Bebiana Rocha
A indústria e a autonomia estratégica estão intimamente ligadas à democracia. Esta foi a principal mensagem deixada por Mário Jorge Machado, vice-presidente da ATP e presidente da EURATEX, ontem, no evento final do Be@t, realizado no Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões.
Na sua intervenção, deixou claro que cabe às empresas, às equipas de investigação e a todos os atores do sector assumirem a responsabilidade de preservar essa democracia. Numa reflexão sobre os desafios e oportunidades da indústria têxtil e vestuário, Mário Jorge Machado apontou o dedo às políticas públicas como principal razão para o fraco crescimento económico europeu nas últimas décadas, considerando que estas têm pesado excessivamente sobre empresários e trabalhadores.
Como exemplo, referiu a divisão da Alemanha, contrastando um modelo assente em políticas estatizantes com outro baseado na liberdade de ação dos privados, para demonstrar que “as políticas fazem toda a diferença”. “Temos vindo, todos os anos, a perder cerca de 4% da capacidade industrial na Europa. A boa notícia é que, há dois meses, houve uma reunião em Antuérpia para discutir políticas ligadas à indústria europeia e torná-la mais competitiva. Os responsáveis da União Europeia estão preocupados”, afirmou.
Neste contexto, destacou o papel fundamental das associações na transmissão das preocupações da indústria aos decisores políticos e na apresentação de soluções concretas. “As soluções não saem da boca dos políticos. Eles próprios perguntam-nos o que fazer”, sublinhou. É precisamente aí que reside, na sua perspetiva, a importância das associações: representar todo o sector. “É esse o trabalho da ATP, a nível europeu da EURATEX, e agora, enquanto presidente da Confederação Europeia, percebo ainda melhor a complexidade de gerir e acompanhar as políticas nacionais e as políticas de Bruxelas”, acrescentou.
Dirigindo-se aos empresários presentes, deixou um apelo à participação cívica: “Vocês têm duas opções: ou cada um fica a tratar da sua vida, ou assumimos um papel cívico para que a mudança aconteça. É uma decisão de cada empresário”.
Entre as várias ameaças identificadas, destacou o problema das pequenas encomendas provenientes de fora da Europa, cujo volume já ascende a 20 milhões de pacotes. “Em junho vai passar a existir uma taxa de três euros. É pouco”, criticou, acrescentando que está também em discussão o valor associado à manipulação desses pacotes, defendendo que as associações estão a pedir uma taxa de 10 euros. Para Mário Jorge Machado, esse valor deve ser canalizado para áreas críticas.
“Queremos ser mais sustentáveis, descarbonizar, investir em inovação, e o que chega à Europa são pacotes que não cumprem os mesmos requisitos. Estamos a ser muito lentos a atuar. Nivelar o terreno de jogo é o mais importante. Nenhum de nós tem medo da concorrência, senão não estaríamos aqui”, afirmou.
O presidente da EURATEX abordou ainda o desenvolvimento do Passaporte Digital do Produto (DPP), defendendo que este não deve limitar-se a uma ferramenta informativa, mas assumir também um papel regulador capaz de criar condições de concorrência mais justas. “Chega de as regras serem aplicadas apenas a quem produz na Europa”, reforçou.
Por fim, convidou o sector a olhar para a circularidade como uma oportunidade, sem cair no erro de impor exigências apenas à produção europeia, deixando sem controlo os produtos importados. “Aquilo que não for feito de forma sustentável tem de ser impedido de entrar na Europa”, concluiu, salientando ainda a crescente ligação entre inovação e inteligência artificial.