Bebiana Rocha
A economia portuguesa mantém uma trajetória de crescimento, sustentada sobretudo pelas exportações, mas a última Nota de Conjuntura do Fórum para a Competitividade deixa vários sinais de alerta para as empresas.
O PIB acelerou no segundo trimestre e o consumo privado ganhou dinamismo nos bens duradouros, mas a evolução foi diferente nos bens não duradouros, onde se incluem os artigos de moda, com um abrandamento de 0,5%, refletindo o impacto da inflação sobre o consumo das famílias.
Do lado do investimento, a indústria dá sinais de maior prudência. A Nota assinala uma pausa no investimento industrial, com uma quebra de 12,6% no investimento em outras máquinas e equipamentos, uma evolução que poderá traduzir uma postura mais cautelosa das empresas perante decisões de modernização de equipamentos e expansão da capacidade produtiva.
Os custos também aumentaram. O reacendimento das hostilidades no Médio Oriente mantém a pressão sobre os preços da energia e da logística, com o petróleo Brent a ultrapassar os 90 dólares por barril. No gás natural, a tendência é igualmente desfavorável: o preço passou de 43,4 euros/MWh em junho para 59,1 euros/MWh em julho e atingiu 69,8 euros/MWh em agosto. Face a junho, trata-se de uma subida superior a 60% em apenas dois meses no mercado grossista, podendo constituir um fator adicional de pressão sobre os custos industriais.
Também o custo do financiamento poderá pesar mais sobre as empresas. A inflação nacional subiu para 3,3% em agosto, cenário que, segundo a Nota, poderá pressionar o Banco Central Europeu a aumentar as taxas na reunião de setembro, não estando excluída a possibilidade de novas subidas até ao final do ano. A Euribor a 12 meses, que se fixou em 2,98% no final de agosto, reforça a expectativa de encargos financeiros mais elevados, nomeadamente no financiamento de tesouraria.
No comércio externo, a evolução das exportações portuguesas de bens revela diferenças significativas entre os principais mercados tradicionalmente relevantes para o têxtil e vestuário português. Espanha e Estados Unidos são os grandes destaques positivos, com crescimentos de 13,2% e 12,2%, respetivamente. Alemanha e França mantêm-se em terreno positivo, embora a um ritmo mais moderado, com aumentos de 6,2% e 4,8%. Já Reino Unido e Itália apresentam sinais negativos, com quebras de 13% e 3,3%, respetivamente. O comportamento do mercado britânico merece particular atenção, uma vez que representa uma inversão expressiva face aos crescimentos registados em março e abril, de 19,9% e 20,2%.
A evolução da China acrescenta outro foco de preocupação para a indústria europeia. Em julho, as exportações chinesas abrandaram, mas o sinal mais relevante surge no mercado interno, com as vendas a retalho e a produção industrial a ficarem abaixo do esperado, apesar das medidas de estímulo do Governo. Uma procura interna chinesa mais fraca aumenta o risco de a produção excedentária ser canalizada para os mercados externos a preços mais competitivos, agravando a pressão sobre as empresas europeias.
A leitura global da Nota de Conjuntura é, assim, de uma economia que continua a crescer, mas num contexto empresarial progressivamente mais exigente. A força das exportações constitui o principal suporte da atividade, mas a evolução desigual dos mercados, a perda de dinamismo de alguns segmentos do consumo, a cautela no investimento e o agravamento dos custos energéticos, logísticos e financeiros estão a retirar margem de manobra às empresas e a dissipar parte do otimismo que marcou as perspetivas para o segundo semestre.