batimento cardíaco através da aplicação.

Ana Florinda Ramôa, do CITEVE, explica que a atividade do atleta é registada em tempo real e que, no final de cada sessão, os dados são armazenados e podem ser consultados a qualquer altura.

O público-alvo da solução são adolescentes entre os 12 e os 18 anos, em contexto escolar e de formação desportiva. Ainda assim, poderá também ser utilizada por atletas profissionais, constituindo uma mais-valia não apenas para o atleta, mas sobretudo para o treinador, que consegue desenhar planos de treino mais eficientes com base nos resultados obtidos.

Ao nível dos testes, o produto foi validado em ambiente real com vários alunos, em diferentes distâncias. Foram igualmente realizados mais de 100 testes de lavagem, o que garante uma utilização equivalente a cerca de um ano.

A tomadora da tecnologia será a Plux. O T Jornal falou com Rita Cristóvão, CEO da empresa, que esclareceu que o sensor permite realizar um eletrocardiograma em tempo real, detetar o ritmo cardíaco e a sua variabilidade.

“É um dispositivo tipicamente utilizado em investigação, mas que neste caso tem aplicação desportiva, permitindo avaliar o risco de potenciais problemas cardíacos e atuar na prevenção. São cada vez mais os wearables que servem não só a área clínica, mas também os desportistas”, afirma.

O wearable desenvolvido e a sua aplicação num top desportivo representam um avanço relativamente à solução atualmente existente baseada numa faixa. Ainda assim, Rita Cristóvão faz questão de sublinhar que o wearable poderá ser aplicado noutro tipo de artigos têxteis.

Neste momento, ainda não está totalmente definido de que forma a solução chegará ao mercado — se através de uma oferta conjunta ou de produtos separados. A empresária destaca, contudo, o TRL avançado da solução, considerando-a pronta para industrialização.

Em declarações ao T Jornal, Rita Cristóvão reconhece ainda o potencial da tecnologia para melhorar a qualidade de vida dos consumidores e aumentar a consciência sobre o funcionamento do próprio corpo.

A CEO faz também um balanço positivo dos três anos do projeto, destacando a qualidade da aquisição de sinal conseguida. “Desde 2008 que participamos em projetos europeus. Nestes últimos três anos participámos em 11. O nosso papel tem sido desenvolver a componente tecnológica, continuar a inovar e estabelecer relações que fortaleçam todas as entidades envolvidas”, conclui, mostrando-se aberta a novos desafios.

O INESC TEC esteve responsável pelo desenvolvimento da aplicação e dos algoritmos associados. Miguel Correia explica que a entidade trabalhou na extração de informação dos sinais e na criação de algoritmos capazes de determinar a intensidade do movimento, a distância percorrida e a localização do atleta, estando o sistema pensado para funcionar numa turma completa.

“A complexidade está no número. Comunicar os dados de 30 alunos em simultâneo é muito diferente de comunicar apenas um, e foi aí que residiu o principal desafio”, admitiu.

Inicialmente, foi também equacionada a possibilidade de incorporar sensores nos pés, permitindo medir de forma mais precisa a distância percorrida e a força exercida nos saltos. Estas variáveis poderão vir a ser integradas futuramente, aumentando simultaneamente a complexidade e o valor acrescentado da solução.

Já o Labiomed, da Universidade do Porto, foi responsável pela validação do sistema. Manoela Sousa e Sofia Monteiro contextualizaram ao T Jornal que o contributo da entidade esteve relacionado com a definição do público-alvo, das métricas e da validação da solução através da comparação com outros equipamentos.

As investigadoras destacam como principais fatores inovadores o facto de o público-alvo ser jovem e de uma única ferramenta conseguir medir parâmetros que, até agora, exigiam diferentes soluções tecnológicas.

Por fim, o CITEVE assumiu a gestão do consórcio, garantindo a articulação entre todas as entidades envolvidas e assegurando que a comunicação entre as diferentes equipas decorria de forma eficaz. O centro tecnológico apoiou ainda a identificação das malhas, em conjunto com a LMA, bem como o desenvolvimento do design da peça final.

Partilhar