Bebiana Rocha
A indústria têxtil e do vestuário portuguesa atravessou o primeiro semestre sob forte pressão e contração da atividade, com metade das empresas a reportar uma redução do volume de negócios e igual proporção a assinalar uma descida da rentabilidade operacional. Os dados resultam do inquérito de atividade realizado pela ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal junto das empresas associadas, que procurou avaliar a evolução da atividade económica face ao período homólogo de 2025 e identificar os principais desafios e perspetivas para a segunda metade do ano.
No volume de negócios/atividade económica registou-se uma tendência clara de contração. Metade das empresas inquiridas reportou uma redução do volume de negócios, com algumas a sofrerem quebras superiores a 10%. Cerca de 16,2% mantiveram o volume inalterado, enquanto 33,8% registaram algum crescimento.
A pressão sobre a atividade refletiu-se também na utilização da capacidade produtiva. 41% das empresas admitiram ter registado quebras na ocupação, enquanto 13% conseguiram aumentar a utilização da sua capacidade produtiva.
Também o indicador da rentabilidade se mostrou castigado. Metade dos inquiridos reportou uma descida da rentabilidade operacional, enquanto 41% conseguiram manter as margens estáveis. Apenas 10% das empresas registaram melhorias neste indicador.
O emprego foi, entre os indicadores analisados, aquele que demonstrou maior resiliência. 68% das empresas afirmaram ter mantido os quadros de pessoal estáveis durante o primeiro semestre.
Em termos de investimento, as empresas mantiveram uma forte aposta na aquisição de equipamento e na eficiência operacional. 43,5% adquiriram maquinaria, 34,8% investiram em eficiência energética e a mesma percentagem direcionou investimento para a formação dos recursos humanos. A digitalização e os softwares foram referidos por 26,1% das empresas.
Para o segundo semestre, as prioridades de investimento deverão sofrer alguma alteração, com destaque para a digitalização, tecnologias de informação e softwares, a formação dos recursos humanos e a sustentabilidade. Nesta última área, 37,7% das empresas planeiam investir, um valor que representa um salto significativo face aos 10,1% que confirmaram ter realizado investimentos em sustentabilidade durante a primeira metade do ano.
O desenvolvimento de produto, o design e a inovação surgem igualmente como áreas com potencial de investimento por parte dos empresários.
Entre os fatores que mais condicionam a competitividade das empresas, os custos laborais assumem uma posição de destaque. 87% das empresas reportaram um impacto significativo destes custos, incluindo salários, contribuições e horas extra. Seguem-se os custos das matérias-primas e outros consumíveis, apontados por 78,3% dos inquiridos.
A estes fatores juntam-se os custos associados à complexidade regulatória, os custos logísticos e de transporte e os custos de energia.
As empresas identificaram ainda um conjunto de barreiras ao crescimento, entre as quais a pressão excessiva sobre os preços de venda, a incerteza económica, a volatilidade das encomendas, a concorrência desleal, a escassez de mão de obra e a burocracia.
Perante este cenário, as expectativas dos empresários para o segundo semestre mantêm-se prudentes. 44,8% das empresas antecipam uma queda na produção, enquanto 30,4% esperam um crescimento. No volume de negócios, 43,4% projetam uma contração e 34,7% preveem crescimento.
Em matéria de apoios, a necessidade mais premente identificada pelas empresas situa-se, neste momento, ao nível da tesouraria.
Apesar do contexto de pressão, os empresários continuam a identificar a sustentabilidade como a oportunidade estratégica mais significativa para o futuro, a par da defesa.
No capítulo das preocupações, o Passaporte Digital de Produto, os relatórios de sustentabilidade e a pegada ambiental de produto são os temas que geram maior apreensão entre as empresas, refletindo o impacto crescente das novas exigências regulatórias e ambientais sobre a atividade do setor.