Bebiana Rocha
Re.set é a coleção primavera-verão 2026 da Mirakaya, marca portuguesa de slow fashion que produz a partir do seu atelier em Castelo Branco. O T Jornal falou com Raquel Pinto, fundadora e diretora criativa da marca, sobre a inspiração desta nova proposta, a visão que sustenta o projeto, os desafios de crescer sem abdicar dos seus princípios e as ambições para o futuro.
“Na Mirakaya não desenho para uma estação, desenho para um guarda-roupa mais sustentável. Ao longo do trajeto da marca fui-me apercebendo de que as peças podem ser usadas durante todo o ano e, por essa razão, crio drops dentro da coleção”, enquadra a designer.
Esta filosofia reflete-se em Re.set, uma coleção que pretende representar um regresso ao essencial. O design minimalista e a influência da estética japonesa continuam a marcar a identidade da marca, privilegiando a simplicidade e o equilíbrio entre forma e função.
“Nesta coleção a influência japonesa traduz-se em silhuetas fluidas e confortáveis, cortes assimétricos, volumes equilibrados e peças concebidas para acompanhar diferentes momentos da vida”, explica Raquel Pinto. A inspiração é igualmente visível na paleta cromática, dominada por tons naturais, complementados por apontamentos de cor intensa.
Entre as peças-chave da coleção destaca o Long Shirt Dress, “um best seller redesenhado todos os anos”, e o casaco ORI, que descreve como “uma peça trendy e, ao mesmo tempo, intemporal”.
A sustentabilidade é, contudo, o fio condutor de toda a coleção e da própria marca. “Tudo começa no desenho. Para mim, a peça mais sustentável é aquela que continua a ser usada muitos anos depois de ser comprada”, afirma.
Essa durabilidade constrói-se através de um conjunto de detalhes que muitas vezes passam despercebidos ao cliente: o posicionamento de uma costura, o equilíbrio de uma manga, a profundidade de um bolso, o ajuste das cavas, a aplicação de vivos ou as costuras escondidas. Elementos que, em conjunto, determinam a forma como a peça veste, acompanha o movimento do corpo e resiste ao uso.

O casaco ORI e o blazer LA FRANGE são duas das peças exclusivas e numeradas da coleção Re.set, enquanto o Long Shirt Dress continua a afirmar-se como o bestseller da marca. A preocupação com o aproveitamento dos recursos surge numa fase posterior: os excedentes de tecidos destas e das restantes peças da coleção são reaproveitados para criar novas propostas em edições cápsula. “A criatividade tem de coexistir com uma gestão cuidada dos recursos”, sublinha Raquel Pinto, acrescentando que privilegia uma modelação rigorosa, proporções equilibradas dentro do universo oversize, funcionalidade e materiais de qualidade.
Num mercado marcado pela rapidez, pelos descontos permanentes e pela constante renovação da oferta, a fundadora da Mirakaya reconhece que preservar esta abordagem nem sempre é fácil.
“Vivemos num mercado influenciado pela rapidez, pelo desconto permanente e pela constante renovação dos produtos. Enquanto pequena marca portuguesa e do interior do país existe frequentemente a pressão para acompanhar esse ritmo, a par de toda a burocracia. O maior desafio tem sido manter a coerência”, partilha.
Ainda assim, acredita que tem conseguido crescer sem comprometer os valores da marca, por considerar que a consistência é um dos seus principais ativos. “Quando não competimos pelo volume, temos de competir pela confiança”, resume.
É também essa confiança que procura construir através da proximidade com os clientes, dando-lhes a conhecer a realidade do atelier. “Procuro construir uma comunidade que se identifica com os valores da marca”, refere.
Essa proximidade ajuda igualmente a compreender o trabalho por detrás de cada criação. No atelier da Mirakaya, o desenvolvimento de uma peça pode demorar entre quatro e seis meses, num processo que inclui investigação, desenho, desenvolvimento da modelagem, seleção de materiais, produção de protótipos, sucessivos ajustes e testes de utilização antes de chegar à produção final.
Com consumidores cada vez mais atentos ao impacto das suas escolhas, Raquel Pinto acredita que existe margem para crescer, ao mesmo tempo que aumenta a valorização da produção nacional.
“Verificamos uma evolução para um cliente cada vez mais consciente do impacto das suas escolhas. No entanto, existe ainda um caminho importante a percorrer na valorização do design independente e da produção em pequena escala”, considera.
Na sua perspetiva, “o made in Portugal representa conhecimento técnico, proximidade, flexibilidade e uma tradição têxtil. Para os nossos clientes essa origem transmite confiança”.
É precisamente nessa confiança que pretende assentar o crescimento da Mirakaya. Mais do que aumentar a produção, o objetivo passa por tomar melhores decisões e consolidar uma identidade própria.
“Uma identidade forte é um dos maiores fatores de diferenciação num mercado cada vez mais competitivo”, insiste.
Embora o mercado nacional continue a representar a maior fatia do volume de negócios da marca, os planos passam por reforçar a presença noutros mercados europeus e nos Estados Unidos. Para isso, Raquel Pinto encontra-se à procura de lojas, agentes e plataformas que partilhem o posicionamento da Mirakaya.
“As pequenas marcas têm uma enorme capacidade de inovação. Conseguem experimentar novas abordagens, desenvolver produtos diferenciados e trabalhar de forma muito próxima dos seus clientes. Ao valorizarem a produção nacional contribuem para reforçar a competitividade da indústria portuguesa e demonstrar a possibilidade de criar valor sem recorrer à produção massificada”, conclui.