Bebiana Rocha
A evolução do mercado da lingerie, swimwear e activewear, a crescente procura por soluções de sourcing diversificadas e as novidades da edição de setembro marcam a estratégia da Interfilière Paris. Para Matthieu Pinet, diretor do Salon International de la Lingerie e Interfilière Paris, a feira continua a distinguir-se pela especialização e pela capacidade de reunir toda a cadeia de valor.
A Interfilière Paris regressa em setembro com uma edição que reflete as profundas transformações do mercado da lingerie, swimwear e activewear. Numa altura em que as fronteiras entre estas categorias são cada vez menos definidas e em que as marcas procuram fornecedores capazes de responder a necessidades mais diversificadas, a organização reforça a aposta numa oferta de sourcing mais abrangente e numa programação orientada para as tendências e a inovação.
Para Matthieu Pinet, diretor do Salon International de la Lingerie e Interfilière Paris, a capacidade de adaptação tem sido determinante para manter a relevância de um certame que continua a afirmar-se como uma das principais plataformas internacionais do setor.
“Somos um dos poucos eventos no mundo que reúne, sob o mesmo teto, produto acabado e sourcing, o que significa que os clientes dos nossos expositores já estão presentes na feira”, sublinha em entrevista ao T Jornal. A este fator junta-se uma identidade muito própria. “Não somos uma grande feira generalista; somos especialistas neste setor.”
A dimensão internacional continua igualmente a ser um dos principais trunfos do evento. A última edição reuniu visitantes provenientes de 65 países, com 86% de participação internacional. “Sendo um evento internacional, toda a indústria converge aqui”, afirma Matthieu Pinet, acrescentando que a dimensão humana da feira também contribui para o seu sucesso. “É um evento à escala humana, com experiências, fóruns, bares e eventos sociais. É uma feira viva, e isso faz toda a diferença.”
Outro dos fatores que reforça a atratividade do evento é a sua localização. “Paris é a capital mundial da moda, mas é também a capital da lingerie”, recorda o responsável. “Algumas das maiores casas do setor são francesas, o que significa que França possui um conhecimento e um saber-fazer extraordinários nesta área.” Ao mesmo tempo, acrescenta, a lingerie assumiu definitivamente o estatuto de produto de moda, tornando Paris um palco privilegiado para a sua apresentação.
Ao contrário da edição de janeiro, tradicionalmente mais centrada na lingerie, a edição de setembro apresenta uma oferta mais ampla de fornecedores e materiais. “Esta é uma distinção real e deliberada entre as duas edições. Cada uma foi concebida para responder a necessidades diferentes dos fornecedores”, explica Matthieu Pinet.
Entre as novidades deste ano destaca-se o regresso da agência de tendências NellyRodi, que apresentará uma conferência dedicada às principais evoluções do mercado. O seu trabalho servirá igualmente de base ao renovado Sourcing Forum, cujo formato foi significativamente reformulado. “Estamos muito satisfeitos por voltar a receber a NellyRodi. O seu trabalho ganhará vida no nosso Sourcing Forum, que evoluiu bastante em termos de formato”, refere.
Paralelamente, a organização continuará a investir em iniciativas complementares como a Interfilière Preview, criada para responder ao calendário específico dos especialistas em rendas e bordados. “Lançámos este evento para responder às necessidades específicas deste segmento, oferecendo um encontro durante o verão”, explica. “Ao mesmo tempo, reflete a nossa vontade de destacar e celebrar o saber-fazer europeu, já que apenas as melhores marcas europeias participam na Interfilière Preview.”
Matthieu Pinet considera que a feira oferece respostas para diferentes segmentos do mercado. “Quer procure tecidos de luxo ou materiais mais acessíveis, inovação técnica ou coleções produzidas com um saber-fazer centenário, pequenas encomendas ou produção em grande escala, há sempre uma solução.”
A evolução da própria feira acompanha a transformação do mercado da moda íntima. Segundo Matthieu Pinet, as marcas deixaram de trabalhar categorias isoladas para desenvolver ofertas cada vez mais transversais. “A oferta dos nossos expositores reflete perfeitamente esta evolução. O activewear está a crescer muito e vemos marcas que antes apresentavam apenas lingerie chegarem agora com uma oferta muito mais ampla.”
Hoje, observa, é comum uma marca de lingerie desenvolver igualmente coleções de swimwear, loungewear e activewear. “O nosso desafio é responder da melhor forma possível a essa necessidade alargada.”
Também a procura por novos materiais está a evoluir rapidamente. Na sua perspetiva, três tendências dominam atualmente o mercado: sustentabilidade, bem-estar e tecidos técnicos. “Nos três segmentos, o conforto tornou-se o principal critério para as marcas quando procuram fornecedores”, afirma. Essa procura traduz-se numa maior utilização de modal, malhas caneladas, misturas de algodão e materiais extremamente suaves ao toque.
O crescimento do relaxwear é outro dos fenómenos que considera estruturais. “O modal está no centro deste guarda-roupa confortável: é leve, respirável e extremamente suave para a pele.” Em paralelo, multiplicam-se as texturas mescladas e as tonalidades neutras, reforçando a naturalidade procurada pelos consumidores.
No swimwear, acrescenta, as fibras eco-responsáveis deixaram de ser um elemento diferenciador para se tornarem uma expectativa do mercado. “As coleções mais fortes combinam estas fibras com estruturas caneladas, jacquards e fios de lurex, criando uma estética mais rica e mais orientada para a moda.”
Para Matthieu Pinet, a evolução das preferências dos consumidores continuará a impulsionar mudanças profundas na indústria. “Os consumidores já não estão dispostos a comprometer. Querem conforto, qualidade técnica e responsabilidade, e esse padrão aplica-se hoje tanto à lingerie como ao swimwear e ao universo do bem-estar.”
Ao mesmo tempo, acredita que a convergência entre lingerie, sportswear, loungewear e moda continuará a acentuar-se nos próximos anos. “Vemos isso claramente entre as marcas de produto acabado presentes na nossa feira. As marcas precisam de alargar o seu território para crescer.”
A sustentabilidade continuará igualmente a marcar a agenda da indústria, embora reconheça que persistem desafios significativos. “Existe ainda um desfasamento entre esta tendência e consumidores que continuam relutantes em pagar um preço superior por produtos mais sustentáveis”, admite.
Ainda assim, considera que o caminho está traçado. “As soluções estão a ser desenvolvidas, os fabricantes estão a investir e a direção é clara.” A principal questão passa agora por encontrar o equilíbrio entre competitividade e responsabilidade ambiental. “Como produzir melhor mantendo os custos sob controlo? Esse é o desafio central”, conclui.