Bebiana Rocha
A Pixel Moda chegou à Península Ibérica no passado mês de junho com a ambição de acelerar a transformação digital da indústria da moda. Especializada na criação de conteúdos visuais para marcas de moda e luxo com recurso à Inteligência Artificial, a empresa italiana está por detrás de uma parte significativa das imagens de comércio eletrónico que impulsionam atualmente o sector do luxo.
A sua tecnologia contribui para gerar cerca de 50 mil milhões de dólares em vendas online por ano, reduz em 70% os custos de produção de recursos visuais e é utilizada por uma rede de mais de 900 clientes em todo o mundo.
Em entrevista ao T Jornal, Fabio LoParco, CEO da Pixel Moda, explica os planos de expansão para o mercado português e a forma como a Inteligência Artificial está a redefinir a produção de conteúdos para o retalho de moda.
“Atualmente, as marcas de moda e luxo necessitam de milhares de imagens e vídeos por estação e a produção fotográfica convencional já não consegue responder a essa procura, nem em volume, nem em prazos, nem em orçamento”, enquadra.
É para responder a este desafio que a Pixel Moda desenvolveu duas soluções tecnológicas complementares. A AI Assisted integra algoritmos próprios diretamente no fluxo das filmagens ou das sessões fotográficas, orientando as equipas em tempo real, garantindo a consistência da identidade da marca e acelerando o processo de pós-produção sem abdicar da intervenção humana. Já a AI Generated cria imagens e conteúdos visuais integralmente gerados por Inteligência Artificial, sendo capaz de produzir mais de 30 fotografias e cinco vídeos por referência de produto, eliminando a necessidade de uma sessão fotográfica presencial.
Face aos modelos convencionais de produção, a empresa aponta para um aumento de 15,3% das receitas do canal de comércio eletrónico, uma redução de 49% no custo por página de detalhe de produto, uma diminuição de 12% da taxa de devoluções – que, em alguns casos, pode atingir os 30% – e uma redução para metade da pegada de carbono associada ao processo.
“A Inteligência Artificial não substitui o talento criativo, amplifica-o”, conclui Fabio LoParco, resumindo a proposta de valor da Pixel Moda: oferecer às marcas maior capacidade de produção, consistência visual e rapidez de execução.
A Pixel Moda acaba de chegar à Península Ibérica. Que potencial vê no mercado português?
Acredito que Portugal é um dos mercados mais promissores da Europa para a Pixel Moda.
O país reúne uma combinação extraordinária de know-how industrial, tradição têxtil e uma mentalidade cada vez mais internacional. As empresas portuguesas são reconhecidas em todo o mundo pela qualidade dos seus produtos, mas hoje estão a evoluir muito para além da produção. Estão a tornar-se parceiros estratégicos das grandes marcas internacionais de moda.
É precisamente aqui que vejo a oportunidade. Hoje, a qualidade do produto, por si só, já não é suficiente. As marcas procuram parceiros capazes de as ajudar a colocar as coleções no mercado mais rapidamente, com qualidade consistente e maior eficiência.
É exatamente isso que fazemos na Pixel Moda. Ajudamos marcas e fabricantes a transformar os seus produtos em conteúdos visuais de elevada qualidade, produzidos à escala industrial, reduzindo tempos e custos de produção, sem comprometer os padrões premium exigidos pelas marcas internacionais de moda.
Para mim, Portugal não é apenas um novo mercado. É um país onde a mestria artesanal, a tecnologia e a inovação convergem de forma natural, criando o ambiente ideal para a próxima geração da produção de conteúdos para a indústria da moda.
Grande parte da comunicação da Pixel Moda está direcionada para as marcas. Mas a indústria têxtil e do vestuário também precisa de vender, promover e apresentar os seus produtos aos clientes internacionais. Como vê o potencial da PixelModa para as empresas B2B?
Acredito que a oportunidade para as empresas B2B é enorme.
Muitas pessoas continuam a pensar que os conteúdos visuais são apenas uma necessidade das marcas de moda. Eu não concordo. Hoje, os fabricantes também precisam de comunicar de forma eficaz. Precisam de apresentar as suas coleções, convencer compradores internacionais e apoiar as equipas comerciais com ativos digitais profissionais.
Os conteúdos deixaram de ser um custo de marketing. Passaram a ser um ativo de negócio.
Um excelente produto merece uma excelente apresentação. Imagens de elevada qualidade permitem aos compradores compreender imediatamente o produto, o seu fitting, a sua construção, os materiais utilizados e a qualidade global. Isto encurta o processo de venda e gera maior confiança.
Para empresas que gerem centenas ou milhares de referências em cada estação, produzir conteúdos através dos processos tradicionais é dispendioso e difícil de escalar. O nosso modelo de produção industrial, apoiado por Inteligência Artificial sempre que acrescenta valor, permite produzir mais conteúdos, mais rapidamente, com maior consistência e custos operacionais significativamente mais baixos.
A tecnologia não substitui as relações. Limita-se a dar às equipas comerciais melhores ferramentas para criar novas oportunidades de negócio.
Portugal assume cada vez mais o papel de parceiro premium das marcas de moda. A Pixel Moda ser parceira de conteúdos parece-lhe uma colaboração interessante?
Sem dúvida. Aliás, acredito que esta é uma das maiores oportunidades para toda a indústria.
O papel dos fabricantes mudou profundamente nos últimos anos. Os melhores fabricantes já não se limitam a produzir peças de vestuário. Apoiam ativamente as marcas no desenvolvimento de produto, sourcing, logística e inovação. Acredito que a produção de conteúdos é o passo seguinte natural.
Imagine entregar não apenas a peça acabada, mas também tudo aquilo de que a marca precisa para a lançar imediatamente no mercado: fotografias para e-commerce, vídeos, conteúdos para showrooms digitais, apresentações comerciais e conteúdos para redes sociais.
Em vez de expedirem apenas produtos, os fabricantes poderiam entregar produtos prontos a vender em qualquer parte do mundo. Para as marcas, isto traduz-se numa entrada mais rápida no mercado, maior eficiência e total consistência. Para os fabricantes, representa uma vantagem competitiva mais forte, maior valor acrescentado e uma relação muito mais estratégica com os seus clientes.
É precisamente este futuro que a Pixel Moda quer ajudar a construir.
Há quem receie que a Inteligência Artificial venha a substituir os profissionais criativos. A Pixel Moda defende uma abordagem assistida. Na sua opinião, onde termina o papel da máquina e começa o valor humano?
Acredito que a Inteligência Artificial é uma das tecnologias mais poderosas que a nossa indústria alguma vez conheceu. Mas também penso que existe um equívoco.
A Inteligência Artificial não é o produto. É apenas uma das ferramentas que utilizamos. Na Pixel Moda, os nossos clientes não nos escolhem porque utilizamos IA. Escolhem-nos porque entregamos melhores conteúdos, mais rapidamente, com maior consistência e a um custo operacional inferior.
A IA ajuda-nos a automatizar tarefas repetitivas, melhorar o controlo de qualidade e aumentar a eficiência da produção. Mas, por si só, a tecnologia não compreende uma marca. Não compreende o luxo. Não compreende o gosto. O conhecimento humano continua a ser essencial em todas as decisões que definem a identidade de uma marca.
A tecnologia acelera o processo. As pessoas criam o verdadeiro valor.
O luxo vive da emoção, do detalhe e da narrativa. Como garantem que esses elementos são preservados?
O luxo constrói-se através da consistência. Cada imagem tem de refletir o mesmo nível de qualidade, sofisticação e identidade da marca. Por isso, na Pixel Moda começamos sempre pela marca – nunca pela tecnologia.
Estudamos a sua linguagem visual, os seus códigos estéticos e os seus padrões de qualidade antes de definir qualquer processo de produção. A tecnologia permite-nos escalar a produção. O conhecimento humano garante que cada imagem permanece fiel à identidade da marca.
Para nós, inovar não significa substituir o saber-fazer. Significa tornar esse saber-fazer escalável. É esse equilíbrio que permite às marcas de luxo produzir mais conteúdos sem comprometer a qualidade nem a sua identidade.
Como imagina a Pixel Moda daqui a cinco anos e como antevê a evolução da produção de conteúdos para a moda?
Acredito que, dentro de cinco anos, a produção de conteúdos para a moda será completamente diferente.
As marcas não precisarão apenas de mais conteúdos. Precisarão de conteúdos produzidos mais rapidamente, mais personalizados, mais consistentes e capazes de se adaptar a cada mercado, plataforma e momento da jornada do cliente.
O tempo de colocação no mercado tornar-se-á uma das maiores vantagens competitivas da indústria da moda. É neste contexto que vejo a Pixel Moda. A nossa ambição é tornar-nos um dos principais parceiros mundiais na produção de conteúdos para a moda, assente em tecnologia. Uma empresa capaz de combinar processos industriais, tecnologias apoiadas por Inteligência Artificial e a criatividade de profissionais altamente experientes. Porque a tecnologia, por si só, nunca será suficiente.
A moda continua a ser uma questão de gosto. Continua a ser uma questão de produto. Continua, acima de tudo, a ser uma questão de pessoas.
As empresas que liderarão o futuro não serão aquelas que tiverem a Inteligência Artificial mais avançada. Serão as que conseguirem combinar tecnologia e conhecimento humano para criar melhores conteúdos, mais rapidamente e à escala global. É esse o futuro que estamos a construir na Pixel Moda.