16 março 26
Marcas

Bebiana Rocha

ISTO defende maior proximidade entre produção e construção de marca

“O próximo salto de valor está em aproximar mais a produção da inteligência de mercado, do branding e da relação com o consumidor final”, acredita Pedro Palha, cofundador da ISTO. É precisamente desta visão – de que o made in Portugal será tanto mais forte quanto mais completo for o ecossistema que o sustenta – que nasce a adesão da marca, no passado mês de fevereiro, à plataforma ATP Connect Brands. Criada com o propósito de ligar a indústria têxtil e vestuário portuguesa ao universo das marcas, a iniciativa procura reforçar o diálogo entre quem produz e quem constrói valor no mercado.

Em entrevista ao T Jornal, Pedro Palha explica que a adesão “nasce de uma convicção muito clara: o futuro do sector faz-se com maior proximidade entre quem produz e quem constrói marcas”. Para o empresário, trata-se de contribuir para uma visão mais integrada da fileira, onde marcas e indústria trabalham de forma mais articulada, partilhando conhecimento sobre clientes, tendências, posicionamento e criação de valor.

“A ATP tem vindo a apresentar o sector português como uma fileira cada vez mais evoluída, reconhecida pelo know-how, criatividade, flexibilidade e intensidade de serviço. Ao mesmo tempo, tem defendido o desenvolvimento de marcas como uma via estratégica de diferenciação e maior rentabilidade. É precisamente nessa visão que nos revemos”, concretiza-

Para o responsável, já não basta produzir com qualidade: é igualmente necessário saber posicionar, comunicar, internacionalizar e captar valor. Uma das formas que a ISTO encontrou para reforçar esse posicionamento foi através do projeto Factourism, que consiste em visitas organizadas de consumidores às fábricas. Trata-se de um exercício de transparência que aproxima as pessoas da origem do produto, mostrando quem faz e como se faz, devolvendo contexto e valor ao ato de comprar roupa.

“Faz todo o sentido explorar a continuidade, e até a ampliação, dessa iniciativa em articulação com a ATP”, afirma Pedro Palha, mostrando-se entusiasmado com a possibilidade de integrar mais fábricas, mais tipologias de produção, mais histórias e maior transparência. “Acreditamos que o Factourism pode ganhar uma dimensão mais ampla e tornar-se um veículo ainda mais forte de valorização do Made in Portugal“, acrescenta.

Recorde-se que a ISTO nasceu enquanto marca a partir de uma proposta muito clara: essenciais de qualidade, produção transparente e comunicação direta com o consumidor. Na altura, os fundadores não pensaram o projeto como um exercício de visão futurista, embora reconheçam que acabou por antecipar algumas tendências.

“Olhando para trás, houve alguma antecipação. Num contexto de excesso de estímulo, excesso de produto e excesso de ruído, escolhemos simplificar. Apostámos em essenciais, em qualidade, em transparência e numa relação mais honesta com o consumidor. Hoje vemos que muitos consumidores valorizam precisamente isso: clareza, consistência e autenticidade”, explica.

A transparência, encarada desde cedo como uma verdadeira disciplina de marca, acabou por traduzir-se na construção de uma relação de confiança com o cliente, algo que, segundo Pedro Palha, tem impacto direto na fidelização. “Quando um cliente percebe de forma clara o que está a comprar, onde foi produzido, porque custa aquele valor e o que está por trás da peça, a relação deixa de ser apenas transacional.”

Nos últimos anos, várias marcas têm procurado reposicionar-se no mercado. Interpreta esta tendência de subida upmarket como o resultado de várias pressões simultâneas: aumento de custos, saturação do mercado médio, maior exigência do consumidor e necessidade de proteger margens. No entanto, alerta para o risco desse movimento acontecer apenas ao nível do preço ou da estética.

No caso da ISTO, o conceito de luxo não está associado à ostentação, mas antes à qualidade real: materiais adequados, tempo de vida útil das peças, produção responsável, atenção ao detalhe e clareza na comunicação, salienta na conversa.

“Para nós, luxo é fazer menos, mas melhor. É criar peças com integridade, com intenção e com permanência. É respeitar o cliente, não tentando impressioná-lo artificialmente, mas entregando-lhe valor genuíno.”

Ao longo da entrevista, partilha também os aspetos que mais impressionam a equipa da ISTO na indústria nacional. Em primeiro lugar, Pedro Palha destaca a combinação entre saber-fazer técnico e flexibilidade. “Portugal tem uma indústria com enorme capacidade de adaptação, rapidez de resposta e abertura à experimentação, o que é raro”, reconhece.

Depois, sublinha a proximidade: a possibilidade de visitar regularmente os parceiros para discutir detalhes e testar soluções representa, na sua perspetiva, uma vantagem competitiva real. Por fim, destaca a evolução da própria fileira. “Há uma base industrial muito sólida, mas também uma vontade crescente de evoluir, inovar e compreender melhor o contexto global em que opera.”

Na lógica de incentivar Portugal a evoluir do made in para o created in, foi também pedido a Pedro Palha um conselho para empreendedores que ambicionem criar marcas nacionais. São deixadas três recomendações: construir uma marca com proposta clara, trabalhar a produção local como parceria estratégica e pensar desde cedo na criação de valor – não apenas nas vendas.

“A própria ATP tem sublinhado que o lançamento de marcas próprias promove diferenciação e maior rentabilidade, embora exija preparação, investimento e consistência. É um caminho exigente, mas, quando é bem feito, cria negócios mais resilientes e mais valiosos”, conclui, mostrando alinhamento com a Associação.

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