14 julho 26
Tendências

Bebiana Rocha
Imagem: Modaes

Menos volume, mais valor: o novo mapa da moda mundial

Da aposta em produtos de maior valor acrescentado à pressão sobre a rastreabilidade, logística e integração digital, um recente relatório da Modaes revela as prioridades estratégicas que deverão moldar a relação entre as grandes marcas e a indústria fornecedora.

Apesar de um contexto marcado pela instabilidade geopolítica, pressão regulatória e novas barreiras comerciais, as 90 maiores marcas de moda do mundo voltaram a crescer em 2025. Em conjunto, ultrapassaram os 760 mil milhões de euros de faturação, mais 1,5% do que no ano anterior, segundo o El mapa de la moda 2026.

Mais do que um retrato financeiro do sector, o documento permite identificar tendências que deverão influenciar a forma como as grandes marcas escolhem os seus parceiros industriais. Para os fornecedores portugueses, sobretudo aqueles posicionados nos segmentos premium e de luxo, o relatório deixa sinais claros sobre as novas prioridades do mercado.

A liderança continua a pertencer ao grupo espanhol Inditex, que atingiu um novo máximo histórico, com vendas próximas dos 40 mil milhões de euros. No panorama internacional, o documento destaca igualmente a pressão regulatória crescente sobre plataformas como Temu e Shein, a forte desvalorização bolsista da Lululemon e a expansão acelerada da Uniqlo, que continua a reforçar a sua presença tanto na Europa como nos Estados Unidos.

Rentabilidade substitui crescimento a qualquer custo

Uma das principais conclusões do relatório é que o sector está cada vez mais orientado para o crescimento através da rentabilidade. A prioridade deixou de ser apenas vender mais, passando também por proteger margens e melhorar a eficiência operacional.

Essa estratégia está já a traduzir-se numa gestão de inventário significativamente mais rigorosa. Como exemplo, a publicação refere o plano ReconKering, desenvolvido para reduzir inventário e simplificar referências.

Esta mudança poderá alterar profundamente a relação entre marcas e fornecedores. Em vez de grandes encomendas, espera-se uma procura crescente por lotes mais pequenos, ciclos de reposição mais frequentes e cadeias de abastecimento capazes de responder rapidamente às necessidades do mercado.

Mais valor acrescentado significa novas oportunidades

Outra tendência identificada passa pela reconfiguração dos portefólios de produto. Empresas como a Levi’s estão a orientar a oferta para artigos de maior valor acrescentado, enquanto grupos como a PVH ajustam as cadeias de abastecimento e aumentam preços para compensar os custos alfandegários.

Para a indústria portuguesa, esta evolução poderá traduzir-se numa procura crescente por materiais de maior qualidade, acabamentos técnicos e soluções de inovação têxtil, áreas onde o país tem vindo a reforçar o seu posicionamento internacional.

Também no retalho se observam mudanças estratégicas. A H&M procura elevar o seu posicionamento para reduzir a competição direta baseada exclusivamente no preço com operadores como a Shein ou a Primark.

ESG, rastreabilidade e integração digital entram nas compras

O relatório identifica igualmente uma aceleração das exigências em matéria de compliance e ESG. A pressão regulatória que hoje recai sobre as marcas deverá ser progressivamente transferida para toda a cadeia de abastecimento.

A rastreabilidade integral da cadeia de valor assume, por isso, um papel cada vez mais relevante, podendo favorecer fornecedores capazes de demonstrar transparência e processos robustos.

Em paralelo, cresce a importância da digitalização. Os grandes grupos estão a investir fortemente em eficiência operacional e tenderão a privilegiar fornecedores que consigam integrar os seus sistemas digitais com as plataformas de gestão das marcas, reduzindo erros de stock e aumentando a visibilidade da produção.

A cibersegurança surge igualmente como um novo fator competitivo. À medida que a interrupção digital da cadeia de abastecimento passa a representar um risco financeiro crítico, as marcas deverão exigir certificações mais rigorosas nesta área.

Cadeias de abastecimento continuam a mudar

As transformações não se limitam à produção. O documento refere que a logística está também a passar por uma reorganização significativa.

Um dos exemplos apontados é a aquisição, pela Marks & Spencer, de um novo centro logístico de 40 mil metros quadrados no Reino Unido, ilustrando a aposta em redes de distribuição mais eficientes e próximas dos mercados.

Para Portugal, esta reorganização poderá representar uma oportunidade adicional, beneficiando da proximidade geográfica aos principais centros europeus de decisão e distribuição.

Luxo, desporto e comércio eletrónico continuam em transformação

Entre os restantes movimentos destacados pelo relatório encontram-se a consolidação do segmento desportivo, ilustrada pela entrada da chinesa Anta Sports na estrutura acionista da Puma, e o reforço da Prada como um dos novos gigantes do luxo europeu, na sequência da aquisição da Versace.

No comércio eletrónico, a Amazon mantém a liderança mundial do retalho online, enquanto a Walmart continua a registar um crescimento de dois dígitos no canal digital, evidenciando um equilíbrio crescente entre os grandes operadores.

No seu conjunto, o El mapa de la moda 2026 retrata um sector resiliente, mas cada vez mais seletivo na escolha dos parceiros.

Para os fornecedores, a mensagem é clara: qualidade, rapidez de resposta, inovação, rastreabilidade e integração tecnológica estão a tornar-se fatores tão ou mais importantes do que o preço.

O relatório deixa ainda muitas outras pistas sobre a evolução das principais marcas mundiais e as estratégias que deverão marcar os próximos anos, constituindo uma leitura relevante para quem pretende antecipar as exigências do mercado.

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