Bebiana Rocha
A Lipor, organização líder no setor dos resíduos em Portugal, apresentou ontem a sua nova Unidade Piloto de Triagem de Têxteis, desenvolvida no âmbito do projeto Be@t. Com capacidade para processar 50 toneladas de têxteis por ano, a unidade está concebida à escala industrial e encontra-se organizada em cinco etapas: alimentação, pré-triagem, triagem, remoção de acessórios e enfardamento, dispondo ainda de áreas de receção e expedição.
O circuito de triagem combina o trabalho humano com a tecnologia. Assim, uma equipa de cinco colaboradores assegura a pré-triagem, removendo contaminantes como têxteis molhados, calçado, carteiras ou outros objetos estranhos ao processo, além de proceder à retirada de acessórios. Em complemento, os sistemas óticos permitem identificar com precisão a composição e cor de cada peça, garantindo uma separação mais rigorosa.
Neste momento, estão definidas 14 categorias de classificação, estabelecidas a partir da caracterização física de resíduos recolhidos. As peças que não se enquadram em nenhuma destas categorias são consideradas negativas e encaminhadas para um depósito específico. Uma vez reunidos quatro recipientes da mesma categoria passa-se para o enfardamento. Para formar um fardo de material, são necessários em média 200 quilogramas de resíduos. Durante a visita, os participantes puderam acompanhar todas estas etapas, desde a pré-triagem manual à separação por categorias, passando pelo transporte para os óticos.
O material utilizado nesta fase experimental resultou de uma recolha interna, através da contribuição dos colaboradores da Lipor, complementada com peças obtidas junto de parceiros institucionais. Contudo, o escoamento do material separado ainda não está assegurado, representando um dos próximos desafios do projeto.
Para além da inauguração, o dia foi também marcado por várias sessões dedicadas à circularidade nos têxteis, que reuniram especialistas e parceiros do setor. Na sua intervenção, o presidente da Lipor, José Manuel Ribeiro, destacou o ADN inovador da organização e a exigência de liderar pelo exemplo: “O nosso país não pode trabalhar para a média, precisa de organizações que vão mais longe. O país tem de andar sempre à frente, é isso que gera riqueza. Depois temos de usar essa riqueza para sermos prósperos.”
O responsável alertou ainda para a ausência de uma estratégia nacional para a recolha e tratamento de resíduos têxteis. “Existe um sistema de recolha de têxteis usados que não faz jus ao potencial desta matéria-prima. Há também uma confusão por parte dos cidadãos entre os conceitos de têxtil e resíduo têxtil. Está-se a perder material com potencial. É imperativo haver um procedimento uniformizado.”
Defendeu igualmente a necessidade de critérios únicos para avaliar a qualidade dos têxteis usados e dos resíduos têxteis, reforçando: “A economia circular é envolvermos a indústria e toda a sociedade numa valorização integral.” Para José Manuel Ribeiro, o alto valor económico dos resíduos têxteis deve ser encarado como uma oportunidade estratégica.
Além disso, sublinhou a importância de financiamento para o arranque de soluções de triagem, da criação de especificações técnicas por parte dos retomadores e da implementação de modelos adequados de armazenamento. Quanto à unidade piloto, recordou que se trata da primeira em Portugal com estas características e que servirá para gerar conhecimento e capacitar o setor têxtil. “O próximo passo é a sua otimização e escala”, afirmou, acrescentando estar confiante de que novos modelos de negócio irão surgir a partir deste projeto.