23 março 26
Sustentabilidade

Bebiana Rocha

Matter aposta no combate aos microplásticos com solução à medida do têxtil

A Matter está há oito anos a desenvolver uma solução à medida do setor têxtil e vestuário para enfrentar um problema crescente: a poluição por microplásticos. Ao T Jornal, Paul Brennan, Business Development Manager, explica em que consiste a tecnologia Regen, apresenta as principais conquistas da empresa inglesa e destaca o potencial de Portugal como parceiro estratégico.

“Algo tão quotidiano como fazer uma máquina de roupa pode libertar mais de 700 mil fibras, que percorrem os sistemas de esgotos até às estações de tratamento. No entanto, devido à sua dimensão reduzida, a maioria das infraestruturas não consegue removê-las, acabando estas por ser devolvidas ao ambiente, com impactos na vida marinha, na saúde animal e até na saúde humana”, enquadra o responsável. Foi precisamente este o desafio que a Matter decidiu enfrentar.

A tecnologia desenvolvida permite atuar em dois níveis. Do lado do consumidor, através de uma parceria com a B/S/H, foi criado um filtro doméstico comercializado sob as marcas Bosch e Siemens. Já para as empresas, o sistema Regen apresenta-se como uma solução compacta, com consumos energéticos reduzidos, praticamente sem necessidade de manutenção, modular e de fácil instalação em infraestruturas existentes de tratamento de águas residuais. O retorno do investimento situa-se entre dois e três anos.

As unidades de filtragem separam as microfibras do fluxo de águas residuais e encaminham-nas para um depósito de recolha dedicado, permitindo o seu tratamento seguro e uma gestão independente do fluxo convencional. O próximo passo – para o qual a empresa já está a estabelecer parcerias – passa pela reutilização destes materiais.

Paul Brennan revela que a equipa já visitou várias unidades de produção em diferentes regiões, testando a tecnologia em diversos contextos industriais, o que permitiu otimizar o funcionamento do Regen. “Os resultados têm sido encorajadores. Em alguns casos, registamos reduções até 97% nos sólidos suspensos totais, bem como reduções de 61% na carência química de oxigénio (CQO) e de 48% na carência bioquímica de oxigénio (CBO)”, partilha.

A CQO mede a quantidade de oxigénio necessária para degradar quimicamente os poluentes presentes na água, enquanto a CBO avalia o oxigénio necessário para que as bactérias decomponham a matéria orgânica biodegradável. Estes indicadores são críticos para os fabricantes, uma vez que influenciam diretamente os custos associados à descarga de águas residuais industriais, explica.

O sistema pode ainda ser combinado com soluções avançadas de tratamento, permitindo a reutilização da água no processo produtivo – uma mais-valia crescente num contexto de pressão sobre os recursos hídricos.

Para a Matter, Portugal destaca-se como um mercado particularmente estimulante. “A concentração de empresas têxteis no Norte do país, aliada a uma forte cultura de qualidade, inovação e sustentabilidade, está alinhada com os nossos valores. Durante as visitas, ficámos genuinamente impressionados com o número de empresas que já encaram a sustentabilidade como prioridade e procuram ativamente melhorar o seu desempenho”, sublinha.

Entre as conquistas recentes, a Matter foi nomeada finalista do Earthshot Prize, tendo ficado entre os três finalistas na categoria Revive our Oceans, uma iniciativa do Reino Unido liderada pelo Príncipe William, que chegou mesmo a instalar vários filtros da empresa na sua residência privada.

Outro marco relevante é a entrada de um novo investidor, a Inter IKEA. “Estamos a trabalhar em estreita colaboração para compreender melhor o impacto da recolha de microfibras ao longo da cadeia de abastecimento. Em conjunto, iremos implementar a tecnologia em ambiente real e apoiar testes piloto em diferentes regiões ainda ao longo deste ano”, conclui olhando para o futuro.

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