17 setembro 25
Comércio Internacional

Bebiana Rocha

Moda europeia une-se contra a ultra fast fashion

Na tarde de ontem, na Première Vision, no espaço de talks, decorreu a sessão European fashion stands up to ultra-fast fashion, onde líderes da indústria têxtil e vestuário europeia apresentaram uma frente comum contra as plataformas de ultra fast fashion.

Mário Jorge Machado, presidente da EURATEX, Pierre-François Le Louët, co-presidente da UFIMH, e Olivier Ducatillion, presidente da UIT, deram a conhecer a European Coalition Against Ultrafast Fashion, assinada nessa manhã por 22 organizações e dirigida à Comissão Europeia.

O alerta foi claro: a ultra fast fashion já representa 5% do mercado europeu, equivalente a 4,5 mil milhões de euros em vendas. Em França, a quota de mercado atingiu 7%, partindo de zero há apenas cinco anos. Só na Alemanha, em 2024, entraram diariamente cerca de 400 mil pequenas encomendas destas plataformas. Paralelamente, o governo francês aplicou multas no valor de 180 milhões de euros por incumprimento da lei dos cookies e da proteção de dados.

A intervenção de Mário Jorge Machado

Enquanto presidente da EURATEX e voz da indústria têxtil e vestuário europeia junto das instituições comunitárias, Mário Jorge Machado sublinhou que a questão não é a concorrência, mas sim a concorrência desleal. “Não estamos contra competir; estamos contra modelos que evitam regras sociais, ambientais, fiscais e de segurança de produtos da União Europeia, destruindo o nosso modo de ser e transferindo os custos para a sociedade e para o planeta”, defendeu.

Entre os pedidos centrais ao legislador europeu, destacou a eliminação da regra de minimis, que isenta de direitos aduaneiros as encomendas até 150 euros, oferecendo uma vantagem de cerca de 12% às plataformas de ultra fast fashion.

Pediu ainda que se ataque a fraude do IVA, avaliada em “milhares de milhões” pelo Tribunal de Contas Europeu, e a introdução de uma taxa mínima de 20 euros por encomenda. Essa taxa permitiria financiar a fiscalização nas fronteiras, os controlos de segurança de produtos — mais de 90% das mercadorias inspecionadas falham o regulamento REACH —, bem como os custos de embalagem e reciclagem no fim de vida.

Para o presidente da EURATEX, não há tempo a perder. A reforma fiscal e aduaneira prevista para 2028 chega demasiado tarde; é preciso agir até 2026. Caso contrário, avisou, os países avançarão com medidas próprias, como já fez a França, cujo exemplo legislativo unânime serve de inspiração. Reconheceu, contudo, que a fragmentação não é desejável, mas será preferível à inação.

Mário Jorge Machado apelou ainda a uma harmonização europeia em matérias como a Responsabilidade Alargada do Produtor, evitando que cada Estado-membro crie taxas diferentes que funcionem como barreiras internas e prejudiquem a competitividade. Sublinhou que a EURATEX mantém contactos regulares com a Comissão e o Parlamento Europeu, mas que o tema tem de escalar para o topo da agenda política comunitária.

As vozes francesas: Pierre-François Le Louët e Olivier Ducatillion

Pierre-François Le Louët, co-presidente da UFIMH, recordou que em apenas cinco anos as plataformas de ultra fast fashion passaram de 0% para 5% de quota de mercado na Europa, atingindo 7% em França. Sublinhou que esta concorrência é “injusta”, porque assenta no incumprimento de leis, e recordou que o governo francês já aplicou multas de 180 milhões de euros às plataformas por práticas comerciais, de cookies e de dados.

“Está em causa a liderança industrial da Europa e a defesa da nossa base produtiva. A dependência de modelos injustos tem de ser combatida, não importa de que país vêm. O problema está no modelo de negócio, não na origem geográfica”, concluiu. Sobre as promessas de produção local ou na Turquia, foi perentório: “abrir fábricas não resolve um modelo que incentiva ao consumo excessivo e ao desperdício, em contradição com a visão europeia”.

Olivier Ducatillion, presidente da UIT, focou-se no impacto direto ao longo da cadeia de valor. Da produção de fibras à tecelagem, passando pela tinturaria e acabamento, a deslocação da procura para as plataformas está a provocar ruturas, sendo as empresas de acabamento as mais expostas devido à necessidade de volumes mínimos. Alertou que já existem casos de encerramento de unidades.

Ducatillion relatou ainda um encontro com o presidente da Shein e apontou a estratégia de lobbying da plataforma, que inclui contratações de peso, aquisições locais e até parcerias com grandes marcas para ganhar legitimidade. Considerou esta prática um risco que exige respostas rápidas e firmes.

Defendeu medidas nacionais de emergência caso o processo europeu se atrase, lembrando o precedente dos Estados Unidos: a aplicação de uma taxa de 100 dólares por encomenda reduziu as vendas da Shein em 61% no mercado norte-americano, desviando, no entanto, 28% do volume para a Europa.

Para o líder da UIT, é preciso coragem política. Instou os ministros dos principais países europeus a adotarem já taxas de 20 a 25 euros por encomenda e a acabar com a regra de minimis, mesmo antes de uma solução europeia, coordenando esforços entre países vizinhos para evitar desvio de fluxos.

Uma frente comum em defesa da indústria

Os três dirigentes insistiram numa mensagem de união: a indústria europeia está alinhada em cerca de 20 países e não aceita ver desmantelada a sua base industrial por modelos de negócio que operam à margem das regras comunitárias.

A EURATEX encontra-se já em articulação com a Comissão e o Parlamento Europeu, enquanto as federações nacionais desenvolvem ações junto dos eurodeputados locais. O objetivo comum é transmitir uma mensagem unificada e pressionar por uma resposta urgente a um fenómeno que ameaça a sobrevivência de grande parte da indústria têxtil e vestuário europeia.

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