Bebiana Rocha
“Uma manhã de vários contactos.” É assim que António Cunha, sales manager da Orfama, resume o primeiro dia da empresa na Première Vision Paris, onde marca presença até quinta-feira. França, Holanda, Alemanha, Bélgica e Canadá foram algumas das geografias dos clientes que passaram pelo stand à procura de produtos diferenciados e de um nível de especialização que a empresa considera ser uma das suas principais vantagens competitivas.
“Usamos matérias-primas diferenciadas como caxemira, lã reciclada com caxemira reciclada, lã RWS com seda, Sea Island Cotton com caxemira, caxemiras em jogo fino e grosso, 100% seda”, enumera António Cunha, a título exemplificativo. A Orfama produz tanto peças sem costura como remalhadas à mão, combinando matérias-primas de elevado valor acrescentado com competências técnicas específicas.
Em declarações ao T Jornal, o responsável aponta precisamente as matérias-primas como um dos principais fatores de diferenciação da empresa perante uma feira onde marcam presença muitos fornecedores asiáticos, com uma forte componente de competição pelo preço. “Somos competitivos pelo savoir-faire, pela competência. Procuram-nos para coleções com mais-valia e pela orientação ecológica”, deixa claro.
Este posicionamento implica um investimento contínuo em tecnologia e equipamento. “Investimos anualmente em maquinaria mais recente, que nos permita dar resposta ao mercado com produtos cada vez mais diferenciados e sofisticados”, disse.
Mais do que aumentar volumes, a estratégia passa por retirar maior valor da carteira de clientes existente. “Não queremos incrementar a produção, queremos ter margens superiores”, afirma o responsável. No primeiro semestre, o volume de faturação cresceu e as equipas estão agora focadas em garantir a continuidade dessa trajetória positiva.
O contexto de mercado, contudo, continua a colocar desafios. “Há sempre pedras na engrenagem, como as guerras, na Ucrânia e no Irão, toda a instabilidade mundial faz com que haja incerteza”, constata. A esta instabilidade junta-se a pressão sobre os custos das matérias-primas. “Recebemos informação dos fornecedores que o preço da caxemira vai subir. Estamos a falar de um aumento de 40 euros por quilo na estação inverno 2027.”
A empresa terá, por isso, de absorver parte deste impacto e repercutir outra parte nos clientes. “Uma parte vamos tentar diluir dentro da empresa, outra teremos de imputar este custo ao cliente. Em termos de custo final de uma peça estamos a falar de um aumento de 10 euros”, detalha.
Nos clientes de gama média-alta, a sensibilidade para compreender estas oscilações e manter as encomendas tende a ser maior, mas a subida dos custos acrescenta, ainda assim, uma nova variável ao processo de negociação. António Cunha confirma também um aumento, embora mais contido, no preço da lã, apontando para o crescente controlo do mercado por parte da China.
A pressão sobre os custos não se fica pelas matérias-primas. A crescente legislação ambiental implica também recursos adicionais para as empresas, mesmo quando, como no caso da Orfama, os circuitos internos já estão estruturados para responder a estas exigências. “É preciso tempo, alocar recursos e formar”, recorda.
Perante este cenário, a Orfama mantém a aposta em mercados e clientes dispostos a reconhecer e pagar o valor acrescentado das suas peças. O mercado holandês surge como uma das apostas de crescimento: em novembro, a empresa participa pela primeira vez numa feira de manufacturing na Holanda.
“Temos clientes satisfeitos e queremos aumentar esse leque”, explica António Cunha. A geografia reúne, segundo o responsável, as características do cliente ideal que a Orfama procura: empresas que valorizam diferenciação, qualidade e competência técnica e que estão disponíveis para pagar o preço justo pelas peças.