25 maio 26
Eventos

Bebiana Rocha

Na mesa-redonda do Impulse, Endutex destacou importância do feedback do exército

A vontade de criar soluções diferenciadoras, totalmente desenvolvidas e produzidas em território nacional, foi o denominador comum da mesa-redonda “Potenciar Oportunidades”, integrada no Impulse 2026, evento dinamizado na passada quinta-feira pela Fibrenamics, no Fórum Braga.

Na conversa participaram Filipe Guimarães, da Endutex, Fernando Pedrosa, da Vangest, e Filipe Duarte, da Optimal Defence, que partilharam diferentes experiências ligadas à indústria. Juntaram-se ainda Márcio Castro, em representação do Banco Português de Fomento, e Wilson Antunes, do Exército Português.

Fernando Pedrosa, Operations Manager da Vangest, falou sobre o percurso da empresa, ligada aos setores da aeronáutica e defesa há já 15 anos. “Para nós faz todo o sentido estas dinâmicas. Precisamos de parcerias; neste momento, as que temos são espanholas. Ainda não conseguimos fornecer um produto chave-na-mão 100% nacional, há que investir. As empresas devem trabalhar mais em parceria do que verem-se como concorrentes”, afirmou.

Referiu ainda alguns projetos ligados à produção de aviões, atividade que conciliam com projetos na área médica.

Filipe Guimarães, Sales Manager da Endutex, apresentou a empresa, especializada em revestimentos têxteis com aplicações que vão desde a indústria automóvel ao vestuário de proteção e à arquitetura têxtil. Foi precisamente nesta última área que incidiu a sua intervenção.

Uma vez que a empresa não produz o produto final, muitas vezes o feedback não chega de forma direta. Aproveitando a presença do Exército Português, Filipe Guimarães revelou que a Endutex já produz lonas para tendas e sublinhou a importância do contacto com o utilizador final. “Trabalhamos os coatings adaptados às necessidades dos clientes”, explicou, destacando a relevância de especificações como propriedades antifogo ou infravermelho.

“Para nós seria muito importante ter esse contacto, porque mais do que produzir queremos desenvolver uma solução diferenciadora. Temos capacidade para trabalhar no desenvolvimento de novos materiais”, salientou.

Filipe Duarte, Naval Architect & Marine Engineer na Optimal Defence, contextualizou o crescimento da empresa, explicando que, no ano passado, tiveram 34 projetos ligados à área da defesa e que este ano já ultrapassam os 40. A empresa encontra-se atualmente numa fase de expansão.

Para quem não conhece, a Optimal Defence trabalha com materiais energéticos. Filipe Duarte especificou a nitrocelulose, essencialmente pólvora. “Uma das nossas últimas aquisições foi uma pessoa com 80 anos”, afirmou, ilustrando a aposta da empresa em captar profissionais com conhecimento altamente específico para responder aos desafios atuais.

Partilhou também exemplos de pedidos muito especializados e destacou a complexidade inerente ao trabalho na área da defesa. Explicou, por exemplo, que as embarcações têm requisitos muito específicos consoante a zona onde vão operar: as resinas utilizadas no Golfo não podem ser as mesmas usadas no Ártico. Acresce ainda a necessidade de reduzir a assinatura de radar, algo que também depende dos materiais escolhidos e do equilíbrio técnico exigido.

“O mercado tradicional da defesa está bloqueado, temos de avançar por outros meios”, incentivou. “O mundo da defesa é complexo, mas há oportunidades”, concluiu.

Márcio Castro, diretor coordenador de análise de crédito e investimento no Banco Português de Fomento, abordou os projetos atualmente em curso ligados à área da defesa e os instrumentos de financiamento disponíveis para apoiar as empresas.

Além dos mecanismos já existentes, destacou o IFIC Mais, uma solução criada para financiar projetos estratégicos, alargando o apoio às oportunidades enquadradas no PT 2030 e no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Sublinhou ainda a necessidade de acelerar processos e garantir que as empresas conseguem responder em tempo útil às oportunidades de investimento.

Hermano Rodrigues, Principal da EY e moderador da sessão, orientou depois a conversa para o IFIC (Investimento Financeiro para a Inovação e Competitividade).

Até à data, foram lançados cinco avisos com foco na economia da defesa. Existe já uma procura correspondente a 260 milhões de euros de investimento candidatado, embora Márcio Castro tenha ressalvado que o processo continua em curso.

Entre as curiosidades partilhadas, destacou que o investimento está a ser feito maioritariamente nas regiões de Aveiro, Coimbra e Leiria, contrariando as expectativas iniciais de que a maior concentração surgisse no Porto e em Lisboa.

Por fim, Wilson Antunes, tenente-coronel, coordenador de investigação e desenvolvimento e coordenador nacional CapTech NRBQ8FHH do Exército Português, respondeu de forma aberta ao desafio lançado pela Endutex e mostrou-se satisfeito por ter identificado um fabricante de lonas para as tendas de emergência que procuravam.

“Já encontrámos um parceiro”, afirmou.

“O Exército preocupa-se e percebe que, num contexto global e complexo, temos de dar resposta aos problemas. A nossa linha estratégica é investir e desenvolver tecnologias para que a capacidade do Exército se mantenha. Há coisas que queremos testar. Temos noção das necessidades internacionais.”

Wilson Antunes fez ainda questão de deixar as portas abertas à construção de pontes entre diferentes entidades. “Estou nisto há 20 anos e sei que as coisas nascem assim”, afirmou, referindo-se à importância de conversas e eventos onde se cruzam necessidades com soluções.

Deu como exemplo a relação com a Optimal Defence, que começou com uma call para o desenvolvimento de soluções de deteção biológica.

“É preciso trazer todos os parceiros, desde os utilizadores finais às empresas, universidades e entidades científicas”, disse, mostrando-se alinhado com os restantes intervenientes do painel.

“Estamos impressionados com as capacidades. Estamos a trabalhar para crescer em ecossistema. Estou entusiasmado”, concluiu, sublinhando uma vez mais que o encontro entre necessidades e soluções surge no momento certo, mas exige persistência.

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