23 abril 26
Feiras

Bebiana Rocha

NASA destaca oportunidades de colaboração na Techtextil

A NASA realizou ontem uma apresentação no Techtextil Forum sobre as oportunidades de colaboração em aberto com a indústria têxtil. A sessão, intitulada “Igniting Innovation: Performance Textiles for Space Exploration”, contou com duas oradoras: Jane Gensler, responsável pelo domínio de saúde e desempenho da tripulação no Mars Campaign Office da sede da NASA, e Wendy Gao, líder de materiais têxteis na divisão de sistemas térmicos e da tripulação do Johnson Space Center.

O momento foi estruturado em duas partes: uma primeira dedicada às missões em curso e planeadas e uma segunda centrada nas necessidades de fornecimento da NASA.

Jane Gensler começou por apresentar algumas estatísticas sobre o trabalho da agência e destacou o início de uma nova era de exploração espacial. Centrando, depois, a sua intervenção na recente missão Artemis II, na qual Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen orbitaram a Lua numa missão com duração de 10 dias.

“A Lua é muito rica do ponto de vista de descobertas científicas. Queremos compreender o potencial das superfícies lunares e perceber se será possível viver no espaço de forma prolongada no futuro, e em que condições”, explicou ao público.

Para Gensler, estas explorações são fundamentais não só pelas descobertas científicas associadas, mas também pelos benefícios económicos que geram e pela inspiração que proporcionam às novas gerações.

A campanha Artemis está organizada em cinco missões, que culminarão na instalação de uma base lunar. A Moonbase Vision divide-se, por sua vez, em três fases: construir, testar e aprender; estabelecer infraestruturas iniciais; e permitir uma presença humana de longa duração.

Jane Gensler sublinhou a necessidade de materiais com elevada resistência ao fogo, mas destacou também oportunidades para o setor do vestuário desportivo, uma vez que as equipas precisam de se manter fisicamente ativas. Nesse contexto, são necessários fatos leves, confortáveis, com propriedades antimicrobianas e capazes de absorver o suor.

Apresentou ainda um esquema do fato espacial, evidenciando a sua estrutura multicamada e as exigências específicas dos materiais têxteis envolvidos. Para além disso, existem outras aplicações relevantes, como estruturas insufláveis e paraquedas.

De seguida, Wendy Gao reforçou a questão do risco de inflamabilidade nas missões, sublinhando a necessidade de soluções altamente resistentes ao fogo. “As aramidas e para-aramidas não apresentam o mesmo desempenho nestes ambientes que na Terra. Temos identificado uma lacuna nos materiais, que queremos colmatar com novos fornecedores a todos os níveis – não só de tecidos, mas também de fechos, elásticos e outros acessórios. Queremos ligar-nos à indústria, identificar parceiros e desenvolver em conjunto os têxteis de que necessitamos”, afirmou.

Entre outras notas, Wendy Gao referiu ainda que a superfície lunar é abrasiva, com partículas de poeira extremamente finas que se infiltram nas fibras e são difíceis de remover, comprometendo a durabilidade dos fatos. Defendeu, por isso, a necessidade de soluções construtivas que tenham em conta este fator, incluindo a eventual criação de revestimentos especiais que impeçam a penetração dessas partículas.

Acrescentou também que a Lua apresenta variações térmicas significativas entre diferentes zonas, o que exige soluções capazes de acomodar essas mudanças, que provocam stress mecânico nos materiais e podem conduzir a fissuras. “Precisamos de materiais flexíveis que mantenham a integridade estrutural”, sublinhou.

No final da sessão, ambas partilharam vários links úteis para potenciais interessados em colaborar com a NASA. No período de perguntas e respostas, Jane Gensler reforçou o interesse da agência em trabalhar com fornecedores europeus, reconhecendo a sua experiência e confirmando que já existem parcerias em curso com empresas do continente. “Não vamos à Lua sozinhos, os nossos parceiros vão connosco”, afirmou.

António Braz Costa, diretor-geral do CITEVE, participou na sessão e questionou se os compósitos poderiam ser uma solução. Jane Gensler respondeu afirmativamente, embora tenha sublinhado que o foco atual continua a estar nos têxteis flexíveis. Referiu ainda que existe trabalho relevante a desenvolver ao nível dos acabamentos e da redução de peso, fatores que influenciam diretamente a resistência ao fogo.

Foram igualmente identificadas oportunidades na área dos wearables capazes de medir parâmetros fisiológicos. Numa perspetiva mais ligada à moda, a NASA procura também soluções para as equipas, bem como têxteis que possam apoiar a reabilitação muscular dos astronautas, uma vez que as diferenças de gravidade podem provocar atrofia muscular. Neste sentido, interessa desenvolver materiais que ofereçam apoio à recuperação e estimulação muscular durante e após as missões.

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