09 janiero 26
Sustentabilidade

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Observatório do Resíduo Têxtil: triagem em falta e pressão nos operadores

Atualmente sob coordenação da ATP, o ORT reuniu nas instalações da associação com o propósito de aproximar a discussão sobre o futuro sistema de gestão de resíduos têxteis da realidade industrial, “observando, no terreno, práticas e desafios ligados ao tratamento de resíduos e à circularidade no sector”, como sublinhou a diretora-geral da ATP, Ana Dinis, na nota de abertura.

Ao longo da sessão, que decorreu no terça-feira (6 de janeiro), ganhou destaque a necessidade de acelerar o trabalho de transposição da diretiva europeia e de clarificar opções nacionais para o desenho de um modelo de Responsabilidade Alargada do Produtor (RAP) para os têxteis, em articulação com as várias entidades do sector.

Um dos temas centrais da reunião foi a forma como se descreve (e mede) a capacidade existente no país. “É essencial distinguir triagem de reciclagem, evitando meter tudo no mesmo saco”, explicou Ana Tavares. A CEO da RDD Textiles (Grupo Valérius) realçou que a triagem com especificidade técnica para reciclagem continua a ser um grande desafio, bem maior do que a própria reciclagem.

No plano regulatório, foi reforçado o princípio-base que deverá orientar a transposição: têxtil colocado num contentor de via pública é considerado resíduo. A este respeito, Ana Cristina Carrola, membro do conselho diretivo da APA, clarificou que isso não elimina a possibilidade de reutilização, desde que exista uma etapa intermédia de “fim do estatuto de resíduo” (desclassificação), permitindo que possa voltar a entrar em circuito como produto.

A reunião abordou ainda o papel dos municípios na gestão do fluxo têxtil quando o material é colocado na rua, bem como as implicações do futuro modelo RAP. “A responsabilidade pelo resíduo depositado em contentores públicos é municipal”, revelou Ana Cristina Carrola, coexistindo depois com a responsabilidade legal do produtor no quadro RAP, através de mecanismos como protocolos e modelos de articulação semelhantes aos já existentes noutros fluxos.

Outro tema em discussão foi a pressão que os operadores de têxteis usados enfrentam. Sónia Almeida, promotora nacional da Humana Portugal, alertou que alguns operadores têm vindo a retirar contentores em diferentes municípios por falta de capacidade e dificuldades de escoamento, assinalando o isco de o sistema ficar “à beira de um colapso” e de se verificar um efeito inverso ao pretendido pela diretiva (recolher mais e em mais locais). A sessão de trabalho do ORT, criado em junho de 2024, prosseguiu no terreno, com a visita à Valérius 360, a unidade industrial do grupo Valérius dedicada à reciclagem de resíduos têxteis industriais recolhidos dentro e fora do grupo e a programas de retoma de vestuário pós-consumo, com o objetivo de reintegrar materiais na cadeia de valor e promover um modelo de moda circular. A empresa transforma resíduos têxteis em fio reciclado (capacidade de 7 toneladas/dia e 4 linhas de fiação open-end) e quando as fibras não podem ser reaproveitadas num contexto têxtil, são encaminhadas para a sua linha de valorização em papel de algodão reciclado.

“A Valérius 360 é um exemplo de como inovação e capacidade instalada podem apoiar soluções circulares, desde que o sistema a montante esteja bem desenhado e haja mercado. Ver no terreno os desafios e as oportunidades ajudam-nos a tomar melhores decisões”, afirmou a diretora-geral da ATP. “A transição para a circularidade no têxtil exige coordenação e regras claras. A ATP continuará a trabalhar em prol da construção de um modelo exequível, com impacto positivo na recolha, na triagem e na valorização dos fluxos de resíduos têxteis”, concluiu Ana Dinis.

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