13 fevereiro 26
Economia

Bebiana Rocha

Indústria europeia junta-se em Antuérpia por uma política industrial de emergência

A voz da indústria têxtil e vestuário europeia fez-se ouvir esta quarta-feira, 11 de fevereiro, perante mais de 500 líderes empresariais e trabalhadores, no âmbito do European Industry Summit, que decorreu na Antuérpia.

Enquanto Presidente da EURATEX, Mário Jorge Machado proferiu um discurso incisivo. Onde deu conta de que os investimentos estão a sair do velho continente, os encerramentos de unidades e perdas de emprego estão a acelerar em vários setores da indústria e, por isso, a Europa deve passar do diagnóstico à ação. Não no próximo ano, nem na próxima semana, mas hoje. A mensagem foi ouvida pela Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e pelo Primeiro-Ministro belga, Bart De Wever.

O também vice-presidente da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal sublinhou que a recuperação da competitividade exige medidas concretas: “A Europa deve recuperar a confiança e o orgulho no que produz, estimulando a procura por produtos de alta qualidade e sustentáveis, feitos na Europa.”

Para tal, defendeu três eixos prioritários: uma contratação pública que vá além do critério do preço e valorize origem, sustentabilidade e segurança nos têxteis estratégicos; transparência assegurada por um Passaporte Digital de Produto simples e viável para as PME; e uma fiscalização de mercado eficaz, capaz de travar importações não conformes.

A EURATEX integra a comunidade da Declaração da Antuérpia que, no contexto do Summit, dirigiu também uma ‘Call to Alden Biesen’ aos membros do Conselho Europeu, alertando para um dos períodos mais exigentes da história recente da Europa e apelando a “clareza, determinação e um forte sentido de propósito”. A mensagem é clara: os atuais choques políticos devem ser encarados como uma oportunidade para reforçar a política industrial europeia através de um pacote de medidas de emergência.

A carta reflete um alinhamento evidente com o discurso de abertura de Ursula von der Leyen, ao reconhecer que a concorrência global é implacável, os custos de energia permanecem elevados, persistem práticas comerciais desleais e é urgente fortalecer o mercado único. “A competitividade não será restaurada com retórica, mas através de uma implementação decisiva e coordenada de políticas em 2026”, reforçou Mário Jorge Machado.

european industry summit

A Declaração da Antuérpia transmite uma ideia central: não pode haver uma Europa resiliente, segura e forte sem uma indústria europeia igualmente forte. No mesmo enquadramento, o European Chemical Industry Council partilhou o relatório “Antwerp Declaration Monitoring Report”, elaborado pela Deloitte, com o objetivo de avaliar, com base em dados, o progresso da União Europeia na implementação dos dez pilares da Declaração.

O estudo identifica como principais desafios: preços elevados da energia; acesso limitado a contratos de compra de energia; desenvolvimento lento das interligações e aumento dos tempos de ligação à rede; financiamento público insuficiente e desigual; elevada carga regulatória; forte dependência externa de matérias-primas críticas; ausência de mecanismos de mercado que valorizem produtos de baixo carbono e “made in Europe”; barreiras persistentes no mercado interno; e um ritmo de inovação estagnado. Como sinais positivos, destaca a expansão da infraestrutura digital e o reforço da capacidade de energia limpa. O relatório alerta ainda para o facto de China e Estados Unidos se encontrarem, de forma consistente, melhor posicionados, sublinhando que a principal vantagem competitiva da UE reside na biomassa e na utilização circular de materiais.

No seu discurso de abertura, Ursula von der Leyen deixou mensagens claras: “É tempo de uma limpeza regulatória profunda – em todos os níveis”; “A indústria paga impostos sobre eletricidade 15 vezes mais altos do que sobre gás. Isto está errado”; e ainda: “Estamos a lutar pelo nosso lugar na economia global. Precisamos de velocidade para expandir a produção e crescer, escala para mobilizar mais investimento e atrair capital, e energia abundante e acessível.”

A Presidente da Comissão Europeia elencou igualmente medidas já adotadas: a duplicação dos investimentos nas transições industriais – de 52 mil milhões de euros em 2024 para 115 mil milhões em 2025 -; propostas para reduzir os custos administrativos das empresas em 15 mil milhões de euros por ano; a conclusão de novos acordos comerciais; e a aprovação de 60 novos projetos em matérias-primas críticas.

Anunciou ainda a preparação de dez pacotes omnibus e a criação de uma estrutura empresarial verdadeiramente europeia, designada “EU Inc.”, com regras únicas e simples, aplicáveis de forma homogénea em todos os Estados-Membros, facilitando o acesso ao financiamento, as operações transfronteiriças e processos de encerramento mais céleres.

A concluir, Ursula von der Leyen recordou que a Agência Internacional de Energia prevê que os preços do gás – atualmente em queda – se mantenham baixos nos próximos três a quatro anos. “Devemos aproveitar este período para investir num sistema energético de baixo carbono, que nos proteja quando os combustíveis fósseis voltarem a subir.”

Num momento de viragem para a indústria europeia, a mensagem que saiu de Antuérpia foi inequívoca: o tempo do diagnóstico terminou. É agora o momento da execução.

 

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